Antes da primeira visita há três anos, meu conhecimento sobre o Vietnã era bem ralo, quase zilch, pouco além de estereótipos batidos e do que absorvi na escola: o chapéu cônico, pontudo, o longo “ao dai” (traje típico feminino), a culinária que adoro, algumas perfunctórias noções da colonização francesa e da guerra com os EUA…
Já meu marido tinha lido bastante sobre a história do país e, por ser Graham Greene (1904-1991) um dos seus escritores favoritos, ainda carregou “O Americano Tranquilo” (The Quiet American) para reler e comparar impressões. Em Ho Chi Minh, respiramos um pouco do universo descrito pelo autor/espião inglês na década de 50, especialmente nos arredores do Hotel Majestic, onde viveu, e no pedaço da rua Catinat, atual Dong Khoi, cheia de sedas, bordados, arte, casas de massagem, alfaiatarias… Restaurantes, hospedagens e tudo mais a preços módicos, um custo de vida relativamente baixo, apesar do susto inicial com os tantos zeros, chegando às vezes aos milhões, em dong, moeda local.
Ho Chi Minh
Ho Chi Minh, antiga Saigon, ao sul, é o grande pólo econômico do país, ao passo que a capital Hanói, ao norte, é considerada seu centro cultural. A cidade de Saigon mudou de nome em 1976 em homenagem ao grande líder espiritual, o nacionalista Ho Chi Minh (mais um dos pseudônimos de Nguyen Sinh Cung, 1890-1969), engajado na luta feroz contra a França imperialista, o Japão e, mais tarde, os EUA, pela reunificação e independência do país. Para o povo, uma das estrelas mais brilhantes do seu panteão de heróis.
Entre os registros da experiência de estréia, para mim, ficou a lembrança atordoante do trânsito mais louco de todas as bandas por onde passamos, e da amálgama entre, à primeira vista, construções decrépitas de arquitetura colonial francesa, estruturas de concreto soviéticas da década de 70 e prédios mais modernos pouco a pouco emergindo no cenário urbano – um país de capitalismo comunista, complicado, desigual, energético, em franco crescimento.
Hanói
Em dezembro passado, retornamos e tivemos a oportunidade de explorar um pouco do norte, aterrissando em Hanói, esticando até Halong Bay no litoral, e o vale de Mai Chau, no interior.
Já sem aquele primeiro choque do trânsito caótico, “vacinada”, deu para caminhar mais tranqüila, menos baratinada, pela parte antiga, com cada rua especializada num tipo distinto de indústria e serviço. Pudemos contemplar as margens do lago Hoan Kien – meca dos passeios românticos -, dessa vez, apreciar mais a arquitetura colonial francesa e reconfirmar a cultura vibrante, a impressão inicial do povo resiliente, safo, sem afetação; mulheres, em especial, fortes, batalhadoras, como formiguinhas, sempre em movimento na labuta diária…
Dessa vez, não ouvi português em lugar nenhum. E havia poucos turistas de idade avançada. Parece que o Vietnã atrai pessoas com um perfil mais jovem, despojado, aventureiro, mais “intrépidas”, como diz meu marido.
As construções são quase sempre estreitas, casas crescendo para o alto. Ouvimos que os impostos são cobrados de acordo com a largura da fachada e isso explica a tendência dos prédios fininhos, “pilares” de concreto.

Na cidade, muitas moças andam de mãos dadas, assim como vimos na Coréia. São graciosas, muito procuradas como noivas, principalmente por sul-coreanos, taiwaneses e chineses mais maduros. A indústria de noivas vietnamitas para exportação é notória na Ásia e tem também inúmeras histórias sombrias de jovens vendidas por intermediários obscuros, principalmente na área rural, mais pobre, de Mekong Delta…
Em raras ocasiões avistamos o belo ao dai. Na verdade, em Ho Chi Minh, na viagem anterior, tive a impressão de tê-lo visto um pouco mais nas ruas. Por outro lado, lá estava o chapéu típico em todo canto. E sempre as mulheres carregando cestos pesados, cheios de produtos para comercializar, pendurados num bastão de madeira que apoiavam nos ombros.
No meio da fumaça e das
buzinadas constantes, entre os automóveis, imperavam Hyundais e Kias.
As caminhadas nos serviam petiscos de surpresas ad infinitum. As calçadas são tomadas por todo tipo de atividade. Cada um se vira como pode e é interessante o uso do espaço. Em todo canto, mesinhas e banquinhos em “cozinhas” e “restaurantes” a céu aberto, jogatinas e muitos estabelecimentos informais criativos, improvisados ali mesmo, com um banquinho e uma ou duas ferramentas: barbeiros, sapateiros, “postos de gasolina”, padarias, quitandas, etc…
Aqui e ali mulheres em pares, sentadas em banquinhos catando cabelo branco uma na outra… Ouvi dizer que existem até salões especializados em arrancá-los.
Aqui, abro parênteses para uma satisfação bem mundana. Um serviço que curti bastante dessa vez foi o da massagem, uma das melhores que tive na vida e por isso, para quem tem planos de visitar Hanói, passo adiante a dica. Depois de alguma pesquisa online, seguindo comentários favoráveis, fui parar no velho casarão da Just Massage e adorei. O estabelecimento oferece treinamento profissionalizante a jovens de comunidades carentes, formando massagistas habilidosos. O preço de uma boa massagem de hora e meia, uma bagatela de cerca de dez dólares. Experiência gostosa, revigorante, achado feliz.
Pela cidade, nos habituamos a ver gaiolas penduradas nas árvores das calçadas, com gente sentada embaixo, trabalhando ou no tatibitate, ouvindo o canto dos pássaros.
Halong Bay e Mai Chau
Tanto a baía de Halong como as aldeias de Mai Chau são lugares de grande beleza cênica. A viagem de Hanói a cada uma dessas áreas durou entre quatro e três horas e meia de carro.
No texto anterior, descrevi um pouco da experiência em Halong Bay. Patrimônio da Humanidade, a baía tem uma atmosfera única, com milhares de formações rochosas de calcário. Passamos duas noites numa pousada na ilha de Tuan Chau, para nós, tempo ideal para nos recuperarmos das emoções na estrada e conhecer um pouco dos arredores.
Por outro lado, em Mai Chau, na província de Hoa Binh, a viagem vapt-vupt, de apenas um dia, valeu porque pudemos matar a vontade de explorar um pouco da área rural. A paisagem no caminho até lá foi bastante pitoresca, com muitas montanhas, arrozais verdejantes e cenas inusitadas na estrada. Nem todas agradáveis, porém: alguns acidentes, um caminhão capotado, bois atravessando a rodovia, motos na contramão, ultrapassagens perigosas em curvas escarpadas, um carregamento de porcos empilhados vivos no caminhão… Visão que me fez considerar seriamente virar vegetariana de vez. No país, tudo que move, vai para a panela.
Ao chegar e caminhar pela aldeia Lac, a sensação foi de estar literalmente atravessando uma cidade cenográfica de novela. Usamos um carro com motorista para nosso grupo de três, mas quando vans de turismo chegaram e um bom número de turistas se reuniu na cantina, depois da refeição, veio o anúncio de uma apresentação de dança no salão do andar superior (performance paga).
Em frente às casas, bordados e artesanatos diversos vendidos pelos habitantes da minoria étnica Muong, de jeans e camiseta como eu. Entre os produtos da “arte local”, alguns descaradamente “made in China”. Algumas trilhas para caminhada, bicicletas a disposição para explorar o lugar…
As aldeias em si, têm arrozais e plantações de subsistência, mas são claramente voltadas para o turismo. Várias construções típicas de madeira, com palafitas, são oferecidas para o que chamam de “homestay”. Na verdade, mais uma espécie de albergue com espaços coletivos do que hospedagem autêntica com uma família vietnamita, como o termo sugere.
Procuramos mas, na curta estada, não encontramos oficinas onde pudéssemos realmente ver o processo de tecelagem e
confecção dos produtos encontrados a venda em várias casas.
Poluição
Como na primeira viagem a Ho Chi Minh há três anos, voltei para casa com uma tosse chata que me acompanhou ainda por um bom tempo. Ao chegar na Califórnia, para completar, com o cansaço e tudo mais, peguei uma virose e fiquei de molho por duas semanas.
A questão da poluição é bastante séria no país. Como na China, na Mongólia, na Índia e, em menor proporção, na Tailândia… Comparável ao Japão e a Coréia de décadas atrás, ou mesmo à Inglaterra durante a revolução industrial, essa é uma história reincidente, o preço alto que muitos países têm pagado para sair da pobreza.
No Vietnã, não ajuda o fato de estarem ali ao lado da China. Também, a grande quantidade de motos (todo mundo parece ter uma) nas ruas, o aumento do número de complexos industriais e, principalmente, o uso de combustível de baixa qualidade, são os maiores responsáveis pelo ar poluído e a altíssima incidência de doenças respiratórias. Ironicamente, o país produz petróleo de primeira para exportação, mas carece de refinarias, por isso, acaba importando a gasolina… De qualidade ruim, altamente poluente. Nas ruas, muita gente usa máscaras ou um pano cobrindo o rosto parcialmente… Já no primeiro dia da estada nossa garganta e nariz sentiram.
Os rios também não ficam atrás. Nos últimos anos houve uma série de escândalos de grandes indústrias flagradas por auditorias jogando lixo tóxico nos canais, preferindo pagar multas do que investir numa estrutura de tratamento. Em algumas áreas, há notícias de alto teor de arsênico na água supostamente potável. E até hoje, apesar de uma consciência maior do problema, poucas medidas de verdade eficazes foram adotadas para erradicá-lo.
Quando com sede, bebíamos sempre água engarrafada, ou apelávamos para refrigerantes, sem gelo. Nada de sucos ou refrescos. A água, no entanto, é usada na comida e dessa ninguém escapa. Lidar com a poluição foi a parte da viagem que não deixa saudade, mas ainda assim, nos sentimos motivados para seguir em frente, explorando o lugar, com sua cultura tão rica e diferente. Quem sabe, com alguma sorte, não possamos retornar para ver um quadro diferente daqui a alguns anos.
No final, fica a satisfação da sensação do pouso seguro, depois da turbulência, o senso de descoberta e conquista: o frescor de algumas presunções dissolvidas, medos superados e, sim, velhos, pequenos prazeres adquirindo em casa uma doçura maior…
*Massa de porco e camarão, aromatizada com “espeto” de cana de açúcar, envolta com ervas em “papel de arroz” – restaurante Quan An Ngon, em Hanói
# Texto adicional sobre o país: Halong Bay e os Dragões da Prosperidade


























Dorothéa Silva de Souza
30/01/2012
Gostei demais da sua descrição das cidades. Pude me transportar para lá. Parabéns. Estivemos lá em setembro e sua experiência nos deixou com saudades daquela loucura…
Dorothéa
Alzira AmorimL
02/02/2012
Lilian San,Espero que você tenha ficado completamente boa da virose. Menina como o casal
têem viajado. Sabia que você é uma grande reporter? Da gosto ler o que escreve. Viajei junto com vocês. Você conheçe Changai na China? Achei as telhas da construção no meio do Lago Hoan Kien parecidas. Enfim tudo é Asia. Muita saúde para o casal poder realizar várias viagens para serem recordadas na velhice daqui a muitos anos.
Beijos Alzira
bertagna
02/02/2012
Reblogged this on Beto Bertagna a 24 quadros.
Sérgio Lopes
02/02/2012
Gostei muito de ler sobre a sua viagem pelo Vietnam. É sem dúvida em país lindíssimo e que quero revisitar. Também por lá andei, cujas crónicas publiquei aqui:
http://trilhos.wordpress.com/category/viagens/asia/vietname/
Abraço,
Sérgio
charucas
02/02/2012
Muito bom o seu relato de viagem.. Também temos textos assim no nosso blog.
Allan
29/02/2012
Impressionante a capacidade que temos de reconstruir.
Sissym
12/04/2012
Estou impressionada com seu relato. Apreciei muito ler sobre um lugar que pouco conheço.
Lindo o visual em Halong Bay!
Ahhhh… e sobre os gatos, foi isso mesmo, usei o mesmo post para falar de 2 assuntos de gatos diferentes. rssss
Inaie
20/05/2012
Adorei o relato. Talvez eu vá ao Vietnam em agosto, e caí no seu blog por puro acaso, se é que acasos realmente existem.