Halong Bay e os Dragões da Prosperidade

Posted on 09/01/2012

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Halong Bay

Há poucos dias o New York Times publicou uma matéria interessante entitulada O Que o Reconhecimento da UNESCO Significa Exatamente?

O texto faz menção aos tratados que visam a proteção não só de seletos locais considerados “de excepcional valor universal” pelo comitê, como, desde 2003, de uma lista de Patrimônios Culturais Intangíveis (impalpáveis), focando assim não só em lugares, como em tradições também: por exemplo, certas danças, artesanatos, rituais, etc.  A abordagem crítica do jornal  descreve o impacto de “fogos de artifício” do destaque dado a esses lugares, e a conseqüente invasão desenfreada de hordas de turistas, provocando muitas vezes o efeito contrário à almejada preservação, um tornado devastador, criando ou exacerbando problemas como a deterioração, poluição, crimes, disputas, fim da tranquilidade do povo local, sequelas da ganância da indústria do turismo, mais preocupada com o ganho instantâneo do que com a manutenção a longo prazo… Afinal, turistas trazem hotéis, restaurantes, empregos, dinheiro no bolso… a palavra mágica: prosperidade.

De acordo com o website oficial da UNESCO, totalizamos no Brasil, atualmente, dezoito Patrimônios da Humanidade. Com esse título, vem prestígio e direito a fundos da instituição, de acordo com a necessidade. Mas será que toda essa promoção está dando bons frutos, com monumentos e marcos realmente bem administrados?

aldeia flutuante de Cua Van

Cua Van

O texto foi bastante oportuno e, em particular, ecoou forte dentro de mim pelo fato de termos acabado de voltar do norte do Vietnã, de uma viagem que incluiu uma visita a Halong Bay.

A baía, além de Patrimônio Natural da Humanidade, foi selecionada provisoriamente, em novembro do ano passado, como uma das “novas sete maravilhas do mundo” (juntamente com a Amazônia e as Cataratas do Iguaçu), constando também na lista do NYT, dessa semana, dos top 45 lugares para se visitar em 2012 (do Brasil, entrou Paraty).

Halong Bay

Segundo a lenda, as ilhas se formaram a partir de jóias cuspidas pelos dragões

Pois bem, deu para ver e sentir na pele um bocado do contexto descrito no artigo. O país em si, é atualmente um dos mais poluídos da Ásia,  juntamente com a Mongólia, a Índia e a China. E mesmo em lugares remotos no campo, o ar costuma ser denso, esbranquiçado, minhas fotos saíram quase todas turvas, senti uma ardência na garganta e tive meu nariz entupido durante praticamente toda a estada de dez dias.

Halong Bay não fugiu à regra. Embora os guias de turismo garantam que o ar é assim devido às condições climáticas dessa época do ano, a cidade, perto da fronteira com a China, cresce a todo vapor e existem também complexos industriais em franca expansão logo ali ao lado. A baía, no entanto, é realmente muito bonita, com milhares de formações rochosas de calcário, muitas grutas, um ar místico, até etéreo, com as ilhas envoltas pela névoa, diz a lenda, jóias cuspidas  pela família de dragões que veio proteger o país de invasores forasteiros.  Halong (ou Ha Long) quer dizer  “dragão que desce” e fica na província de Quang Ninh, a três horas e meia da capital, Hanói.

detritos embaixo da cabana

uma das muitas grutas

Confesso que o “selo de qualidade” da UNESCO influiu, em parte, na decisão de explorar o lugar e inflou um pouco minhas expectativas. Mas, durante nosso passeio em alto-mar, que durou cerca de seis horas, parando aqui e ali, achamos estranho não ver um único peixe pulando, nadando no mar, ou mesmo aves se alimentando por lá, apesar da aldeia de pescadores estar logo ali, com seus peixes frescos a mostra. Por outro lado, muitos detritos e manchas de óleo, claramente provenientes das centenas de embarcações turísticas e das aldeias flutuantes. Alguns passageiros comentam ter visto membros da própria tripulação despejando lixo, muitas vezes da cozinha, no mar.

As instalações das paradas eram, de forma geral, precárias, sem estrutura para receber o mundaréu de gente. Detritos dos banheiros são despejados no solo e na água que cercam as ilhas. Há também o problema da redução da umidade nas cavernas, devido ao aumento das cavidades de entrada para receber o  fluxo de turistas, e o consequente desequilíbrio, a quebra de estalactites e estalagmites no seu interior.

uma das "cabanas" da Viet House

Na hospedagem nos alertaram para não comprar nada oferecido durante o passeio, além da refeição inclusa no pacote: bebidas, pérolas (chinesas), cartões postais (encalhados, ainda em era análoga), frutos do mar da aldeia flutuante… tudo com preços abusivos. Seguimos à risca o conselho e, com isso, percebemos um tratamento mais frio da tripulação na parte final do passeio, frustrada ao tentar nos empurrar uma penca de coisas para consumir, sem sucesso.

 Cua Van

A aldeia flutuante de Cua Van, que vimos, é a maior entre as quatro da região, resultado de um projeto financiado pelo governo norueguês, implementado em 2006 pelo Museu Ecológico de Halong. O povoado flutuante era bem semelhante ao que vimos no rio Tonle Sap, no Camboja (lá, incidentalmente com muitos imigrantes vietnamitas). As pessoas vivem em pequenas embarcações cobertas, algumas maiores, com forma de casa, outras, mais frágeis, às vezes, um barquinho com um pequeno abrigo sob o qual se apertam quatro, cinco pessoas, principalmente no caso dos ciganos marinhos. A comunidade tem até uma igreja e uma escola flutuante. E pudemos ver de relance um pouco do seu estilo de vida: fumaça saindo da cozinha improvisada; gerador, antenas de tv; mulheres lavando roupa; barcos circulando para oferecer algo aos turistas…

amanhecer visto da pousada

Hospedagem

Não optamos por um dos populares pacotes de cruzeiro com pernoite (nas cabines dos barcos) vendidos pelas cerca de dez mil agências de Hanói, para ter a liberdade de uma agenda não programada, nos possibilitando o movimento ao sabor do tempo e do vento. Demos sorte, os donos da pousada Viet House, na ilha Tuan Chau, onde ficamos – o alemão Heiko, e sua esposa vietnamita, Ly – foram anfitriões atenciosos e a comida, muito boa. No segundo dia, pela manhã, solícito, Heiko insistiu em me emprestar seu casaco, preocupado com o frio em alto-mar. Ao ir nos buscar no porto depois do passeio de barco, o casal se ofereceu para nos levar a Hon Gai, uma parte mais próspera, a leste da cidade de Halong, que floresce e está atraindo muitos nouveaux riches, construindo mansões milionárias no local, pois tínhamos demonstrado interesse em explorar os arredores. Lá, não vimos sombra de nenhum turista. Detalhe: o passeio por um par de horas foi cortesia do casal.

Hon Gai e Comércio

mercado em Hon Gai

Desse lado da cidade, em Hon Gai, notamos um crescimento pronunciado, um pouco mais de organização e infra-estrutura, maior até do que vi na grande Hanói. Logo ao lado, na parte oeste há poucos minutos, Bai Chai, onde se concentram os turistas, uma corrente de hotéis proeminentes. Heiko comentou que, com o desenvolvimento urbano, acreditava ser uma questão de tempo a varredura de certas aldeias locais (as que não são para turista ver), provavemente aumentando o número de sem teto e destituídos…

Na viagem de volta para Hanói, ainda na região, o motorista parou numa grande loja de cerâmica e souvenirs e, como nos outros pontos comerciais, os vendedores, afoitos, nos cercaram com cifrões nos olhos e a clássica pegunta – “Do you want to buy something?” – disputando nossa atencão, empurrando produto após produto…

Meu marido se sentiu “coisificado”, meio mal com a abordagem insistente e agressiva, a frequente  atitude  de se querer levar vantagem sobre o turista. Enfim, um aspecto mais sombrio que também faz parte do quadro de mudanças sócio-econômicas da região, trazidas nos ventos do boom do turismo.

Concluindo

A boa notícia é que, pouco a pouco, instituições no mundo – como a JICA e a DEFRA, por exemplo – começam a se envolver também e a se mobilizar para difundir uma conscientizacão e ajudar a reverter a questão ambiental de Halong Bay.

Que o lugar é realmente lindo… Ah, isso é.

E pode ser ainda tanto mais.

Que os dragões o protejam.

# Mais sobre o país: Vietnã, Fragmentos de Viagem

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Posted in: Viagem