Breik: O que você é?

Posted on 12/12/2011

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entrada do Museu de Artes e Design

Era um menino com os olhos tristes, a cabeça baixa. Tinha chifres de cervo, um deles quebrado, e vestia uma minúscula roupa de peles, com ar de Mogli. O que de cara me chamou a atenção foi o semblante meio familiar, o realismo nos detalhes, a expressão do olhar, a alvura da pele, a sugestão do movimento… Me lembrando jovens orientais em quem havia esbarrado de fato, em carne e osso, nas ruas movimentadas de Tóquio ou de Seul.

A obra “Breik”, do coreano Kim Hyun Soo, estava num canto bem iluminado, perto da janela, no Museu de Artes e Design de Nova York. O espaço aberto ao público é limitado e nos pareceu menor ainda por ter um dos pisos fechados para visita agora, no começo de novembro.

Do pequeno tour pelos museus da cidade, os Klimts do MoMA e do Neue, em especial, me encantaram e despertaram a vontade de desenredar o trabalho do pintor por inteiro, inclusive as tantas belas paisagens desconhecidas do grande público. Mas essa obra do artista coreano, na sua simplicidade, foi uma das mais intrigantes para mim, com um quê de fantástico e pungente.

O artista mescla a ilusão, o conto de fadas, com linhas e texturas de aparência realista. Esse é seu estilo pessoal e seus trabalhos são daqueles que enchem o espaço de tensão, exercem um fascínio irresistível, fazendo a gente, sem querer, parar para reparar nas minúcias, sentir e viajar…

E lá fui eu. Brequei, respirei fundo e mergulhei na jornada. O que a escultura me diz? Credo… Que loucura é essa do chifre partido, ensanguentado? A mão no outro, intacto, como se quisesse quebrá-lo também?

Breik

É como se resistisse à mudança, à condição híbrida de alce e ser humano, buscando uma definição… Parece que quer ser um menino, pura e simplesmente.

Viajei na maionese. Pensei na minha própria condição mestiça, navegando entre duas culturas. Carioca, filha de mãe nisei (japonesa de segunda geração) com dupla nacionalidade, e pai descendente de portugueses e espanhóis, o restante da genealogia desconhecida, quantas vezes na adolescência não me senti como o menino, querendo partir os chifres e pular de cima do muro…

Quando pequena, fui criada no interior com meus avós japoneses. Absorvi os dois idiomas e culturas como uma esponja, com orgulho e gosto. Aí, um pouco mais crescida, fui viver na cidade com meus tios. E naquela idade tenra em que o universo escolar reinava supremo, tudo o que eu queria era me enturmar, me encaixar no novo contexto, me tingindo das cores ao redor. Me incomodava ser distinguida, chamada na rua de “chininha” ou “japinha”,  quando eu queria gritar que aquilo não me definia, numa época em que eu mesma tentava descobrir quem de fato era. Me aborreciam os estereótipos, as preconcepções, a insistência de um rótulo…

Basta clicar na foto para aumentar a dimensão.

Acredito que o lugar onde crescemos é o que predomina na nossa identidade cultural. Por outro lado, é interessante como o idioma molda nossos pensamentos e  vice-versa. Os códigos de comunicação são bem distintos e sou uma pessoa diferente quando lido com as ferramentas de um ou de outro lado. Quando mais jovem, isso criava um pouco de confusão, assim como minhas reações dissonantes, contraditórias, a percepção de certos costumes e valores nipônicos arraigados, o que me fazia sentir sempre, de todo jeito, meio forasteira: um pouco japonesa entre brasileiros e, mais tarde, brasileira entre os japoneses…

Com o tempo, porém, de alguma forma, aprendi a celebrar  a ambiguidade, o intricamento, e a navegar com flexibilidade, buscando conscientemente tirar o melhor de cada um desses mundos. Antes, de saco cheio, me sinto agora mais confortável com a pergunta “What are you?”, não tão rara assim aqui fora. Nessa era transnacional, os chifres até vêm a calhar, como um bom instrumento de defesa e sobrevivência.

Incidentalmente, o artista de “Breik” confessa que o menino da escultura representa, quem diria, ele mesmo, na figura de um jovem que não quer crescer.

Minha imaginação foi mais além. E esse é o grande barato da arte.

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