Era um menino com os olhos tristes, a cabeça baixa. Tinha chifres de cervo, um deles quebrado, e vestia uma minúscula roupa de peles, com ar de Mogli. O que de cara me chamou a atenção foi o semblante meio familiar, o realismo nos detalhes, a expressão do olhar, a alvura da pele, a sugestão do movimento… Me lembrando jovens orientais em quem havia esbarrado de fato, em carne e osso, nas ruas movimentadas de Tóquio ou de Seul.
A obra “Breik”, do coreano Kim Hyun Soo, estava num canto bem iluminado, perto da janela, no Museu de Artes e Design de Nova York. O espaço aberto ao público é limitado e nos pareceu menor ainda por ter um dos pisos fechados para visita agora, no começo de novembro.
Do pequeno tour pelos museus da cidade, os Klimts do MoMA e do Neue, em especial, me encantaram e despertaram a vontade de desenredar o trabalho do pintor por inteiro, inclusive as tantas belas paisagens desconhecidas do grande público. Mas essa obra do artista coreano, na sua simplicidade, foi uma das mais intrigantes para mim, com um quê de fantástico e pungente.
O artista mescla a ilusão, o conto de fadas, com linhas e texturas de aparência realista. Esse é seu estilo pessoal e seus trabalhos são daqueles que enchem o espaço de tensão, exercem um fascínio irresistível, fazendo a gente, sem querer, parar para reparar nas minúcias, sentir e viajar…
E lá fui eu. Brequei, respirei fundo e mergulhei na jornada. O que a escultura me diz? Credo… Que loucura é essa do chifre partido, ensanguentado? A mão no outro, intacto, como se quisesse quebrá-lo também?
É como se resistisse à mudança, à condição híbrida de alce e ser humano, buscando uma definição… Parece que quer ser um menino, pura e simplesmente.
Viajei na maionese. Pensei na minha própria condição mestiça, navegando entre duas culturas. Carioca, filha de mãe nisei (japonesa de segunda geração) com dupla nacionalidade, e pai descendente de portugueses e espanhóis, o restante da genealogia desconhecida, quantas vezes na adolescência não me senti como o menino, querendo partir os chifres e pular de cima do muro…
Quando pequena, fui criada no interior com meus avós japoneses. Absorvi os dois idiomas e culturas como uma esponja, com orgulho e gosto. Aí, um pouco mais crescida, fui viver na cidade com meus tios. E naquela idade tenra em que o universo escolar reinava supremo, tudo o que eu queria era me enturmar, me encaixar no novo contexto, me tingindo das cores ao redor. Me incomodava ser distinguida, chamada na rua de “chininha” ou “japinha”, quando eu queria gritar que aquilo não me definia, numa época em que eu mesma tentava descobrir quem de fato era. Me aborreciam os estereótipos, as preconcepções, a insistência de um rótulo…
Acredito que o lugar onde crescemos é o que predomina na nossa identidade cultural. Por outro lado, é interessante como o idioma molda nossos pensamentos e vice-versa. Os códigos de comunicação são bem distintos e sou uma pessoa diferente quando lido com as ferramentas de um ou de outro lado. Quando mais jovem, isso criava um pouco de confusão, assim como minhas reações dissonantes, contraditórias, a percepção de certos costumes e valores nipônicos arraigados, o que me fazia sentir sempre, de todo jeito, meio forasteira: um pouco japonesa entre brasileiros e, mais tarde, brasileira entre os japoneses…
Com o tempo, porém, de alguma forma, aprendi a celebrar a ambiguidade, o intricamento, e a navegar com flexibilidade, buscando conscientemente tirar o melhor de cada um desses mundos. Antes, de saco cheio, me sinto agora mais confortável com a pergunta “What are you?”, não tão rara assim aqui fora. Nessa era transnacional, os chifres até vêm a calhar, como um bom instrumento de defesa e sobrevivência.
Incidentalmente, o artista de “Breik” confessa que o menino da escultura representa, quem diria, ele mesmo, na figura de um jovem que não quer crescer.
Minha imaginação foi mais além. E esse é o grande barato da arte.







Margot Félix
16/12/2011
Muito forte essa escultura. O que ela representa fica à interpretação de cada um, mas a sua faz todo sentido.
Um abraço!
Lilian Kano
20/12/2011
É, Margot, e era tão vívida, parecia prestes a se mover. Acho que muita gente deve sentir afinidade com a metáfora do chifre quebrado em algum ponto da vida. Do meu jeito torto, foi assim que senti.
Boas festas!
Allan
27/12/2011
O artista produz apenas metade da obra. A outra metade é o observador quem compõe, partindo da própria experiência e do próprio modo de interpretar o mundo. Muito insigante a escultura. Estou construindo a minha metade agora mesmo.
Feliz Ano Novo!
Sissym
28/12/2011
Como é linda a obra! Quanta perfeição. Simples. Um olhar meio triste.
Creio que cada um interpretará de uma maneira diferente da outra.
Lilian, muito obrigada pela visita.
Desejo a voce tudo de bom para 2012.
Beijos
Patrícia Taconi
03/01/2012
Oi Lilian querida!
Que o seu 2012 seja um ano de muito crescimento, boas surpresas, prosperidade e amor.
Te conhecer também foi um lindo presente e cada vez que venho aqui me sinto muito bem recebida!
Que Deus te abençõe e te guarde sempre!
Um beijo!
P.S. Estou meio ausente da blogsfera porque passo por um período de reorganização da minha vida, muita coisa acontecendo junto, mas logo estou de volta. Até mais!
SamantaSammy
09/01/2012
Olá Lilian !!!
Gostei muito da postagem, primeiro porque não conhecia a obra e também fiquei intrigada e atraída pela sua forma e possível significado e segundo pelo seu relato que com certeza faz com que cada um de nós se identifique, afinal , quem não tem um pouco de ambiguidade seja ela de raça, atitude ou íntima, não é mesmo ?
Pensando na obra, fui mais para o lado da sua interpretação do que do objetivo do artista, mas como disse, esta é a grande beleza da Arte, esta liberdade de sentimentos e sensações
Aproveito para desejar um lindo 2012, cheio de alegrias,. paz, amor, saúde e sucesso pra você e os seus !!
Grande beijoooooooo
Bia Hain
12/01/2012
Olá, Lilian! Curiosos os sentimentos que a arte desperta, tal qual um texto quando é escrito…Fiquei impressionanda com sua história tão rica! Imagino como foi complicado lidar com tantas informações na adolescência, por si só conturbada, mas com certeza contribuiram para formar uma pessoa com visão tão ampla como você me parece ser. Sempre é bom conhecer novas pessoas! Um abraço!
Lilian Kano
13/01/2012
Queridos amigos Allan, Syssim, Patty, Sammy e Bia,
Super obrigada pela visita e feedback! Os comentários me incentivam a seguir escrevendo.
Um maravilhoso ano do dragão para vocês, com borbotões de saúde, serenidade e amor!
Sammy
08/03/2012
sugoi o artista!
Lilian Kano
22/03/2012
Ao mesmo tempo, simples, criativo, delicado, com um quê de conto de fadas… Como você diz, sugoi, Sammy. Principalmente os olhos, a parte mais expressiva para mim.
Yoi shuumatsu o!
Bruno Simomura
13/03/2012
Olá Lilian,
Uma obra de arte simplesmente fantástica, e acho que fica na nossa mente uma série de interpretações possíveis, e talvez, para cada momento poderíamos compreender ela de uma maneira diferente.
Abração!
Lilian Kano
22/03/2012
Oi, Bruno
É verdade. Para cada um de nós o que essa obra comunica vai ser diferente., intelectualmente, emocionalmente, dependendo da perspectiva, do momento… O que acho legal são as reações diversas que ela catalisa, difícil ficar indiferente.
Valeu pela visita.
Um grande abraço!