As Vozes de Asolo

Posted on 27/11/2011

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Era um fim de setembro outonal, mas os dias na Itália seguiam tão quentes quanto os do verão californiano. Depois de algum tempo com o pé na estrada e uns poucos desvios com bússola quebrada, enfim chegamos a Asolo, a idílica “cidadezinha dos cem horizontes”, de vista panorâmica, onde logo na primeira parada nos informaram que os carros precisavam de autorização para percorrer as estreitas ruelas medievais do povoado.  O hotel ficava bem adiante, na encosta do morro, tínhamos bagagem e no way, não havia como estacionar e arrastar as trouxas até lá…

ruelas estreitas

Avançamos cuidadosamente, tensos com a carapuça da infração, e paramos de novo para perguntar ao menino de bicicleta que, com um sorriso amistoso e muita presteza, se ofereceu para nos levar até a hospedagem, o pequeno Albergo Al Sole. O carro poderia seguir sem problema já que tínhamos reserva no hotel e foi um tal de sobe-desce ladeira sob o sol, atravessando a cidade. Minutos depois, salvador da pátria com a língua de fora, anunciou que chegamos. Agradecendo e gesticulando efusivamente, engatamos uma conversa num mix de italiano macarrônico com português e, de alguma forma, nos fizemos entender. Seu nome era Edoardo, um anjinho alegre e afável que, sob o viés do cenário prisco, por um momento, me remeteu ao personagem infantil de Chá com Mussolini. De repente, perguntou se estávamos com fome. Era hora da bóia e de fato nosso estômago já estava nas costas. Disse então que logo perto, na rua tal e tal havia um ótimo restaurante, chamado “Bistrot”, segundo ele, o melhor da cidade. Detalhe: era da “mama”.

chegando ao hotel

Edoardo, nosso guia de bicicleta

Fizemos o check in e tocamos para o restaurante, onde Edoardo já nos esperava. Nos apresentou a sua mãe e contamos a ela como ele gentilmente havia nos ajudado e indicado o restaurante. Brincando, de um jeito afetuoso, sem esconder o orgulho, disse balançando a cabeça: “Meu filho, com nove anos e  fazendo business…”  Na despedida, surpresa, ganhei um abraço apertado do menino e já comecei a estada amando o lugar e as pessoas.

“Mama” atrás do balcão do restaurante Bistrot

Asolo é uma típica cidadezinha da restrita rede cittàslow, onde Papa Léguas entra muito pouco, quase sempre para eventos de ciclismo, e os residentes fazem de tudo para levar uma vida mais saudável, verde, simbiótica, devagar e sempre, sem perder a identidade, a equanimidade, valorizando suas tradições e produções locais. Muitas opções de osterias, enobares e pequenas lojinhas com conteúdo de qualidade.

região de Veneto

Demos sorte, o despretensioso Bistrot e o restaurante do hotel (supracitado) eram duas jóias do lugar. Os comerciantes são coesos, apoiam-se mutuamente, e logo fomos informados da procedência do vinho, do azeite delicioso, dos queijos e do mel, claro, todos produzidos localmente.

Belos vinhedos, oliveiras, ciprestes, o forte Rocca imponente no topo da montanha, resquícios do castelo da rainha Caterina Cornaro (séc.15), monumentos históricos, palazzos, villas renascentistas, um aqueduto romano, a vista do monte Grappa, das Dolomitas alpinas, a restrospectiva dos passos românticos do casal de poetas ingleses, Robert Browning e Elizabeth Barrett Browning, entre os célebres habitantes do passado… A cidadezinha slow, bucólica e pitoresca, refúgio adotado por tantos escritores e pintores, foi para nós um inesperado achado.

Catedral 

Até mesmo porque, verdade seja dita, inicialmente não tínhamos intenção de visitá-la. Fomos ao país para eventos em Bolonha e  Verona, com planos de esticar até Veneza, explorar arredores (seguindo algumas dicas preciosas do Allan, do Carta da Itália) e depois de uma semana, via Trieste, seguir para a Eslovênia e a Croácia, relativamente perto. Entretanto, essa vai ser lembrada como a viagem em que o esmerado preparo desembocou num improviso provavelmente melhor ainda, com expectativas superadas. Passamos por Veneza, as cidades de Treviso e Vicenza conforme o previsto e, curtindo o que vimos, nos pusemos a explorar um pouco mais a região de Veneto, no norte da Itália. Viajamos devagar, parando em cidadezinhas antigas no sopé de castelos, como Castelfranco, Bassano del Grappa e Asolo, onde a vida não tem pressa. Espontânea mudança de curso, acabamos nos apaixonando pelo entorno e não quisemos mais sair de lá. Valeu a pena e aqui passo adiante a dica. Para quem vai a Veneza e, em seguida, quiser fugir um pouco das multidões e rotas batidas, experimente explorar um pouco mais Veneto. Em especial, a municipalidade de Asolo (a cerca de uma hora e meia), com pouco mais de nove mil habitantes, deliciosa como suas uvas, para sorver bem devagar.

Típico horário comercial, com pelo menos três horas de intervalo para almoço

Quem pensa que o mês de setembro é tranquilo para viajar pelo oeste europeu, ledo engano. É começo de outono, tem menos grupos de excursão, mas ainda é considerado parte da temporada de pico. Veneza estava atafulhadíssima.

Em Asolo, entre as lembranças mais distintas, os sons do povoado ao longe, que chegavam ao hotel. Em especial, ao cair da tardinha e ao anoitecer, quando as famílias se reuniam, em sincronia com as luzes que iam pouco a pouco se acendendo. Sem fuzarca, alarde de motores e buzinas… Eram sons com o frescor da simplicidade, de vizinhos conversando, latido de cachorro, mães chamando os filhos, vozes de muitas idades, perdendo-se entre os matizes e os aromas da noite. Sons pontuados de silêncio, canto da aldeia, em ritmo brando de serenidade  e paz.

# Mais sobre o movimento Slow aqui (Movimento Slow: Reduzindo a Marcha).

# Sobre a Itália e Veneza: Veneza, a Magia da cidade Flutuante

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Posted in: Viagem