De Volta para Casa

Posted on 02/11/2011

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(Há muito, sem tempo para postar, republico um texto antigo ainda pouco lido.)

Num belo dia de céu azul e calor escaldante de verão, aterrissamos na cidade maravilhosa, direto do inverno branco, gélido, do norte. Ao desembarcar, choque térmico, reajuste gradual ao clima, à paisagem, às novas regras de ir e vir e ao ritmo frenético do trânsito local. O motorista é eficiente, habilidoso na escolha dos atalhos e, depois de cruzados alguns sinais vermelhos, em poucos minutos vamos nos aproximando do bairro da minha infância, da aborrescência, dos tempos saudosos da faculdade, do primeiro emprego… Ruas que todos os dias me viram arrastar a bolsa pesada de livros e sair, esperançosa, passos pequenos e rápidos, para o mundo, que me aguardava.

Avistamos a padaria do português, das nossas bisnagas, esfihas e sorvetes Chicabon; na rua, a casa da dona Nair, do primeiro banho de piscina; a do seu Vantuil, que gentilmente nos dava carona para as aulas de catecismo; mais adiante, as das amigas, as Denises; em todo canto, um significado, uma recordação… Enfim, o pé de flamboyant, frondoso, dando ainda uma boa sombra aos carros estacionados em frente de casa; muro de pedra, vitraux coloridos. Chegamos. A velha sensação de ancoragem e alívio ao ver o portão se abrir. Um suspiro quase mudo de desafogo, como aquele de quando o avião finalmente aterrissa, toca a terra firme, sente a base sob si…

Até cruzar o portão, porém, um friozinho insistente na barriga, o coração palpitando eufórico, a saudade em ebulição… Tanto tempo… Corre a espinha aquela ansiedade familiar do reencontro: afeição, comunicação, interesses, sintonia, intimidade, diferenças, afinidades… O que mudou? O que ficou? Nos dias seguintes, olho no olho, a reconfirmação de todo esse lote. O contra-senso de um processo simples e complexo, como uma jornada multifacetada, nostálgica e visceral às entranhas da terra em que germinei, onde anos atrás foi plantada a semente, traçado o projeto do cultivo, mãos de tesoura invisíveis aparando galhos, dando início, pouco a pouco, à forma da pessoa que hoje sou.

Reparo nas plantas saudáveis e exuberantes da varanda, nas pequenas mudanças na casa; nos porta-retratos da sala; sinto o passar do tempo; abraço meus tios; beijo meu avô…

De repente, paira sobre mim, de novo, a sombra da menina tímida e desajeitada que fui…

Voltar para casa é sempre desse jeito, um turbilhão impetuoso, um labirinto em que me perco e me encontro, me repito e me renovo: desvendo o presente, revejo o passado e desenterro uma parte dessa menina. É, a cada vez, compreender melhor o molde em que fui feita; descobrir por que cargas d’água, para onde quer que me mude, em terras estrangeiras, cismo sempre em ter uma espécie qualquer de samambaia… E orquídeas, que ficam meses e meses em flor.

Como a tartaruga que carrega a casa nas costas, carrego a samambaia, a orquídea e o senso de tranquilidade que me dão.

Voltar para casa é o prazer de rever entes queridos, a dinâmica familiar e as próprias raízes. É experimentar a estranha sensação da simultânea presença e ausência, vendo fotos e ouvindo planos comuns dos quais já não faço parte; é também ser invadida por uma súbita melancolia, pelos buracos, lacunas, as faltas irremediáveis, ausências alheias sentidas; descobrir a volatilidade do que julgava “para sempre”… É a certeza e o conforto de ter a quem fazer confidências, ouvidos atentos, palavras de alento; na ânsia da atualização, perguntar mais do que ser perguntada; a todo regresso, poder relaxar, gargalhar, chorar, estar no meu elemento com as mesmas velhas e boas amigas; revitalizar conexões; por outro lado, às vezes, também confrontar uma eventual indiferença… É sentir o cheiro gostoso do feijão fumegando na panela; rever as tartarugas que, há décadas, resignadas, sobem e descem o mesmo canteiro no quintal; descobrir um novo vinho nacional a cada visita; matar a saudade dos churrascos, dos salgadinhos, das tortas deliciosas e dos sucos misturebas exóticos que só o Brasil sabe fazer; sentir os abraços mais apertados, os sorrisos mais brilhantes, a languidez nas despedidas…

Pelas minhas contas, já superei os felinos faz tempo. Estou na décima vida. Nessa, mais recente, encontrei a minha melhor metade, casei e mudei. Morei em três países, viajamos por quatro continentes, me fascina a noção aberta, sem fronteiras, de “cidadão do mundo”, a sensação inefável de que o globo me pertence e eu pertenço a ele.

No entanto, onde quer que esteja, é mesmo no Rio que mora meu coração.

De tempos em tempos, preciso voltar para casa, para minha tribo, meu porto seguro: ter um update in loco; me enternecer e inquietar com a família; recarregar as energias; deixar a garotinha ir adiante, pedir colo; garimpar descobertas de mim…

O tempo, como sempre, passa num piscar de olhos. Logo chega a hora da despedida.

Como dizem os japoneses, itte kimasu. Até breve.

Vou, mas volto logo.

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Posted in: Ponto de Vista