(Há muito, sem tempo para postar, republico um texto antigo ainda pouco lido.)
Num belo dia de céu azul e calor escaldante de verão, aterrissamos na cidade maravilhosa, direto do inverno branco, gélido, do norte. Ao desembarcar, choque térmico, reajuste gradual ao clima, à paisagem, às novas regras de ir e vir e ao ritmo frenético do trânsito local. O motorista é eficiente, habilidoso na escolha dos atalhos e, depois de cruzados alguns sinais vermelhos, em poucos minutos vamos nos aproximando do bairro da minha infância, da aborrescência, dos tempos saudosos da faculdade, do primeiro emprego… Ruas que todos os dias me viram arrastar a bolsa pesada de livros e sair, esperançosa, passos pequenos e rápidos, para o mundo, que me aguardava.
Avistamos a padaria do português, das nossas bisnagas, esfihas e sorvetes Chicabon; na rua, a casa da dona Nair, do primeiro banho de piscina; a do seu Vantuil, que gentilmente nos dava carona para as aulas de catecismo; mais adiante, as das amigas, as Denises; em todo canto, um significado, uma recordação… Enfim, o pé de flamboyant, frondoso, dando ainda uma boa sombra aos carros estacionados em frente de casa; muro de pedra, vitraux coloridos. Chegamos. A velha sensação de ancoragem e alívio ao ver o portão se abrir. Um suspiro quase mudo de desafogo, como aquele de quando o avião finalmente aterrissa, toca a terra firme, sente a base sob si…
Até cruzar o portão, porém, um friozinho insistente na barriga, o coração palpitando eufórico, a saudade em ebulição… Tanto tempo… Corre a espinha aquela ansiedade familiar do reencontro: afeição, comunicação, interesses, sintonia, intimidade, diferenças, afinidades… O que mudou? O que ficou? Nos dias seguintes, olho no olho, a reconfirmação de todo esse lote. O contra-senso de um processo simples e complexo, como uma jornada multifacetada, nostálgica e visceral às entranhas da terra em que germinei, onde anos atrás foi plantada a semente, traçado o projeto do cultivo, mãos de tesoura invisíveis aparando galhos, dando início, pouco a pouco, à forma da pessoa que hoje sou.
Reparo nas plantas saudáveis e exuberantes da varanda, nas pequenas mudanças na casa; nos porta-retratos da sala; sinto o passar do tempo; abraço meus tios; beijo meu avô…
De repente, paira sobre mim, de novo, a sombra da menina tímida e desajeitada que fui…
Voltar para casa é sempre desse jeito, um turbilhão impetuoso, um labirinto em que me perco e me encontro, me repito e me renovo: desvendo o presente, revejo o passado e desenterro uma parte dessa menina. É, a cada vez, compreender melhor o molde em que fui feita; descobrir por que cargas d’água, para onde quer que me mude, em terras estrangeiras, cismo sempre em ter uma espécie qualquer de samambaia… E orquídeas, que ficam meses e meses em flor.
Como a tartaruga que carrega a casa nas costas, carrego a samambaia, a orquídea e o senso de tranquilidade que me dão.
Voltar para casa é o prazer de rever entes queridos, a dinâmica familiar e as próprias raízes. É experimentar a estranha sensação da simultânea presença e ausência, vendo fotos e ouvindo planos comuns dos quais já não faço parte; é também ser invadida por uma súbita melancolia, pelos buracos, lacunas, as faltas irremediáveis, ausências alheias sentidas; descobrir a volatilidade do que julgava “para sempre”… É a certeza e o conforto de ter a quem fazer confidências, ouvidos atentos, palavras de alento; na ânsia da atualização, perguntar mais do que ser perguntada; a todo regresso, poder relaxar, gargalhar, chorar, estar no meu elemento com as mesmas velhas e boas amigas; revitalizar conexões; por outro lado, às vezes, também confrontar uma eventual indiferença… É sentir o cheiro gostoso do feijão fumegando na panela; rever as tartarugas que, há décadas, resignadas, sobem e descem o mesmo canteiro no quintal; descobrir um novo vinho nacional a cada visita; matar a saudade dos churrascos, dos salgadinhos, das tortas deliciosas e dos sucos misturebas exóticos que só o Brasil sabe fazer; sentir os abraços mais apertados, os sorrisos mais brilhantes, a languidez nas despedidas…
Pelas minhas contas, já superei os felinos faz tempo. Estou na décima vida. Nessa, mais recente, encontrei a minha melhor metade, casei e mudei. Morei em três países, viajamos por quatro continentes, me fascina a noção aberta, sem fronteiras, de “cidadão do mundo”, a sensação inefável de que o globo me pertence e eu pertenço a ele.
No entanto, onde quer que esteja, é mesmo no Rio que mora meu coração.
De tempos em tempos, preciso voltar para casa, para minha tribo, meu porto seguro: ter um update in loco; me enternecer e inquietar com a família; recarregar as energias; deixar a garotinha ir adiante, pedir colo; garimpar descobertas de mim…
O tempo, como sempre, passa num piscar de olhos. Logo chega a hora da despedida.
Como dizem os japoneses, itte kimasu. Até breve.
Vou, mas volto logo.




Patrícia Taconi
05/11/2011
Oi Lilian!
Tudo bem?
Sonho em conhecer outros lugares do mundo e diferente de você, nunca saí do Brasil (não conheço nem o Paraguai rs rs rs). Mas já morar, não gostaria, a menos que a profissão exigisse ou por forças maiores. Lembro que quando era criança e saíamos de viagem, no retorno era uma sensação maravilhosa chegar em casa…um misto de alegria e aconchego. Também quando me casei, sempre que visitava minha mãe, com quem eu morava quando solteira, me sentia verdadeiramente na minha casa. Entrar no meu quarto então! Que aliás continuou sendo meu rs rs. É engraçado como criamos raízes e nos apegamos a nossa história…
um beijo!
Lilian Kano
10/11/2011
Oi, Patrícia,
Durante muitos anos vivi para o trabalho e, quando tinha uma brechinha, sempre voltava ao Brasil para rever a família. Só comecei a viajar para outros lugares em tempos mais recentes e as viagens foram me abrindo os olhos para outras culturas, maneiras de pensar, por vezes estereótipos ultrasuperestimados que se quebravam, verdades e inverdades sobre o mundo e mim mesma… Não me acho nada iluminada (longe disso), mas acredito que as lições de vida, o que se ganha através de uma jornada depende unicamente da gente, da disposição para gente sair da zona de conforto e manter a mente e os olhos bem abertos. Uma pessoa com essa postura pode viajar muito mais sem sair da própria cidade do que alguém que parte para terras desconhecidas de olhos fechados para tudo aquilo além do tiquetito que lhe interessa, como talvez o consumo nos outlets ou quem sabe boas experiências gourmets…
E, sim, rever a família e a casa onde me criei é sempre bom demais! Não vai dar nesse final de ano, mas em breve espero poder estar matando a saudade.
Um abração!
Alzira AmorimL
14/11/2011
Lilian San. Acabei de ler o que você escreveu e cheguei a conclusão que somos bem parecidas. A diferença é que eu nasci no Paraná, criei-me em Mato Grosso e moro no Rio há mais de 50 anos. Você lida com 3 paises e eu com 3 estados. Toda vez que vou à MT as
minhas sensações são parecidíssimas com as suas. Relendo tudo o que você escreveu tive vontade novamente de comentar. Não sei se estou fragilizada ou carente. Mas, gostei do que li.. Beijos Alzira
Lilian Kano
14/11/2011
Querida Alzira-san,
Obrigada por sempre ler e comentar! É mais uma coisa que temos em comum então, né?
No texto, quando menciono boas amigas, me refiro àquele nosso grupinho que, mesmo em meio ao corre-corre, sempre dá um jeito de se reunir e colocar o papo em dia.
Um grande beijo e até a próxima!
Sanae
15/11/2011
Oie,priminha, vc é a mais coração de todas nós!!Seu coração saudoso e repleto de lembranças,me faz ver o quanto se dói estar perto ,mas longe e estar longe,mas perto.Vc carrega em seu coração e na memória tudo que precisas para saber de onde veio e para onde vai…
Mas acredito que o seu novo lar é o seu melhor momento,em todos os sentidos!!E que com certeza Vc está construindo novos momentos tão inesquecíveis de bom quanto os que Vc viveu aqui.É bom ter SAUDADES,POIS SIGNIFICA QUE ALGO DE BOM E VALIOSO FOI VIVIDO.E QUE TODAS AS BOAS LEMBRANÇAS SEMPRE NOS FORTALEÇA!!
QUE EM SEU NOVO LAR VC SAIBA,QUE O QUE ESTÁ AQUI, ESTARÁ SEMPRE ESPERANDO POR VC DE BRAÇOS ABERTOS E COM MUITAS GOSTOSURAS!!!BJOSS,PRIMINHA QUERIDA!!E TUDO DE MELHOR PARA VCS!!! SANAE
Lilian Kano
18/11/2011
Ah, Sanae, que saudade e como é bom ouvir de você!
Sempre volto para cá mais rechonchuda com as guloseimas, sabia?
Espero em breve poder te dar um abraço apertado, tricotar e matar um pouco da saudade.
Super obrigada pelo carinho e a atenção, prima querida!
Um abração!
Sanae
24/11/2011
é ,priminha,sinal que os laços existem apesar da distância,vc está sempre presente,vc constrói laços…
E quanto ao estar rechunchuda ,faz parte dos nossos rituais de engorda em nossos encontros familiares.Vc irá experimentar os novos pães…rsrsr.Acho que Vc mais do que ninguém guarda estes gulosos e as guloseimas em suas memórias!!Se eu fosse uma fruta ,qual fruta eu seria??
Espero que sua saudade,só te faça lembrar que podes voltar para um lugar e pessoas que te fizeram e te fazem bem!!Mas que teu presente te leve ‘a lugares,onde tua alma e seu jeitinho curioso de SER,cresça em toda a sua PLENITUDE!!!BJOSS E OS ABRAÇOS NÃO IRÃO FALTAR,ASSIM COM NOSSAS COMILANÇAS FAMILIARES!!!E PARA NÓS UM ATÉ BREVE!!!SANAE
marcelagoncela
30/11/2011
que linda maneira de voltar…
bjos
Sissym
30/11/2011
Lilian, a volta para casa é deliciosa até para as crianças. A minha mãe, por exemplo, mora há 20 anos no exterior, percebo nela a alegria tanto de chegar quanto de partir.
Quanto a voce se fascinar por sentir ser uma cidadã do mundo, isso é fabuloso. Aprendi que nós temos a capacidade de se adaptar, mas é necessário permitir novas experiencias.
Sobre o meu post: , voce disse tudo que estou experimentando atualmente e fico imensamente decepcionada com a total falta de sensibilidade entre as pessoas. Uns querem de verdade e muito outros não.
Beijos
Lilian Kano
01/12/2011
É, Marcela, me sinto super privilegiada e grata por ter a família que tenho.
Não vejo a hora de recebê-los aqui em casa também. Isso deve acontecer no ano que vem, se Deus quiser.
Um beijo e tudo de bom!
Oi, Sissym
Bem-vinda e obrigada pelo comentário.
Há sempre uma luz no final do túnel. Mesmo depois de muita trepidação. Acho que a autenticidade é um imã para pessoas e relacionamentos saudáveis.
Bom fim de semana!
myra landau
27/12/2011
acabo de ver teu comentario no meu post dos amigos, e te agradeòo, sim nao melhor coisa que a amizade!
e sabe gostei daqui…beijos
Lilian Kano
02/01/2012
Obrigada, Myra. Também curti conhecer suas pinturas.
Feliz ano do dragão!
Fabrício Viagens
04/01/2012
Conhecer muitos lugares, com diferentes culturas e diferentes ópticas da vida realmente deve ser maravilhoso . Parabéns pelo post , é incrível.
Lilian Kano
05/01/2012
Valeu pela visita, Fabrício. Viajar é bom demais, né? Passei no seu website e vi que seu grupo se especializa em Orlando. Fui para lá uma vez para uma expo. Quero voltar para conhecer melhor o lugar.
Bem-vindo!