Cheers! Um Brinde à Arte do Humor

Posted on 24/08/2011

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“Definir o humor é como pretender pregar a asa de uma borboleta usando como alfinete um poste de telégrafo.”   (Enrique Jardiel Poncela)

Não acompanho nenhuma programação na TV brasileira. Mas, leitora voraz e curiosa por natureza, sempre coleto bugalhos. Como, por exemplo, no mês passado, a manchete mundial da equipe do Pânico esculhambando o funeral da Amy Winehouse, ou o último imbróglio da mulher-arroto… E suspiro desanimada.

Recentemente, em vários espaços midiáticos, foi veiculada a entrevista do chargista Maurício Ricardo, uma das personalidades participantes do festival youPix, que disse: “tem um tipo de humor tosco bombando que não é legal: o tosco da humilhação e da degradação humana, o tosco baixo e burro”. “Tem gente que só entende esse tipo de humor, consequência da queda na qualidade da educação e da apatia em relação à política.”

Concordo.

O humor é muito pessoal mas, além da educação, também deve ter a ver com elementos como cultura, geografia, empatia, maturidade, timing, contexto, linguagem, estado de espírito… Um trem de coisas.

A Grande Família

Faz um tempo, aqui nos EUA, entre soluços e lágrimas, vendo um DVD emprestado da Grande Família, quis compartilhar o riso, fui traduzindo e tentando explicar as situações. Para quê? Muita referência alienígena, dando gancho para interrogações na testa e um silêncio meio desconcertado a minha volta.

Por outro lado, meu marido (e todo americano que conheço) racha o bico quando vê  “Débi e Lóide – Dois Idiotas em Apuros” (Dumb and Dumber). Para mim, um filme engraçadinho, mas nada memorável. Verdadeiro cult no país.

Crescemos em contextos bem distintos – eu no Rio, ele em Westport – sem um alicerce comum de experiências e, por isso, muitas vezes enxergamos comédia em situações bastante diferentes.

No Japão, com a ênfase nipônica na brincadeira com trocadilhos (dajare) e o humor pastelão, às vezes acontecia a mesma coisa. Nem sempre, o que parecia hilário a minha volta me contagiava.

Para Steve, meu amigo canadense, no Canadá o humor é bem autodepreciativo, eles têm uma tremenda capacidade de rir de si mesmos. Ao contrário dos americanos.

O humor que explora o aspecto físico na comédia (a la Mr. Bean) é universal e parece atingir o alvo com mais facilidade. Ultimamente, na tela, um dos meus personagens cômicos favoritos é o Jack Sparrow, do Johnny Depp, com suas caras e bocas, às vezes, capaz de me levar às lágrimas.

Diferenças culturais à parte, por outro lado, nesse departamento, nem tudo é desacordo aqui em casa.

Fomos ambos igualmente fisgados por comédias como Fawlty Towers e Curb Your Enthusiasm, recheadas de faux pas e ironias, cujas temporadas literalmente devoramos em DVDs.

Mais recentemente, nos juntamos à legião de aficionados de Cheers, nossa última mania, um dos seriados mais amados da TV americana, que esteve no ar de 1982 a 1993. Assistimos na Netflix, usando o sistema de streaming via internet.

A série, estrelada por Ted Danson, começou devagar e, aos poucos, deslanchou, criando personagens legendários e cultivando fãs fervorosos, fiéis até hoje, quase uma década depois. Todos os episódios se passam num bar chamado Cheers, em Boston, propriedade de Sam Malone (Ted Danson), uma ex-estrela do baseball, mulherengo inveterado, alcoólatra recuperado. Os personagens são muito engraçados, a atuação excelente (com coadjuvantes afiadíssimos), os diálogos super espirituosos. O lema do bar e do filme : “onde todo mundo sabe o seu nome” é também título da música, entre os temas americanos de abertura de série, um dos meus favoritos de todos os tempos.

Ao longo dos anos, o programa sobreviveu ao falecimento de um dos atores principais, Nicholas Colasanto, que  desempenhava o papel do ex-técnico Ernie Pantuso, e até a troca das mocinhas, pares românticos de Ted Danson na história (no lugar da ótima Shelley Long entrou Kirstie Alley), sem deixar a peteca cair.

É um humor leve, rápido, contagiante e original. Os personagens, para mim, têm um encanto borbulhante, apesar de politicamente incorretos: a intelectual esnobe Diane, o sardônico Norm, a brava “língua de trapo” Carla, o sabichão “mala” Cliff… Eles chegam a deixar saudade quando ausentes por algum tempo…

O New York Times recentemente fez uma matéria sobre o projeto da Viacom de levar programações do canal de humor da Comedy Central para o Brasil. Existe uma certa ansiedade quanto ao sucesso da empreitada, uma expectativa para ver de que forma o humor americano vai ser digerido no país.

Segundo o gerente-geral no Brasil, Álvaro Paes de Barros, a idéia é mesclar e equilibrar atrações americanas com brasileiras no novo canal, a partir de janeiro do próximo ano. Ele diz que o público jovem brasileiro é globalizado, entende e acha graça nas sátiras de programas como Seinfeld, South Park e Friends. Por outro lado, o Brasil teria também uma nova geração “corajosa e irreverente de comediantes”, que começa a popularizar a stand up comedy, um gênero de comédia de contadores de piadas, principalmente na forma de monólogos, sem cenários elaborados. A Viacom aposta na combinação desses dois elementos.

Freud dizia que o humor era como o sonho, relacionado com o subconsciente, e também uma forma de enganar a censura, trazendo alívio através do riso. De fato, a fronteira ética do humor é subjetiva e está sempre mudando. Ele não pode ser pasteurizado, engaiolado, porque aí, convenhamos, acaba perdendo a graça. Piada é piada, simulação, ficção, e o humor realmente vem na sua melhor forma quando provoca e transgride. Como naquela cena do cachorrinho pitizento que, por acidente, voa pela janela na comédia “Quem Vai Ficar com Mary?”. Ou, mais tarde, quando o personagem de Matt Dillon tenta ressucitá-lo. Humor negro. Mas estupidamente engraçado.

Também não posso traçar a reta, separando o joio do trigo, ao sabor da minha sensibilidade e visão pessoal. O que é ofensivo para mim, pode não ser para os outros e vice-versa.

Mas, uma convicção eu tenho: o bicho pega quando a pilhéria foi feita a custa de desrespeito e humilhação, causando desconforto geral. Aí alguma coisa está muito errada.

Me incomoda ver esse tipo de comédia não mais como pálida exceção, mas cada vez mais mainstream:  a falsa tristeza de impostores num funeral invadido, uma mulher arrotando na cara do entrevistado… Espelho da mediocridade dos tempos em que vivemos.

É uma opinião pessoal, nada descolada.

Abaixo o humor ralé, burro e sem graça.

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Posted in: Ponto de Vista