Maui: Do Vulcão ao Luau

Posted on 18/08/2011

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Kailua Beach, Oahu

Com adolescentes na trupe  (e a descoberta tardia de que alguém estava com o passaporte vencido), nesse verão nos decidimos por uma viagem doméstica rumo ao Havaí – escolha fácil e certeira quando levamos em conta também o gap etário e o leque variado de interesses individuais no grupo.

Assim, dessa vez, deixamos o espírito desbravador em posição de lótus no armário, e optamos por território familiar, repetindo a dobradinha Maui/Oahu do início do ano, respectivamente segunda e terceira maior ilha do arquipélago.

O Havaí é uma sociedade multicultural cativante, composta apenas de minorias étnicas, o espírito aloha onipresente. O tempo passa devagar, o contato com a natureza é terapêutico… Para nós, sempre uma pitada de aventura, um tanto maior de serenidade e paz.

Depois de duas semanas, fomos embora energizados.

Hanauma Bay, Oahu

As Cobras e o Equilíbrio Natural

Redundante dizer que o ecossistema é riquíssimo. E apresenta também uma variedade considerável de plantas e aves próximas da extinção. Por isso, existe uma mobilização  muito grande para preservá-las.

Em especial, se destaca o cuidado para não se permitir a entrada de cobras no estado, com multas de até 200 mil dólares para quem estiver criando um desses animais considerados ilegais. Sem predadores naturais, os especialistas dizem que as serpentes se reproduziriam rapidamente e acabariam destruindo a fauna e a flora, mudando completamente o cenário paradisíaco, que torna o lugar tão especial.

Por enquanto, ainda bem, elas são bastante raras. Muitos guias até chegam a dizer que não existem cobras por lá. Mito. A verdade é que elas começaram a entrar ilegalmente, em contrabando para os entusiastas ofídicos. E há também a possibilidade de serem trazidas por acidente em algum container de carga (principalmente proveniente de Guam, com o problema de infestação). Por isso, todo cuidado é pouco.

Pluméria ou jasmim-manga

"Nene", ave oficial do Havaí

Mas, por ora é impressionante a quantidade de passarinhos, arrulhando em todo canto: na pista de decolagem do aeroporto, na sala de embarque, na praia, na mesa do restaurante, nas varandas, nas janelas…

Destaques

Batemos ponto em Ko’Olina, Kailua, Lanikai, Hanauma Bay, Kaneohe, Waikiki, Alamoana, Kula, Wailea, Iao Valley, Lahaina… Nessa estada, os pontos altos, além das praias, foram as visitas ao Parque Nacional de Haleakala e, para nossa alegria, também o Luau de Old Lahaina, ambos na ilha de Maui.

Sempre tivemos a vaga noção de que esses eventos eram o que se chama aqui de “armadilhas para turistas” (tourist traps), ouvindo sobre os preços exorbitantes e as fracas atracões. Mas essa festa de Lahaina foi definitivamente uma senhora exceção.

estacionamento do parque

Haleakala National Park

O Haleakala é o maior vulcão adormecido do mundo. Adormecido, mas não extinto, tendo tido a última atividade em 1790. Foi o pináculo da viagem porque a paisagem vista do topo da montanha é mesmo fenomenal, uma beleza diferente de tudo o que já vi, se contrapondo também ao relevo do restante da ilha.

colorido da lava

Muita gente faz questão de acordar de madrugada para ver o nascer do sol na montanha fazendo jus ao nome Haleakala – “casa do sol” – e apostando no panorama claro matinal, desobstruído de nuvens. Nós fomos preguiçosos, acordamos tarde e nos dirigimos para lá já no meio do dia. Mas tivemos sorte. Depois de passar por uma grossa camada de nuvens na subida, ao chegar lá em cima, na altura máxima de 3.055 m, entre “ahs” e “ohs”, deu para curtir a aquarela vibrante de cores, resultantes da oxidação de vários minerais encontrados na lava: tons azulados, avermelhados, amarelados… Um espetáculo.

O parque é imenso. A entrada custa 10 dólares por carro (passe de uma semana) e 5 dólares para quem vai de bicicleta ou a pé. Ao entrar, dirigimos ainda por mais de meia hora até chegar ao ponto máximo acessível ao carro.

observatório

A caminhada do estacionamento até o topo é tranquila, ninguém chega a pôr  a língua de fora. Nós temos o costume de carregar garrafinhas d’água no carro e elas vieram a calhar. Um agasalho também é recomendável porque a temperatura sempre cai lá em cima. São várias as trilhas para caminhada, tem sempre grupos de ciclistas e algumas pessoas chegam a levar tendas para acampar. Dizem que o cume do Haleakala é um dos melhores lugares do mundo para se observar as estrelas.

a rara Haleakala silversword

Vimos as outras ilhas e também exemplares da raríssima planta Haleakala silversword, que só pode ser encontrada nos arredores desse parque a partir de 2.000 m de altura.

Maui ou Marte?

A subida de carro até o parque é bem longa, por uma estrada sinuosa. Foi gostoso ver a mudança de paisagem conforme avançávamos, passando por várias camadas de vegetação, desde o verde mais denso e exuberante lá embaixo, passando por uma faixa de fazendas, outra inteiramente dourada, até a nudez do terreno e as delicadas plantas montanhesas do alto. Mundos paralelos, inteiramente distintos, numa única tarde…

Old Lahaina Luau

O colar de orquídeas e plumérias (lei), as tochas, as roupas floridas, a música, a dança, o mar… Epítome perfeita de todos aqueles cenários exóticos impressos no imaginário coletivo, alimentados por anos de reprises de Havaí 5-0, Magnum e os filmes de Elvis.

Se falo grego, os mais jovens que me perdoem…

De fato, confesso que foi o estereótipo colorido e lúdico que me atraiu para essa festa. Mas o Havaí, com uma história e uma cultura interessantíssima, é isso e muito mais.

A tradição do luau foi iniciada em 1819 pelo rei Kamehama II  e marcou o fim de certos tabus religiosos que determinavam que homens e mulheres tinham que comer separados e proibiam os súditos de consumirem certos petiscos, reservados apenas para a realeza. Foi feita uma grande festa e um dos seus pratos mais tradicionais a base de frango, leite de coco e folhas de taro, acabou mais tarde dando nome à celebração: luau. Na ocasião, o rei baniu simbolicamente os antigos costumes religiosos, comendo (e compartilhando a comida) com os súditos, homens e mulheres, todos juntos…

Antigamente, as pessoas se sentavam em esteiras de lauhala no chão, comiam com as mãos e as práticas eram cheias de simbolismo, visando, acima de tudo, refoçar a união entre os participantes. Hoje, as famílias havaianas realizam luaus para celebrar casamentos, aniversários de um ano, formaturas e outras ocasiões especiais, sempre com a comida e o entretenimento bem típicos. Claro, tem também os luaus comerciais. E foi o que a gente experimentou.

desenterrando o porco assado

Dei uma pesquisada on line e descobri uma longa corrente de críticas favoráveis, elogios profusos ao Old Lahaina Luau, considerado “o mais próximo do autêntico” da ilha. Fizemos a reserva, e no grande dia fomos para lá já em clima de festa (exceto meu marido, que viveu alguns anos no Havaí, sem muito entusiasmo para o “programa de turista”).

comida deliciosa

Ao chegar, fomos recebidos com a hospitalidade característica, as mulheres receberam flores para pôr no cabelo e todos nós do grupo, um colar (lei). Aguardamos a abertura em fila, com uma bebida na mão. Fomos conduzidos a nossa mesa e, como havíamos chegado cedo, caminhamos um pouco pelo local, a beira-mar. Aqui e ali, havaianos em trajes nativos confeccionando algum artesanato: tecelagem, esculturas de madeira, etc, para a alegria dos fotógrafos. Depois de algum tempo, houve o anúncio de que o tradicional porco assado “kalua” seria desenterrado, um espetáculo à parte.

O porco é assado num forno natural, embaixo de um monte de terra no chão, chamado de “imu“. Um grande buraco é aberto e lá dentro uma fogueira é produzida para assar a carne. Depois que o fogo se apaga, colocam-se grandes pedras para reter o calor. Quando elas atingem temperaturas altíssimas, a carne é coberta com folhas de bananeira e sobre elas, um tecido umedecido, para então tudo ser enterrado. O porco fica assando dentro da terra por mais de seis horas e, depois de pronto, desfiado.  Foi esse resultado que a gente viu. O porco kalua é o prato principal do luau.

Em seguida, nos sentamos e curtimos o ambiente, a música, a dança que começou cedo, o brilho dourado do sol beijando o mar… O pôr do sol foi lindíssimo. O buffet, farto, uma comida deliciosa, todos pratos bem típicos. Bebida à vontade. Adorei a batata doce assada com leite de coco, o salmão lomi lomi, o frango com molho de goiaba…

Mas, o que mais nos impressionou foi o show muito bem produzido, conduzido de forma interessante e didática, mais dramático a medida em que a noite avançava. Dois mestres de cerimônia se revezavam para nos contar as tradições do Havaí. Cada fase da história foi apresentada através de um número de dança. Pudemos perceber a gradual ocidentalização dos trajes e, nas narrativas, críticas sutis, veladas (ou nem tanto) à colonização. Como quando mostram a rejeição da cultura local pelos missionários, ou na passagem em que foi dito que ao ser deposta, em 1893, “a rainha Liliuokalani pediu para ser restabelecida… Mas a monarquia foi abolida”. Seguiu-se um grande silêncio de efeito.

É realmente um programa para turista, meio como ir ao Plataforma no Rio para um show de samba, mas com uma boa aula de fundamentos da cultura. O preço é um pouco salgado: 95 dólares por pessoa. Por outro lado, foi uma experiência interessante, que agradou a gregos e troianos e fez até os mais jovens enxergarem o arquipélago sob outra luz. Se levarmos em conta a qualidade de tudo, achamos que valeu a pena.

Mesmo o meu marido cético foi embora feliz com o sucesso da noite.

Mais uma vez, mahalo (obrigada), Havaí.

Outros textos sobre o Havaí:

Feitiço Havaiano

# Havaí: O Outro Lado do Paraíso

Gigantes Gentis em Maui

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