Recentemente, via Twitter, a “Posh” Victoria Beckham apresentou ao mundo sua rebenta recém-nascida: Harper Seven. Adicionalmente, mais tarde veio o esclarecimento: a inspiração para a escolha bem tradicional do nome da filhota procedia da escritora Harper Lee, autora da obra favorita da orgulhosa mamãe (“Seven” seria o número da camisa de Beckham quando jogava futebol na Inglaterra). A revelação causou furor e surpreendeu meio mundo porque, em diversas ocasiões, Victoria havia declarado em entrevistas que nunca lia livros ou, se começava, jamais terminava a leitura, pois preferia mesmo as revistas de moda…
O livro em questão é o consagrado To Kill a Mockingbird (O Sol É para Todos, no Brasil, e Por Favor, Não Matem a Cotovia, em Portugal), com a primeira edição publicada em 1960. De repente, esse pequeno detalhe referente ao nome da bebê, tornado público por David Beckham, acabou impulsionando de novo a vendagem da obra impressa – hoje um clássico da literatura americana – no mundo todo.
Mas não foi pela dica da ex-Spice que devorei o livro. Foi bem antes, por conta do filme com Gregory Peck, que ganhou a estatueta da Academia pela sua atuação absolutamente fantástica na película, lançada em 1962.
A publicação de Harper Lee, com mais de 30 milhões de exemplares vendidos, ganhadora do Prêmio Pulitzer, conta de forma humana, entre coloridas e melódicas pinceladas do dialeto sulino, uma história recheada de fricções raciais, questionamentos éticos e críticas sociais, numa cidadezinha do Alabama pós-depressão, sob a perspectiva de uma garotinha esperta e rebelde de seis anos, Jean Louise (“Scout”) Finch, alter ego da autora. Scout vive com o irmão, Jem, quatro anos mais velho, e o pai, viúvo e advogado, Atticus (Gregory Peck, no filme) que, com integridade, abraça a missão “impossível” de defender no tribunal um negro injustamente acusado de violar uma jovem branca, contrariando a posição e as sensibilidades de praticamente toda a cidadezinha (ficcional) de Maycomb, onde viviam. É o sul dos EUA nos anos 30, uma região que defendeu a escravatura com unhas e dentes até onde pôde, num tempo em que expressões como “boa família” e “família antiga” determinavam o modus operandi da etiqueta e dos relacionamentos. Com resquícios até hoje…
Resistindo a tentação de esmiuçar os detalhes da trama, vou direto ao primeiro ponto: o filme é um gol de placa, daqueles memoráveis, que fazem rir e chorar, ficando ainda por muito tempo impregnado na gente, entre lembranças e ruminações.
O roteiro ainda que condensado e a atuação arrebatadora deixaram uma marca tão intensa que, para mim, foi impossível me desvencilhar da imagem de cada um dos atores quando li o livro. Acima de tudo, Gregory Peck, denso e perfeito no papel, personificando com serenidade toda a sabedoria e nobreza de caráter de Atticus; Robert Duvall brilhando, com uma expressividade sutil na sua estréia nas telas, como o recluso e misterioso Boo Radley; a deliciosa Calpurnia de Estelle Evans; os talentosos atores mirins Mary Badham e Philip Alford, que depois do filme nunca mais atuaram…
Além da penca de prêmios ao longo dos anos (inclusive na Academia Britânica e em Cannes), em 2003 o American Film Institute elegeu Atticus Finch o maior herói do cinema americano de todos os tempos. Em abril desse ano, o correio lançou o selo comemorativo de Gregory Peck, no seu mais célebre papel, o primeiro da série “Lendas de Hollywood”.
Tratei logo de adquirir a minha cartela.
Revi o filme há algum tempo e, novamente comovida, decidi partir para a leitura do livro. Nos EUA, ela costuma ser obrigatória na escola (geralmente, tarefa até apreciada pelos estudantes, contam meus jovens informantes). E na Inglaterra, no ano passado, no quinquagésimo aniversário de sua publicação, figurou na lista das cinco obras literárias mais amadas pelo público, segundo levantamento do Dia Mundial do livro. Além disso, ficou em sexto lugar na lista da BBC e foi eleito o livro mais recomendado pelos bibliotecários britânicos.
Pessoalmente, retiraria o “por favor”, mas gosto da “cotovia” presente no título de Portugal, uma bela adaptação que capta com lirismo a imagem da palavra-chave na obra. No entanto, seu equivalente literal em inglês é skylark. Mockingbird seria, na verdade, o pássaro tordo-dos-remédios, grego para muita gente, uma ave americana que imita o canto de outros pássaros com perfeição. Mas será que alguém compraria um livro entitulado “Matar o Tordo-dos-remédios”? Ainda bem que aqui cabe o bom senso e a competência do tradutor…
Em determinada parte da história, vendo os filhos munidos de espingardas de pressão, Atticus ressalta que é um pecado matar esse pássaro. A vizinha, Maudie, mais tarde lhes explica que eles não fazem nada além de criar música para alegrar as pessoas. Não destroem os jardins, não fazem ninhos nos barracões de milho, apenas cantam a sua alma para todos que se habilitem a ouvi-los. O tal pássaro no título, “mockingbird”, é importante na obra, como uma metáfora para todos os inocentes e incompreendidos agredidos injustamente, como o personagem Tom Robinson, acusado de estupro, ou o tímido vizinho Boo Radley, ou até mesmo Atticus Finch, bombardeado por todos os lados por sua sólida ética, coragem e compaixão.
Pouco a pouco, as crianças são apresentadas às facetas mais obscuras da vida, pontuadas de ignorância, preconceito, opressão, hipocrisia… E despertando para a real grandeza do pai, sempre firme e amoroso, se recusando a abrir mão de sua probidade, crenças e ideais.
O livro, que justamente nesse mês completa 51 anos, foi escrito num período volátil da história americana, quando Martin Luther King comecava a se destacar como líder ativista do movimento de cidadania e direitos civis – um contexto que imprimiu a todos os questionamentos inocentes de Scout um teor ainda mais relevante e oportuno para a época em que foi publicado.
Na obra original, os personagens são retratados com maior profundidade e consistência, além de serem mais numerosos também, expandindo infinitamente o micro-universo do filme. Somos apresentados ao restante da família Finch, incluindo os irmãos de Atticus; mergulhamos no mundo paralelo da empregada Calpurnia, dividida entre as esferas bem demarcadas dos brancos e dos negros… Outros vizinhos e figuras interessantes temperam a trama que atravessa um período mais longo, de três anos, ao passo que na tela são apenas dois curtos verões. Descortinamos um pouco mais a triste e solitária realidade de Dill, o pequeno amigo das crianças, com quem compartilham aventuras nas férias de verão, quando vem passar dias com a tia na cidadezinha.
O livro, como toda boa literatura, convida à reflexão e faz ecoar um alerta na consciência, ensinando a tolerância, a empatia ao se buscar andar na pele do outro, a apreciação das gerações mais velhas… Acima de tudo, a repensar o impulso limitante de torcer o nariz para o que é diferente e não podemos entender… A obra apresenta uma série de elementos autobiográficos da autora, Harper Lee, refletidos na protagonista Scout. Ambas nasceram no Alabama, são amantes dos livros, têm o pai advogado, um irmão quatro anos mais velho, um grande amigo de infância que se junta a eles nas férias… Ela confirma que havia também, de verdade, um vizinho isolado, escondido do mundo em circuntâncias bem parecidas com as do personagem Boo…
Uma curiosidade interessante é que o personagem Dill, com uma imaginação extremamente fértil, é de fato baseado no seu companheiro de aventuras na infância, o célebre escritor Truman Capote (autor de sucessos como Bonequinha de Luxo e A Sangue Frio) que, com os pais divorciados, vinha passar as férias na casa das tias, ao lado da família de Harper. Ao longo dos anos, os dois autores desenvolveram uma grande amizade, retratada em pelo menos três filmes, um dos quais, Capote (2005), com os personagens-título interpretados por Sandra Bullock e Philip Seymour Hoffman. Depois da publicação de O Sol é Para Todos, Harper Lee o acompanhou ao estado do Kansas para ajudá-lo na pesquisa para o livro A Sangue Frio, baseado em fatos verídicos.
Truman Capote faleceu em 1984 e, em certo ponto, rompeu relações e se distanciou da velha amiga. Há rumores – até hoje infundados – de que ele a ajudou a escrever o livro ou mesmo que ele é que foi o verdadeiro autor de O Sol é para Todos. A vida inteira, Harper Lee (atualmente com 85 anos) evitou os holofotes e nunca mais publicou um livro. O que só serviu para pôr lenha na fogueira e alimentar os boatos.
Independente do “diz que diz”, o livro é realmente uma obra-prima. Vale a leitura, sem sombra de dúvida.
Meu trecho preferido?
“Senhorita Jean Louise, levante-se. Seu pai está passando”.










Juliana Novochadlo
08/08/2011
Olá Lilian! Tudo bem? Meu nome é Juliana Novochadlo e trabalho na área de mídias sociais da TV Globo Internacional. Gostaria de entrar em contato com você via email. Você poderia me repassá-lo para que possamos conversar? Abs.
Lilian Kano
09/08/2011
Oi, Juliana
Entrarei em contato através do email registrado no seu post.
Patrícia Taconi
20/09/2011
Oi Lilian!
Valeu a dica. Fiquei com muita vontade de ler o livro e assistir ao filme. Gosto muito de filmes antigos. Recentemente assisti ao Bonequinha de Luxo, o qual gostei muito. Ontem adquiri o Wall Street: Poder e Cobiça, do diretor Oliver Stone, mas ainda não assisti.
Lilian, você escreve muito bem! Seus posts são sempre interessantes e cheios de informação. Parabéns!
Bjos.
Lilian Kano
21/09/2011
Oi, Patrícia
Vale a pena ver o filme também. É uma versão condensada, mas super bonita, com atuações excelentes. Acho que você vai gostar!
Um beijo grande e obrigada por passar por aqui.