Quem é Dono de Quem?

Posted on 19/06/2011

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Chegou faceira, curiosa, os olhos arregalados, meio melindrada depois da viagem de carro, e correu logo para explorar cada cantinho da casa. Miou como que perguntando “Onde estou?” e depois de um afago aqui, palavras de carinho ali, fechou os olhos e ronronou satisfeita.

Ou seria conformada?

Desse jeito, bem tranquilo, foi o primeiro dia da Mia, nossa bichaninha, em casa.

Fomos encontrá-la no dia de um evento de adoção promovido pela PACT (People And Cats Together). Estava na entrada, na primeira gaiola em que batemos o olho, e surpreendentemente foi assim, clichê bem manjado, gasto pelo uso: amor ao primeiro olhar.

Pedimos para nos deixarem pegá-la no colo. Para surpresa das voluntárias, deixou-se segurar sem nenhuma resistência, ainda que silvando para os gatos à nossa volta. Um pequeno papel colado na gaiola dizia que tinha três ou quatro anos de idade, temperamento amistoso, mas não tolerava outros felinos. O ideal seria poder reinar absoluta no novo lar.

Absoluta? Opa. Saímos de casa de manhã com a intenção de adotar dois gatinhos pequenos… Vendo nossos planos comprometidos, por um momento, hesitamos.

Uma fração de segundo.

O magnetismo da Mia falou mais alto.

Adotando um animal de estimação

A internet está repleta de informações e, uma vez que estejamos de verdade prontos para o compromisso da adoção, existem vários mecanismos específicos de busca por um bichinho. Alguns dos mais populares nos EUA  são o Petfinder e o Adopt a Pet, onde podemos encontrar animais, como cachorros, gatos, coelhos, porcos, passarinhos, etc, em qualquer lugar do país.  Na adoção, costuma-se cobrar uma taxa (para gato e cachorro, em torno de 100 dólares) para colaborar com a manutenção dos abrigos e as despesas de cuidados com os animais resgatados. Depois da pesquisa on-line, o passo seguinte é a visita in loco. Quase sempre tem um abrigo não muito longe de onde moramos.

O pensamento vigente aqui, pelo menos entre amigos, é de que é melhor buscar um bichinho num abrigo do que comprá-lo numa loja. As vantagens da adoção são diversas. Além do senso de gratificação pessoal ao salvar um animal (infelizmente, a eutanásia é a sina de muitos), ainda economizamos e geralmente os recebemos mais por dentro do seu estado de saúde, pois as organizações voluntárias costumam cuidar bem deles, providenciando exames médicos e toda a vacinação necessária. O que nem sempre acontece com os das lojas, muitas vezes criados por demanda, sob parcas condições, em verdadeiras fábricas de reprodução… Os grupos de resgate são compostos de gente que realmente se importa e busca um lar para os animais, chegando até, algumas vezes – pasmem – a recusar a adoção, dependendo da entrevista inicial com os candidatos.

Hoje, na verdade, apesar da ampla comercialização de peixes, roedores e répteis nas pet shops americanas, vemos cada vez menos gatos e cachorros à venda.

Por outro lado, quanto às organizações protetoras de animais, nem todas têm condições de manter o seu próprio abrigo. Muitas contam com a colaboração de famílias adotivas temporárias que mantêm os animais até que encontrem um lar definitivo. Esses grupos voluntários costumam trabalhar em parceria com grandes lojas de produtos para animais, como por exemplo a Petco e a PetSmart, que periodicamente cedem espaço para apresentar os bichinhos ao público. Quem adota, acaba comprando os apetrechos necessários lá mesmo, na loja, que assim, claro, sai ganhando também.

Nossa experiência

Não tínhamos a mínima idéia de como seria bem estruturado o processo. Nossa gatinha veio da PACT, que por não ter um abrigo próprio, usa o espaço da Petco nos finais de semana para mostrar os animais.

O grupo, que não é adepto da eutanásia, tinha um breve histórico fichado (até onde se sabia) da bichana. Mia tinha sido criada por alguém que, quando se mudou,  irresponsavelmente a abandonou numa garagem vazia. Encontrada pelo proprietário do imóvel, foi levada para  casa mas, assustada, fugiu para a rua, onde passou alguns dias até ser reencontrada e levada para a PACT. De lá, foi adotada por uma senhora que, após três semanas, decidiu devolvê-la porque, apesar de ser uma “ótima gata”, não tolerava os outros felinos da casa.

O grupo a levou ao veterinário e, como tinha ficado algum tempo nas ruas, providenciou testes de síndrome urológica felina e leucemia, ambos com resultado negativo. Preenchemos uma ficha, recebemos outra com informações sobre seus hábitos específicos, além de um kit com guia para cuidados e nutrição, comprimidos vermífugos, coleira com identificação, um pequeno forro de retalhos, uma lista de veterinários para o primeiro exame (gratuito no caso de adoção) e muitos panfletos informativos. Como a adoção foi na Petco, recebemos da loja um ticket de desconto para a compra dos itens necessários, como comida, brinquedos, caixa de areia santária, etc. Saímos de lá carregados.

A verdade é que, em plena crise, surpreendentemente, a indústria de produtos para animais segue mais robusta do que nunca. De acordo com a empresa de pesquisa de mercado Packaged Facts, no ano passado, mesmo apertando os cintos, os americanos gastaram cerca de 55 bilhões de dólares com os seus bichos, um valor recorde. As ações das grandes cadeias de pet shops estão em alta e, de olho na mina, celebridades como Ellen De Generes e Martha Stewart estão emprestando o nome e começando a investir em produtos desse mercado.

Nas últimas semanas, recebemos dois telefonemas da coordenadora da adoção para saber se estava tudo bem. Ao ouvir que o veterinário estava fazendo um teste de tinha, uma infecção micótica, ela disse que a organização pagaria o tratamento se o resultado fosse positivo, pois não queriam “que pensássemos que entregavam gatos doentes”. A participação e o apoio deles iria até o fim.

Mia se limpa obsessivamente e às vezes acaba tirando um chumacinho de pêlo aqui e ali, o que fez o veterinário considerar a possibilidade da micose, felizmente descartada depois, com o resultado negativo do exame.

 Nossa gata

Com um histórico de troca-troca de casas, abandono, solidão, a mercê do vento, da chuva e da fome nos dias em que dormiu a céu aberto, Mia sem dúvida vem com bagagem. Há algumas semanas, chegou magricelinha, tímida, com medo de pôr as patinhas no quintal, se sobressaltando com o menor ruído… Com o tempo, no entanto, foi aprendendo a confiar e se revelando: calma, sofisticada, afetuosa… Com o rabo do olho a observamos. Tomamos nota de suas reações: o que a agita, o que a tranquiliza, os brinquedos preferidos, os tons dos murmúrios, as abanadas da cauda, os hábitos crepusculares, os olhares blasés… Miamos de volta, engatinhamos ao seu lado, nos derretemos a cada chamado…

Pouco a pouco, vamos sendo domesticados.

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Posted in: Ponto de Vista