Las Vegas, o Verdadeiro Show de Truman

Posted on 28/05/2011

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Letreiro

“All the world’s a stage,

And all the men and women merely players.”   (As You Like It)

Veneza ou Vegas?

Os versos de Shakespeare reverberam aqui mais insistentes do que nunca.

Gelato na mão, caminhamos pelas galerias internas com o céu tingido no alto, iluminado como uma noite enluarada. À nossa volta, em tamanho natural, uma paleta colorida de réplicas arquitetônicas da Renascença, com o exotismo da mistura das influências moura e bizantina. Em tudo, um brilho dissonante, tinindo de novo. Na praça que lembra um pouco a de São Marcos, apresentação de música do trio de violão, flauta e violoncelo, muito movimento nos cafés e restaurantes (supostamente alfresco), um mundaréu de gente posando para fotos. No canal artificial, até gondoleiros cantantes, transportando quem se habilite a pagar…

Estamos no Venetian Resort Hotel.

Disneylândia para adultos, como tudo mais na cidade, meu marido brinca, dizendo se sentir, ele mesmo, um ator involuntário em pleno Show de Truman, como aquele personagem que de repente se descobre preso num cenário de faz de contas, parte de um reality show.

Praça do Venetian

Passado

Las Vegas fica no estado de Nevada, vizinho à Califórnia. “Vega”, em espanhol, quer dizer “várzea”. O batismo tem a ver com os poços artesianos formados na região, que favoreciam o verde dos prados, criando uma espécie de oásis no meio do deserto. Daí o nome Las Vegas: “as veigas”, “as várzeas”.

The Strip, Las Vegas Boulevard

Descoberta por exploradores espanhóis que lhe deram o nome, foi mais tarde território mexicano, habitado durante muito tempo pelos índios. Os mórmons chegaram em 1855 e estabeleceram um forte, hoje a construção histórica mais antiga da cidade .

A partir de 1885, já território americano, o governo passou a tentar estimular a ocupação das terras por fazendeiros, começando a vender lotes a preços de banana. Um sopro de progresso foi alcançar o povoado em 1905 com a chegada do primeiro trem, mas somente mais tarde, em 1911, é que Las Vegas foi oficialmente incorporada ao condado de Clark, em Nevada, sendo hoje a maior cidade do estado. Depois das fazendas, vieram as empresas de mineração e, em 1931, a jogatina foi legalizada, abrindo caminho para o paraíso dos cassinos e resorts em que a cidade se transformou.

fila indiana de turistas

Presente

Um amigo que viajou com a gente disse que três décadas atrás, na sua primeira visita, se lembra que a faixa etária média dos turistas era mais elevada, o ambiente um pouco mais glamouroso. Hoje, a crowd é bem diversificada, não só em termos de idade, mas de colorido etno-sócio-cultural, com turistas (e sotaques) do mundo todo. Dessa vez, encontramos a BRICs em peso, gente ávida por uma balada, muita tatuagem extravagante, traje minúsculo, alarido etílico, fumaça de cigarro…

cassino

Para crianças, um ambiente assim não tão saudável, diriam algumas mães, a não ser que se consiga passar batido, evitando o fumacê dos cassinos dos mega-resorts e, em certas partes, colocar -lhes uma grande venda nos olhos. A esse respeito, debates acalorados continuam.

Em qualquer um dos cassinos, a bebida alcóolica corre solta 24 horas por dia, de graça, servida por jovens em saias microscópicas, que ganham para manter o povo alegre, inebriado, com a carteira aberta nas maquininhas caça-níqueis e mesas de jogos.

Com o boom adicional do restante da indústria de entretenimento adulto, o apelido de Sin City não é à toaEm todo canto na rua, no nosso nariz, propagandas e letreiros de casas de massagem, serviços de garotas de programa, gentlemen’s clubs…

A rua principal – a Las Vegas Boulevard – é apelidada “the Strip” (“a faixa”), e concentra a maior parte dos  cassinos e hotéis cinco estrelas com seus respectivos parques temáticos, cachoeiras, espetáculos e monumentos faraônicos. Saindo um pouco dessa área, nos deparamos com muitas capelas de casamento, casas mais obscuras de shows de topless, danças exóticas e strip tease.

Me lembro que na primeira vez em que visitei a cidade, em 1998, os preços baixos dos hotéis de luxo me impressionaram. Hoje, eles continuam bem mais acessíveis do que a média lá fora, afinal, a concorrência é grande, mas nem tanto a bagatela de antigamente. A qualidade dos serviços foi elevada e os preços também, principalmente nos finais de semana, quando as diárias dão um salto substancial. Segundo o Dallas Morning News, nesse mês a média dos hotéis em Vegas estava em torno de 111 dólares (o que não quer dizer que não se consiga promoções bem mais baratas). De qualquer forma, fica a dica de que é sempre mais em conta programar uma visita em dias de semana, de preferência quando não houver nenhuma grande feira ou conferência na cidade.

pé na estrada

Dessa vez, fomos por conta de uma convenção, sem muita escolha no calendário. Pegamos a estrada 15 rumo norte, de Los Angeles até lá, numa viagem de cerca de quatro horas e meia, meio cansativa para o meu marido no volante, mas pitoresca para mim, no banco do carona. A paisagem desértica, cheia de cactus e montanhas nuas, sempre me transporta para o cenário dos filmes de western, que hoje quase não vejo mais.

Lovelock Correction Center

No caminho, passamos pela prisão Lovelock Correction Center, em Nevada, que nosso amigo apontou comentando ser onde O.J. Simpson está hoje cumprindo pena. Antes de chegar a Las Vegas, começamos a ver pequenos complexos com hospedagens e cassinos mais  modestos, preços bem mais em conta.

 Bugsy e os Cassinos

O gangster Bugsy (Benjamim Siegel), popular na panela de Hollywood da época, é considerado por muita gente o criador dos alicerces do oásis da jogatina em Vegas, com a “ambição visionária” da construção do Flamingo Hotel, inaugurado no pós-guerra, em 1946.

jardim do Bellagio

O hotel-cassino não foi o pioneiro na região, mas foi certamente o primeiro de grande porte, colosso de extravagância, extremamente bem-sucedido, e serviu de protótipo para os que vieram mais tarde. Bugsy foi morto pouco depois da inauguração, no ano seguinte, e a autoria do crime é atribuída a investidores da máfia, descontentes com o dinheiro desviado por ele durante as obras do hotel. Os mandantes nunca foram condenados pelo assassinato.

segurança motorizado do Caesar's Palace

Esse é o mito. Entretanto, a verdade é que a concepção do projeto do Flamingo partiu originalmente de uma outra pessoa: Billy Wilkerson, fundador do Hollywood Reporter, ele, sim, dizem os fatos, o verdadeiro inventor ou idealizador de Las Vegas. Bugsy representava os interesses do chefões da máfia que também tinham investido no projeto de Wilkerson e começou trabalhando na implementação com ele, sob sua orientação. Com o tempo, no entanto, aparentemente ególatra de marca maior, Bugsy acabou enciumado, dando um pontapé no mentor, assumindo controle do projeto e espalhando a noção de que o Flamingo tinha sido uma idéia exclusivamente sua. Um filme meio romanceado foi feito sobre sua vida e lançado em 1991: “Bugsy”, com Warren Beatty e Annette Bening.

Ao descobrir o filão, com o sucesso do Flamingo, a máfia intensificou sua influência na região, construindo outros cassinos e transformando a cidade num popular destino turístico durante as cinco décadas seguintes, até que foi forçada a sair nos anos 80, pelo FBI.

Para quem tem interesse, é possível absorver um pouco mais desse universo na atração Las Vegas Mob Experience , uma espécie de museu interativo, high tech, com a participação de atores, no Tropicana, que tem sido muito bem recebida pelo público. Um outro museu do crime organizado, ainda maior, Mob Museum, tem abertura prevista para dezembro desse ano, no centro da cidade. O projeto é encabeçado pelo prefeito Oscar Goodman e tem o apoio do próprio FBI.

Forum, Caesar's Palace

Basicamente, o modelo do negócio em Vegas quer incentivar as pessoas a ficarem nos cassinos o maior tempo possível, criando uma espécie de Éden que concentra todas as suas necessidades. E não faltam truques e recursos para isso. Por exemplo, a falta de relógios e janelas para que se perca a noção do tempo, as luzes brilhantes, a música alta, a sedução do ambiente luxuoso, as bebidas gratuitas, a permissividade do cigarro, garotas em roupas provocantes para atrair o público masculino… Mesmo quando se ganha algum dinheiro, tudo é feito para que o deixemos por lá. Os hotéis oferecem um pacote tentador de descontos e promoções para o grandes vencedores, como restaurantes renomados, hospedagens de luxo e tickets para shows inteiramente de graça, de forma que a estadia se estenda e o que se ganha acabe voltando ao negócio.

O que fazer

A primeira vez que visitei a cidade, estava numa fase de curtir a Disney e os parques temáticos, fiquei  boquiaberta com a opulência e achei as atrações empolgantes. Hoje, me divirto com a combinação de shows e bons restaurantes, mas confesso que não consigo permanecer mais do que três dias seguidos, meu tempo limite. Embora admita que até hoje só tenha me limitado a explorar o circuito turístico da cidade… Por outro lado, tenho amigos que acham super relaxante ficar de molho nas piscinas temáticas, adoram os caça-níqueis, os spas e shoppings e fazem questão de voltar todo ano, se possível. Dependendo da perspectiva, ou do momento que se vive, Las Vegas pode ser cativante, divertida, fake, borbulhante, decadente, pomposa, estridente, cafona… Ou, quem sabe, paradoxalmente tudo isso ao mesmo tempo.

Paris ou Vegas?

Na Strip, tem sempre um formigueiro de turistas batendo perna em fila indiana, conferindo cada um dos resorts e suas atrações: o show das águas coreografadas e as flores do Bellagio, a reprodução de Veneza do Venetian,  a erupção vulcânica do Mirage, os leões do MGM Grand Hotel, a “Queda da Atlântida” do Caesar’s Palace… Tudo isso absolutamente sem pagar nada. Sapatos confortáveis, um must.

Réplicas e mais réplicas: da Torre Eiffel, do Arco do Triunfo, do Louvre, da ópera de Paris, das  margens do Sena, da Fontana de Trevi, da Estátua da Liberdade, da pirâmide do Egito… Para muita gente, a oportunidade de experimentar o gostinho de uma viagem pelo mundo em um dia. Espetáculos fabulosos como os do Cirque de Soleil, ou de estrelas de primeira grandeza da música, do ilusionismo, do circo, do teatro… Uma seleção excelente de restaurantes e, para quem tem um apetite voraz de consumo, compras nos inúmeros shoppings dos resorts, tendo em mente que os preços caem na medida em que nos afastamos da azáfama da Strip.  Os residentes dizem que uma boa alternativa, com preços mais em conta, seria o Las Vegas Outlet Center . Já um dos maiores shoppings em Nevada, (devo frisar “hoje”) é o Fashion Show Mall.  Confesso que não fui a nenhum dos dois.

Informações de pacotes, promoções e dicas vantajosas de hospedagem podem ser encontradas aqui (site em inglês, sempre atualizado).

City Center

Existe um trenzinho gratuito que conecta alguns resorts e quebra o maior galho quando nossos pés estão cansados. Numa linha suspensa, podemos passar pelos  novíssimos prédios do City Center, o maior projeto de desenvolvimento arquitetônico do país, do qual fazem parte os  hotéis Aria, Vdara, Mandarim Oriental, o shopping Crystals, e as Veer Towers (condomínio residencial). É um complexo enorme, avant garde, com ar futurístico. Quando passo de trem por lá me sinto um pouco dentro do cenário de Blade Runner (1982).

Terra de feiras, congressos e convenções, tenho a impressão de que essa não vai ser a nossa última visita. Na próxima, gostaria de conhecer um pouco mais a parte frequentada pelos residentes locais, sem as firulas extravagantes da Strip: por exemplo, a Chinatown. E perto da cidade, algumas das reservas e parques naturais: o Spring Mountain Ranch State Park, o Red Rock Canyon, o Lago Mead, o Valley of Fire State Park

Mais longe, a uma distância entre quatro e cinco horas de estrada, está o espetacular Grand Canyon.  Quem se interessar pela visita, vai a dica de que a parte do Skywalk, com uma grande ponte elevada de vidro, cobra ingressos meio salgados. A parte sul ou South Rim, com o valor da entrada mais em conta, é  infinitamente mais interessante, e posso dizer por experiência própria: com uma paisagem de tirar o fôlego. Para encurtar o tempo de viagem, é possível voar de Vegas até lá. Há vários pacotes com helicópteros.

Arremate

A conclusão sobre a cidade? Ainda está por vir. Las Vegas é um projeto multifacetado, em metamorfose constante. Atualmente, as atenções se voltam para a parte do centro que está sendo revitalizada, a comecar pelo City Center. Até os anos 70, a Strip tinha uma aura glamourosa, era um lugar para se esbarrar num punhado de estrelas famosas. Na década de 90, começaram uma série de esforços para tornar o ambiente mais amigável para as crianças. Mas, nos últimos anos, o próprio setor de turismo parece ter adotado de vez o slogan: “o que acontece em Vegas, permanece em Vegas”, indicando que a cidade é mesmo acima de tudo um destino turístico para adultos. Como as famílias costumam ser mais econômicas, o retorno dos investimentos não aconteceu como o esperado e, além disso, muita gente nos shows e restaurantes se irritava com o barulho dos pequenos. Nas ruas e corredores, os carrinhos de bebê atrasavam os passos da turba. Por isso, hoje há muitos pontos com restrições à criançada.

Entretanto, existem algumas atrações e shows para todas as idades. Certos hotéis até incentivam a hospedagem de famílias, como por exemplo, o Caesar’s Palace, que não cobra diária de menores de 17 anos. Por outro lado, tem lugares, como o Bellagio, em que não se permite a entrada de crianças e adolescentes menores de 18 anos. Ponto.

Para quem tem planos de levar os filhos, vale a pena dar uma boa pesquisada.

Afinal, tudo é questão de escolha, um privilégio que o pobre Truman não teve.

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