Ontem, fomos finalmente conferir o talento do badalado jovem condutor venezuelano, Gustavo Dudamel (30) e rever a Filarmônica de Los Angeles, sob sua direção artística já há quase três anos.
Faz um bom tempo que acompanhamos o ti-ti-ti ao redor do seu nome na mídia, ou entre amigos, e depois de assistir ao excepcional documentário Tocar y Luchar (2006), do diretor Alberto Arvelo, sobre o programa de educação musical venezuelano El Sistema no ano passado, nossa curiosidade e vontade de ver uma regência sua aumentaram ainda mais.
O foco principal do concerto no Walt Disney Concert Hall, em Los Angeles, foi nas composições de Brahms e o último número (Sinfonia No 1), em especial, foi tão intenso e bonito que, sinceramente, chegou a trazer inesperadas lágrimas aos nossos olhos. O concerto foi eletrizante.
Bem que eu gostaria de ter conhecimento técnico para tratar do assunto com a profundidade devida. E saber distinguir, com clareza, a extensão do mérito individual do maestro pop star, de um lado, e o da tarimbada orquestra, de outro. Mas não tenho esse embasamento. Por isso, abordo apenas o que vi. E senti.
Gustavo Dudamel entrou sob aplausos, com um sorriso simpático, as madeixas comportadas, domadas por uma porção generosa de gel. Sem mesuras elaboradas, cumprimentou o público rapidamente e tomou o seu lugar a frente da orquestra.
A indiscreta senhora atrás de mim falou bem alto: “Parece um garoto de doze anos!”, se referindo à estatura do condutor sobre o pódio, a poucos metros de nós.
E a jornada começou. Acordes suaves, ferozes, trágicos, românticos… Uma longa travessia melódica de suspense, grandiosidade, brados passionais, lamentos tristes, luz, sombra, calmaria, tempestade… E tudo mais que a música pode canalizar. Seus cabelos foram se ouriçando, subindo, subindo, até terminarem revoltos, inteiramente em pé, um retrato vívido da exuberância do próprio concerto.
Breve Perfil
Gustavo Dudamel é produto e face visível do programa educacional de música mais bem-sucedido do mundo – “El Sistema” – fundado em 1975 pelo músico e economista José Antônio Abreu, atendendo hoje a mais de 250 mil crianças e jovens, a maioria de origem humilde, na Venezuela.
Nascido em 1981, iniciou seu aprendizado musical bem pequeno aos quatro anos, e com dez anos, começou a prática do violino. Aos doze, passou a se dedicar a estudos de regência e nunca mais parou de conduzir. Em 1999, ainda adolescente, se tornou diretor da Orquestra Sinfônica Símon Bolívar, na Venezuela, cargo que ocupa até hoje. Ao longo dos anos, colecionou muitos prêmios internacionais, inclusive a importante Competição de Regência Gustav Mahler (Gustav Mahler International Conducting Competition), na Alemanha, em 2004, com apenas vinte e três anos de idade. A partir daí, choveram convites para conduzir orquestras no exterior. Em 2008, ele ganhou o Prêmio”Q” da Universidade de Harvard, pelo seu extraordinário trabalho com as crianças. Em 2009, figurou na lista da revista Time, das cem pessoas mais influentes do mundo.
Além de ser diretor musical da Orquestra Sinfônica Simon Bolívar há treze anos, atualmente, é também maestro principal da Orquestra Sinfônica de Gotemburgo, na Suécia e, desde 2009, diretor musical da Orquestra Filarmônica de Los Angeles.
Fenômeno Global
Mas, afinal de contas, de onde vem a reputação estelar desse maestro que é hoje considerado uma das personalidades latinas de maior destaque no mundo?
De uma série de fatores. A começar pela incontestável excelência musical, seguida dos borbotões de carisma e entusiasmo, da precocidade do talento, da proatividade em projetos sociais, do marketing bem feito (ahã…) e, claro, da vitoriosa história de vida desde a infância pobre até aqui. Quem de nós não baba diante de trajetórias bonitas de perseverança e sucesso…
Dudamel segue abraçando a causa social das mudanças através da música, agora encabeçando também uma extensão do El Sistema, num programa voltado para educar menores carentes em Los Angeles. Paralelamente, está coordenando projetos-piloto parecidos na Suécia e na Escócia.
Brahms Unbound
Na Filarmônica de Los Angeles de ontem, parecia palpitar bem afiado um só grande coração. Alguns membros desabafaram antes da estréia que tinham medo de não poder chegar ao pico do desempenho no grande dia, porque os ensaios eram intensos demais…
De fato, deu para ver as faíscas dessa eletricidade durante todo o concerto e as expressões faciais no palco se desanuviarem somente no final, quando toda a audiência aplaudiu de pé.
Energia pura, Gustavo Dudamel parecia ter molas nos pés, num longo transe de espadachim alucinado, samba de crioulo doido, águia prestes a levantar vôo. Flanando, flanando, nos mostrou a alegria da música e, em momento algum, jogou os holofotes sobre si. Com humildade, descia do pódio e se misturava à orquestra para agradecer a recepção calorosa do público, como quem diz: “aqui, ao meu redor, está a verdadeira estrela, essa orquestra maravilhosa”.
Não tenho conhecimento de staccatos, legatos, a dinâmica e a articulação de uma orquestra, mas sei o que é beleza e o que é emoção. Veredito: fui fisgada.
Vi um “garoto” se transformar num gigante.
# Para quem gosta de ópera: A Democratização da Ópera






Lucy
11/05/2011
Eu sou doida para ver o Dudamel, mas parece que ele não vem para a Espanha logo mais, não! Mas ano que vem tem Zubin Mehta e Baremboin. Não sei se poderei ver os dois, mas um pelo menos não quero perder!!! Que coisa mais linda é a música! Olha, eu não tenho conhecimento técnico de música não, mas uma coisa que eu faço antes de ir a concertos é escutar a mesma peça dirigida por outros maestros. Aí você vê como dá para comparar, como cada um marca seu estilo. Parabéns por levar esse concerto na sua bagagem!
Alzira Amorim
11/05/2011
Amiga, que bom que você teve oportunidade de ver um garoto se transformar em um gigante.
Você deixou transparecer que música não é bem do seu conhecimento. Imagine só com a
explanação que você fez do maestro GustavoDudamel podes crer a música tocouo seu espírito e de todos que lá estavam naquele concerto. Fiquei feliz por você ter tido esse
momento de êxtase. Beijos Alzira
Lilian Kano
14/05/2011
A orquestra foi excelente. Mas o carisma do Dudamel é um bônus inegável. Vale a pena conferir.
Tenho um amigo entusiasta da música clássica que tem uma mesma peça de Mahler em pelo menos uma dúzia de versões diferentes. Ele, ao contrário de mim, pode discorrer sobre música com autoridade. Essa é mesmo uma boa dica, Lucy. Vou experimentar comparar as peças com conduções diferentes também.
A música transporta a gente. Acho que “êxtase” está bem próximo do que a gente sentiu no final do concerto, Alzira.
Obrigada por passarem por aqui e um beijo carinhoso!
Pipa
30/08/2011
Estou eu lendo o seu blog e me deparei com esse post sobre Dudamel. Estou louca para assistir o concerto, o problema é que é raro esse tipo de concerto no Missouri ou no Kansas. A opção para nós que moramos nessa região é ir ao Cinemark para assistir a transmissão. Mas, não é a mesma coisa…
Lilian Kano
30/08/2011
Oi, Pipa
Bem-vinda! Fico feliz com o comentário.
Vamos torcer então, né?
De vez em quando a gente faz uso do cinema para ver transmissões de ópera ao vivo em HD, quando não conseguimos ingressos na casa de espetáculo. Foge um pouco ao assunto aqui mas, se você tiver interesse, vale a pena experimentar.
Cheguei a publicar um post sobre isso: http://panoramadajanela.wordpress.com/2009/10/10/a-democratizacao-da-opera/
Um abraço e volte sempre!