Janela, Janelinha, Porta, Campainha

Posted on 17/04/2011

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Nos mudamos para cá há cerca de dois anos. Para mim, um novo país, uma nova vida, um novo “eu”. Tateando, experimentamos aqui, nos transferimos, experimentamos ali, o tempo passou, circunstâncias mudaram, e cá estamos de novo na maratona da busca pelo lugar ideal, desta vez, com um pouco mais de convicção de onde e do que queremos, com a esperança de que o próximo seja um teto para o resto da vida.

Percebemos que quanto mais fazemos e desfazemos as malas, mais a inclinação aventureira às  multi-bases se dissolve dentro da gente, dando lugar a um conceito mais sólido de “casa”, “lar” e “raízes”, cada vez mais ruminado, questionado, ansiado… Sine qua non, como diria, dedo em riste, o antigo, barbudo presidente.

Dizem que “a casa é onde o coração está”, uma singela verdade, mas acredito também que, como tudo mais, temos que ir à luta, correr atrás e dar um empurrãozinho na sorte. Afinal, queremos todos um coração saudável e feliz, se possível, pelo menos para mim, num santuário em sintonia com o nosso estilo de vida, sinônimo de conforto, harmonia, segurança, identidade… Com muita luz natural. Por isso, estamos dispostos a ir até o fim, em busca do feng shui.

Depois de Tóquio, nesses últimos dois anos de Estados Unidos, passamos por várias mudanças. Amadurecemos, estamos menos inquietos, apreciando um bocado mais a vida em câmera lenta: o respirar, sorrir e seguir devagar, parando para, como se diz por aqui, “smell the roses“, sentir o perfume das rosas. Hoje, vemos para nós, a longo prazo, muito mais benefício numa cidade pequena, com um forte senso de comunidade, um lugar tranquilo, se possível, perto do mar, da natureza, onde possamos curtir longas caminhadas…

Visita nem sempre bem-vinda aos quintais

Estamos explorando as possibilidades numa região cheia de praias, trilhas, bosques, vinícolas e até fazendas. Comprar uma casa é certamente uma das transações comerciais mais importantes da vida e esse processo num país estrangeiro tem sido, no mínimo, educativo e interessante.

Lição número um. Tendo sua renda baseada na comissão da venda, independente da simpatia, empatia e todas as “-tias” juntas, não podemos nos deixar enganar: tenhamos em mente que o corretor imobiliário trabalha muito mais para quem vende do que para quem compra. Dito isso, para começar, é importante, ao menos, encontrar um profissional experiente, que “saiba das coisas”, entenda nossas necessidades, retorne contatos sem demora, de preferência, recomendado por pessoas de confiança. Aprendemos que é vital fazer direitinho o trabalho de casa, pesquisar  a realidade do mercado, compilar uma lista de prioridades, dedicar um bom tempo ao reconhecimento in loco, com muitos regressos para “sentir” o lugar, as pessoas, a indústria de serviços…

Casa sustentada por pneus

Nas andanças, vimos muitas coisas inusitadas. Por exemplo, à venda na beira da estrada, uma casa grande sobre rodas, num terreno aberto, no meio do nada. Parecia saída de um filme de Hayao Miyazaki. Claro, tivemos que parar para dar uma clicada.

Outra vez, entramos numa casa inacreditável de caótica, com muito pêlo de cachorro, cacarecos amontoados, cheiro de urina, a dona, no quarto, impassível, com o computador no colo: tristemente, retrato vivo de uma vida em colapso… Incrível o tanto que uma casa é capaz de dizer de seus moradores… Me senti desconfortável, voyeuse e intrusa, visitando imóveis com objetos pessoais, roupas, retratos, perfumes e a bagunça privada dos residentes.

Às vezes, nos surpreendemos com a vibração peculiar de cada lugar: construções esteticamente atraentes, com ótima localização mas, mesmo despidas de qualquer mobília, com uma energia estagnada, baixo astral ou até, inexplicavelmente, opressora… Casas leves, pesadas, simples, complicadas, alegres, tristes…

O mercado imobiliário americano pós-bolha ainda segue canhestro. É difícil conseguir empréstimos nos bancos; vendedores e construtores continuam em deprê. Existem muitos arrestos, embargos de casas confiscadas pelos bancos (foreclosures) no auge da crise econômica, que ainda não entraram no mercado. Quando isso acontecer, temos a impressão de que os preços vão baixar ainda mais, com o excesso de oferta. A não ser que pinte a casa dos nossos sonhos, parece ser prudente esperar um pouco mais, com olhos bem abertos.

A seguir, cenas dos próximos capítulos…

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Posted in: Ponto de Vista