Rituais: Por Que Precisamos Deles

Posted on 12/03/2011

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Até pouco tempo atrás, meu contato com o Budismo tinha sido de orelhada, um debulho aqui, outro ali. O mais impactante, a leitura de um ótimo livro que ganhei de um amigo: Being No One, Going Nowhere, da professora budista, de nacionalidade alemã, Ayya Khema, que me inspirou e ajudou a desenvolver um senso de traquilidade um pouco menos fugidio, através da mão na roda das noções de meditação. O livro dá uma ênfase enorme na transitoriedade, na impermanência de tudo. E na idéia de que toda ação nossa cria um carma. O princípio de causa e efeito é bem simples: se levamos felicidade para as pessoas, seremos felizes. Se causamos sofrimento, vamos ter um futuro sofrido, se não nessa vida, na próxima. O Dalai Lama sintetizou sua essência muito bem assim: “Não há necessidade de templos, não é preciso filosofia complicada. Nosso templo é o coração humano; nossa filosofia, a bondade.”

Recentemente, tivemos em casa, no Brasil, uma cerimônia budista, serviço memorial para o meu avô. Dessa forma, navegando por um território de liturgia milenar (tingido de cores nipo-brasileiras), pude aprender um pouco mais da doutrina na prática, no seio da minha própria família.

Segundo o budismo, no quadragésimo nono dia após a morte (Shiju-kunichi), o carma adquire uma nova forma, transmigrando. A cada sete dias do período até então, a conduta do falecido em vida, com todos os méritos e deméritos, seria julgada perante sete juízes e, ao final, após um ciclo de sete vezes sete dias (7 x 7), sairia o veredito. Assim, termina o luto, pois é dia da liberação da alma, que parte para o estágio seguinte, a nova esfera determinada de existência.

Meu avô faleceu dias depois de seu corpo começar a dar sinais de esgotamento. Ansiava por liberdade, era hora de partir. E ele se foi em paz, deixando muita saudade.

Eu estava longe, do outro lado do oceano, e só deu para chegar a tempo de participar dessa cerimônia no mês seguinte.

Desde adolescente, tive a oportunidade de participar do Shiju-kunichi pelo menos umas três vezes na vida, em memória de pessoas próximas, da comunidade japonesa. Mas essa prática em casa me possibilitou aprender alguns detalhes interessantes, até mesmo porque dessa vez foi minha família que coordenou todo o processo. Aprendi, por exemplo, que esse memorial pode ser realizado com um pouco de antecedência, mas nunca depois dos 49 dias. Um pequeno altar é preparado, com comida, flores e uma tijela para o incenso. As flores, ao invés do branco que predomina nos funerais japoneses, podem ter um pouco mais de cor porque se trata de um dia de celebração, renascimento e vida. Foi o que repeti para uma das minhas primas que, emocionada, derramava algumas lágrimas – “não chore, esse é um dia feliz” – tentando ecoar meu ânimo cuidadosamente cultivado, e convencer a ela e a mim mesma do mantra do dia: Renascimento… Vida…

O monge budista leu cânticos e escrituras no livrinho da Sutra. Ao final, cada um dos presentes se dirigiu ao altar para fincar um incenso na tijelinha com cinzas, fazer uma reverência, uma pequena prece e prestar sua última homenagem.

Em seguida, foi oferecido um almoço, que não tinha carne, nem peixe no cardápio, outra convenção antiga, hoje em dia nem mais tão observada no Japão (a gafe peremptória, servir algum prato com simbologia de bom augúrio). Isabel, amiga da família, por iniciativa própria, veio carregada de comida para contribuir com o buffet armado. No dia do velório, em que não pude estar presente, soube que surpreendeu a todos levando um generoso almoço, preparado por ela mesma. Nesse domingo, foi assim que passamos as horas seguintes, num círculo unido de familiares e alguns amigos próximos do meu avô, envolvidos por um senso comum de propósito, gestos de solidariedade e carinho.

No mês passado, eu havia perdido o velório e a cerimônia de cremação. Diz a doutrina budista que o espírito ainda paira entre nós por algumas horas após a morte e, nesse interim, pode muito bem ser afetado pelo que acontece com o corpo. É importante que ele seja tratado com o máximo cuidado e deferência. Me emocionei quando ouvi que um dos meus primos, médico, havia preparado o corpo no hospital para o velório. Foi com muita ternura, respeito e amor que ele vestiu o meu avô com suas últimas roupas. Mesmo agora, escrevendo, posso imaginar a conexão, a solenidade, a quietude, o turbilhão de lembranças e sentimentos que não devem ter emergido ali, naquele momento…

Uma amiga havia comentado certa vez que os rituais de despedida a ajudaram a lidar com a dor da perda de sua sogra no Japão. Agora, posso entender melhor o porquê.

Minha família no Brasil é numerosa e, depois da geração dos meus avós japoneses, tem crenças diversas e boa parte cristã. Já no Japão, quanto a essa questão, hoje os mais jovens tendem a ser reticentes. Ultimamente, na verdade, muita gente afirma não ter nenhuma convicção religiosa, apesar de toda a influência do budismo e do xintoísmo nos valores e na maneira de ser do povo nipônico em geral. De qualquer forma, seja qual for a extensão do secularismo e até de um certo vácuo espiritual que pode ser sentido às vezes, lá, do nascimento até a morte, muitos costumes religiosos costumam ser incorporados como importantes ritos de passagem. Desde o recém-nascido, invariavelmente levado a um templo para uma oração, até a morte e a conformidade com todo o cerimonial funerário convencionado, alternando-se budismo e xintoísmo ao longo da vida, quando não o cristianismo também.

Quanto à minha família no Rio de Janeiro, a escolha do memorial budista foi dos meus tios (a decisão é sempre dos filhos), por uma razão muito simples: seria certamente o que meu avô gostaria. O monge era seu amigo e havia se oferecido para celebrar o serviço. Perfeito.

Independente da orientação espiritual das pessoas em casa, foi muito positivo. A verdade é que cada um desses ritos é um mecanismo catártico para nós que ficamos, um ajuste ao processo de seguir em frente, vivendo com a lacuna da saudade, a falta que nos faz o ente querido que se foi. Uma forma um pouco mais elaborada de expressar para ele nossa gratidão, de lembrar e reverenciar a sua memória, de nos reconectarmos com as nossas raízes, principalmente, no caso específico das gerações mais jovens, que menos contato tiveram com o avô ou bisavô. Uma maneira de reforçar entre nós, na própria família, o sentimento de unidade e solidariedade.

Fica a impressão, mesmo que  momentânea, de algum controle sobre a vida. É o que sinto, por exemplo, quando ao acordar, beijo o meu marido, escovo os dentes, tomo banho, preparo o café e ando com a xícara até a janela. Ver a paisagem familiar lá de fora, bebericando o meu café, me tranquiliza. É um ritual pequenino, bem simples, que me faz sentir pronta para começar o dia, imprimindo um senso de foco, estabilidade, continuidade…

Os rituais, em geral, suscitam a pausa, a atenção a sutilezas. Eles me confortam.

Por isso, hoje acendo uma vela em memória dos meus ancestrais. E de todos os que se foram, engolidos pelo oceano.

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Posted in: Ponto de Vista