Até pouco tempo atrás, meu contato com o Budismo tinha sido de orelhada, um debulho aqui, outro ali. O mais impactante, a leitura de um ótimo livro que ganhei de um amigo: Being No One, Going Nowhere, da professora budista, de nacionalidade alemã, Ayya Khema, que me inspirou e ajudou a desenvolver um senso de traquilidade um pouco menos fugidio, através da mão na roda das noções de meditação. O livro dá uma ênfase enorme na transitoriedade, na impermanência de tudo. E na idéia de que toda ação nossa cria um carma. O princípio de causa e efeito é bem simples: se levamos felicidade para as pessoas, seremos felizes. Se causamos sofrimento, vamos ter um futuro sofrido, se não nessa vida, na próxima. O Dalai Lama sintetizou sua essência muito bem assim: “Não há necessidade de templos, não é preciso filosofia complicada. Nosso templo é o coração humano; nossa filosofia, a bondade.”
Recentemente, tivemos em casa, no Brasil, uma cerimônia budista, serviço memorial para o meu avô. Dessa forma, navegando por um território de liturgia milenar (tingido de cores nipo-brasileiras), pude aprender um pouco mais da doutrina na prática, no seio da minha própria família.
Segundo o budismo, no quadragésimo nono dia após a morte (Shiju-kunichi), o carma adquire uma nova forma, transmigrando. A cada sete dias do período até então, a conduta do falecido em vida, com todos os méritos e deméritos, seria julgada perante sete juízes e, ao final, após um ciclo de sete vezes sete dias (7 x 7), sairia o veredito. Assim, termina o luto, pois é dia da liberação da alma, que parte para o estágio seguinte, a nova esfera determinada de existência.
Meu avô faleceu dias depois de seu corpo começar a dar sinais de esgotamento. Ansiava por liberdade, era hora de partir. E ele se foi em paz, deixando muita saudade.
Eu estava longe, do outro lado do oceano, e só deu para chegar a tempo de participar dessa cerimônia no mês seguinte.
Desde adolescente, tive a oportunidade de participar do Shiju-kunichi pelo menos umas três vezes na vida, em memória de pessoas próximas, da comunidade japonesa. Mas essa prática em casa me possibilitou aprender alguns detalhes interessantes, até mesmo porque dessa vez foi minha família que coordenou todo o processo. Aprendi, por exemplo, que esse memorial pode ser realizado com um pouco de antecedência, mas nunca depois dos 49 dias. Um pequeno altar é preparado, com comida, flores e uma tijela para o incenso. As flores, ao invés do branco que predomina nos funerais japoneses, podem ter um pouco mais de cor porque se trata de um dia de celebração, renascimento e vida. Foi o que repeti para uma das minhas primas que, emocionada, derramava algumas lágrimas – “não chore, esse é um dia feliz” – tentando ecoar meu ânimo cuidadosamente cultivado, e convencer a ela e a mim mesma do mantra do dia: Renascimento… Vida…
O monge budista leu cânticos e escrituras no livrinho da Sutra. Ao final, cada um dos presentes se dirigiu ao altar para fincar um incenso na tijelinha com cinzas, fazer uma reverência, uma pequena prece e prestar sua última homenagem.
Em seguida, foi oferecido um almoço, que não tinha carne, nem peixe no cardápio, outra convenção antiga, hoje em dia nem mais tão observada no Japão (a gafe peremptória, servir algum prato com simbologia de bom augúrio). Isabel, amiga da família, por iniciativa própria, veio carregada de comida para contribuir com o buffet armado. No dia do velório, em que não pude estar presente, soube que surpreendeu a todos levando um generoso almoço, preparado por ela mesma. Nesse domingo, foi assim que passamos as horas seguintes, num círculo unido de familiares e alguns amigos próximos do meu avô, envolvidos por um senso comum de propósito, gestos de solidariedade e carinho.
No mês passado, eu havia perdido o velório e a cerimônia de cremação. Diz a doutrina budista que o espírito ainda paira entre nós por algumas horas após a morte e, nesse interim, pode muito bem ser afetado pelo que acontece com o corpo. É importante que ele seja tratado com o máximo cuidado e deferência. Me emocionei quando ouvi que um dos meus primos, médico, havia preparado o corpo no hospital para o velório. Foi com muita ternura, respeito e amor que ele vestiu o meu avô com suas últimas roupas. Mesmo agora, escrevendo, posso imaginar a conexão, a solenidade, a quietude, o turbilhão de lembranças e sentimentos que não devem ter emergido ali, naquele momento…
Uma amiga havia comentado certa vez que os rituais de despedida a ajudaram a lidar com a dor da perda de sua sogra no Japão. Agora, posso entender melhor o porquê.
Minha família no Brasil é numerosa e, depois da geração dos meus avós japoneses, tem crenças diversas e boa parte cristã. Já no Japão, quanto a essa questão, hoje os mais jovens tendem a ser reticentes. Ultimamente, na verdade, muita gente afirma não ter nenhuma convicção religiosa, apesar de toda a influência do budismo e do xintoísmo nos valores e na maneira de ser do povo nipônico em geral. De qualquer forma, seja qual for a extensão do secularismo e até de um certo vácuo espiritual que pode ser sentido às vezes, lá, do nascimento até a morte, muitos costumes religiosos costumam ser incorporados como importantes ritos de passagem. Desde o recém-nascido, invariavelmente levado a um templo para uma oração, até a morte e a conformidade com todo o cerimonial funerário convencionado, alternando-se budismo e xintoísmo ao longo da vida, quando não o cristianismo também.

Quanto à minha família no Rio de Janeiro, a escolha do memorial budista foi dos meus tios (a decisão é sempre dos filhos), por uma razão muito simples: seria certamente o que meu avô gostaria. O monge era seu amigo e havia se oferecido para celebrar o serviço. Perfeito.
Independente da orientação espiritual das pessoas em casa, foi muito positivo. A verdade é que cada um desses ritos é um mecanismo catártico para nós que ficamos, um ajuste ao processo de seguir em frente, vivendo com a lacuna da saudade, a falta que nos faz o ente querido que se foi. Uma forma um pouco mais elaborada de expressar para ele nossa gratidão, de lembrar e reverenciar a sua memória, de nos reconectarmos com as nossas raízes, principalmente, no caso específico das gerações mais jovens, que menos contato tiveram com o avô ou bisavô. Uma maneira de reforçar entre nós, na própria família, o sentimento de unidade e solidariedade.

Fica a impressão, mesmo que momentânea, de algum controle sobre a vida. É o que sinto, por exemplo, quando ao acordar, beijo o meu marido, escovo os dentes, tomo banho, preparo o café e ando com a xícara até a janela. Ver a paisagem familiar lá de fora, bebericando o meu café, me tranquiliza. É um ritual pequenino, bem simples, que me faz sentir pronta para começar o dia, imprimindo um senso de foco, estabilidade, continuidade…
Os rituais, em geral, suscitam a pausa, a atenção a sutilezas. Eles me confortam.
Por isso, hoje acendo uma vela em memória dos meus ancestrais. E de todos os que se foram, engolidos pelo oceano.





Alzira Amorim
15/03/2011
Lilian San,
Muito profundo o que você escreveu. Toda meditação nos transporta e nos torna seres humanos mais sensíveis e solidários. Quando eu fazia parte de uma associação filosófica chamada Mantos Amarelos aprendi alguma coisa zen e agora com o seu escrito aprendi mais
da cultura nipônica.
Cada vez mais eu me convenço que em outras vidas eu nasci no Japão. Assistindo a TV sôbre o terremoto eu me emociono de tal maneira como se tivesse parentes naquele país.
Beijos Alzira
Lilian Kano
17/03/2011
Obrigada.
Eu também, estive muito agoniada com as notícias. É difícil filtrar as informações pois tem havido muita distorção e sensacionalismo por parte do círculo (Circo?) midiático. Parece que a maioria dos canais se limita a copiar os relatos de uma ou duas grandes emissoras internacionais e assim, a reação é em cadeia, sem a averiguação efetiva dos fatos.
Meu amigo, Renato Brandão, recentemente concedeu a seguinte (esclarecedora) entrevista à rádio SBS, da Austrália: http://www.sbs.com.au/yourlanguage/portuguese/highlight/page/id/151492/t/Japan-suspends-operations-in-nuclear-plant
No dia 15, a Embaixada Britânica em Tóquio foi palco de uma conferência com especialistas. Ao ler o relatório (com possibilidades para um quadro na pior das hipóteses) e também através dos updates constantes dos amigos que estão lá, fico um pouco mais tranquila. A situação não está tão fora de controle como se imagina mundo afora. Apesar da dor de tantas vidas perdidas com o tsunami e o estresse de ter que conviver com os tremores secundários…
Tomara que as coisas se normalizem o mais rápido possível e que todo mundo possa dormir com mais tranquilidade. Meu coração está no Japão agora, com meus amigos queridos e todos os japoneses. A eles, envio o meu carinho, minha admiração e muita energia positiva. 頑張れ、日本!
Dondras
18/03/2011
MUITO BOM O POST PARABÉNS!!
Pedro Lemos
18/03/2011
Respeito quem acredita nessas tradições, mas pra mim todos os rituais religiosos tem um único objetivo, exatamente o que você mencionou, trazer conforto perante a morte.
O homem se apega tanto às pessoas que se foram que sentem essa necessidade de acreditar que existe algo além dessa vida e que vamos para um lugar melhor… mas pra mim não passa de ilusão. Na minha concepção é muito melhor olhar o que a pessoa deixou pra trás, suas realizações e as boas memórias dos familiares. o futuro pode ser a não existência, mas o passado não tem como ser apagado.
Alzira Amorim
18/03/2011
Esperamos que as notícias alarmantes, que nos chegam ,não sejam tão verdadeiras assim e
que o Japão dos meus sonhos possa num breve espaço de tempo ter as suas cidades danificadas recuperadas e o fantasma da contaminação se dissipado. Também estou enviando a minha energia positiva para todos japoneses e para o JAPÃO.
Lilian Kano
20/03/2011
Dondras, Pedro, Alzira, obrigada pela visita e pelos comentários.
São vários os tipos de rituais, que podem ou não ser religiosos. E, sendo religiosos, podem ou não estar relacionados com a morte.
Pedro, confesso que não sou budista, embora tenha interesse na filosofia e tente incorporar certos aspectos que julgo importantes e válidos. Também acho essencial deixar a chama da memória acesa e, dessa forma, manter quem se foi bem vivo dentro de nós. Abraços.
Alzira, querida, no momento é o que está ao nosso alcance, né? Muita energia positiva. E a quem puder e quiser fazer mais, saiba como aqui: http://g1.globo.com/tsunami-no-pacifico/noticia/2011/03/saiba-como-ajudar-os-afetados-pelo-terremoto-no-japao.html
Um grande beijo.
Priscila
02/06/2011
Estou lendo o seu post hoje e acho que esse será o meu primeiro comentário, mas por coincidência, hoje no ônibus a caminho do trabalho, eu e mais três pessoas conversávamos a respeito de que nós precisamos dos rituais para alcançarmos uma certa segurança em relação a fé. Não nos apegar a eles a ponto de idolatrar e o seu estado de espírito depender inteiramente disso, mas sempre sabendo que a verdadeira essência está na verdadeira intenção do coração.
Bom tentei expressar o que eu realmente acredito hoje, através das minhas experiências espirituais…
Estou gostando muito do blog, da forma que vc descreve suas experiências…
beijos
Pri
Lilian Kano
02/06/2011
Seja bem-vinda, Pri! E obrigada pelas palavras gentis.
Foi numa situação de perda, sem saber como lidar com a morte, que senti como nunca que os rituais realmente ajudam, trazendo acima de tudo conforto.
Para mim, seria infinitamente mais doloroso passar sem eles.
E acho que é como você falou, o foco deve ser na essência da intenção reafirmada. E no senso de unidade com a natureza, as pessoas e/ou consigo mesmo. O resto é adorno.
Um abraço!
Anna Elisa
07/09/2011
Seu post, muito bem apresentado, me faz lembrar de três livros de Lisa See, escritora americana com raízes chinesas… os livros são “Snow Flower and the Secret Fan”, “Peony”, “On Gold Mountain”.
Lilian Kano
07/09/2011
Oi, Anna Elisa
Gostaria de dizer que conheço o trabalho dela, mas não posso. A única escritora sino-americana cujas obras li extensivamente é a Amy Tan. Meu marido diz que tem “Snow Flower and the Secret Fan” em casa em algum lugar. Vou dar um procurada. Obrigada pela dica.