Odawara e Hakone: O Lado Zen do Japão

Posted on 21/02/2011

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Meu marido e eu temos um forte vínculo com o Japão. Para mim, a história já começa pelas minhas raízes, por parte de mãe. Além disso, depois de me formar na universidade (Letras, português/japonês), fui duas vezes ao país para fazer cursos de especialização. Na terceira, encontrei trabalho, estabilidade, e acabei ficando por um período que totaliza, com o tempo de estudo, cerca de 16 anos.

Ele, sem descendência oriental, foi antes de mim, para fazer a pós-graduação. Aproveitou bem o curso e aprendeu a falar o idioma com fluência. Não chegamos a nos encontrar na época. Mas, muitos anos mais tarde, foi justamente na sua antiga universidade em Tóquio que comecei a lecionar.

Anedota

Open Air Museum, em Hakone

Temos várias histórias assim, de coincidências e momentos em que nossas vidas quase se cruzaram. A mais especial é a da primeira vez em que estive nos Estados Unidos, em 1998. Um dia, amigos locais me levaram a um lugar lindo, num farol perto do mar, onde passamos uma tarde gostosa.

Open Air Museum

Bem depois, uma década mais tarde, quando o meu marido retornou a Tóquio, é que fomos nos conhecer. O cupido nos flechou e já estávamos morando juntos quando, certa vez, fui fuçar um velho diário em busca de uma foto dos meus pais. Apareceu então, de quebra, o tal retrato no farol, o único que eu, sentimental, guardava com carinho, de todos os lugares que visitei ao longo da costa oeste americana, de norte a sul, na primeira viagem ao país.

De repente, meu marido ficou lívido. Na foto, eu posava sorridente. E logo em frente, do outro lado da estrada, estava a casa dele.

Melhor exemplo pessoal de serendipidade, não temos.

Voltando ao fio da meada…

Atualmente, ainda por causa do trabalho, temos a oportunidade de voltar ao Japão duas ou três vezes ao ano e, para mim, é sempre uma festa poder reencontrar pessoas queridas e matar a saudade. Nessa última vez, por poucos dias, fiquei em Tóquio sozinha enquanto o hubby seguia viagem para a China.

Em verde, a província de Kanagawa, vizinha à capital, Tóquio

Um casal de amigos tinha acabado de se mudar para Odawara, uma cidade na província de Kanagawa, e gentilmente me convidou para passar um dia com eles. Apaixonado pela esposa e pelo Brasil, há anos, o marido japonês da minha amiga paulistana, resolveu adotar um nome brasileiro. Assim, nasceu Paulo, a outra metade de Irene.

Foi um passeio especial, em fantástica companhia. De fato, o efeito do contato com esse ambiente foi tão terapêutico, que fui embora me perguntando por que não tirei partido da proximidade, visitando essa região com mais frequência, quando vivia em Tóquio.

Odawara é emoldurada pelas montanhas de Hakone a norte e oeste. Essa área (Hakone/Odawara) é belíssima, tem um bocado de verde e pousadas de águas termais, com acesso fácil de Tóquio, entre 60 e 90 minutos, dependendo da escolha da rota, seja de trem ou carro.

Hakone é um ponto turisticamente mais badalado. Tem um sem número de museus de qualidade, que incluem o famoso Open Air, com obras de arte ao ar livre, em perfeita harmonia com a natureza, algumas lindas esculturas de Henry Moore no jardim, e uma coleção interessante de Picasso numa das suas galerias internas, um museu que por si só já vale um dia de visita. O passeio de barco (“pirata”) pelo Lago Ashi (Ashinoko) é popular entre os turistas pela vista bonita, inclusive do Monte Fuji, em dias claros. Outro ponto de interesse é a área da cratera vulcânica de Owakudani.

Lago Ashi

Hakone Free Pass

Uma boa dica para quem se interessar em visitar a região é a opção da compra do Hakone Free Pass (passe livre) na linha de trem Odakyu, que dá direito à viagem de ida e volta de Tóquio, o uso de trens, teleféricos, barcos, ônibus na área, e descontos em determinadas atrações turísticas, com validade de dois ou três dias. Vale a pena. Preços e maiores informações aqui.

Esparso colorido outonal

Outono

Só que nessa última vez, foi na sua irmã, a bela Odawara, que começamos o passeio, que incluiu a casa dos amigos e foi terminar num onsen, estância de águas quentes. Nessa área, particularmente famosa também pelo espetáculo das cores do outono, com folhagens em tons alaranjados e avermelhados, encontrei poucos sinais da estação que, teoricamente, estaria no auge quando estive por lá, em novembro do ano passado. Mais uma do aquecimento global. Irene me disse que as folhas caíam antes mesmo de se completar a mudança de cor. Conclusão: pouco kouyou, a espetacular folhagem outonal, dessa vez, esparsa e bem pálida.

Castelo de Odawara

Castelo de Odawara

Ao me pegar na estação, Paulo e Irene me levaram para um giro pela cidade. Contornamos de carro o castelo de Odawara, condenado na Era Meiji por ser um símbolo do período dos samurais e, por isso, demolido no final do século XIX. O que vemos hoje é resultado da sua reconstrução mais recente, em 1960. Sua estrutura original na versão em maior escala, por obra do daimyo (senhor feudal) Hojo Soun, remonta ao ano de 1495.

Estátua de Sontoku Ninomiya

Ninomiya Jinja

Depois, zarpamos para o Ninomiya Jinja, santuário shintoísta de Sontoku Ninomiya (1787-1856), um grande filósofo, economista e agrônomo da Era Edo. Nascido numa família pobre, em ambiente rural, estudioso auto-didata (as estátuas sempre o retratam trabalhando, com um livro na mão) e órfão de pai e mãe aos 16 anos, com dois irmãos menores para sustentar, através de trabalho árduo e um planejamento cuidadoso, aos 24 anos havia conseguido reverter o quadro de pobreza, transformar o caos em produtividade, e se tornar um dos mais prósperos fazendeiros da região. Mais tarde, pela sua experiência e conhecimento, foi recrutado em diversas comunidades, e passou a maior parte da vida adulta se dedicando à revitalização da economia e a modernização do Japão.

Ninomiya Jinja

Mas não era só de economia que entendia. Ele tinha uma maneira única de ver as pessoas e a natureza. Combinando ensinamentos do budismo, xintoísmo e confucionismo, os transformou em práticos e sólidos princípios éticos pessoais, fundamentados no trabalho, na vida dentro das condições de renda e no repagamento de virtudes. Sendo esse último conceito, conhecido como “hotoku” (uma espécie de corrente do bem, segundo a qual, todo benefício recebido deve ser retribuído), o mais lembrado até hoje, como chave para uma sociedade pacífica e próspera.

Água para o ritual de purificação

Grande exemplo de superação e sabedoria, após a sua morte, ele recebeu o Jyu Yoni, uma condecoração pessoal do imperador. Muitas escolas japonesas ainda transmitem os ensinamentos de Ninomiya e têm uma estátua sua no pátio.

Pé de ipê brasileiro doado ao santuário

No terreno do templo, uma discreta marquinha brasileira, com placa e tudo. Meus amigos, generosos e idealistas, haviam feito a doação de um pé de ipê (da nossa flor nacional), que medra cada vez mais robusto.

Por iniciativa própria, eles têm espalhado o ipê pelo Japão. Aliás, a universidade onde trabalhei também foi uma das presenteadas.

Hakone Begonia-en

Hakone Begonia-en

A seguir, fomos para o Jardim das Begônias de Hakone, conferir seu colorido e delicadeza nas estufas. Paulo é especialista em estudos florestais e sempre nos dá boas dicas de como cuidar das plantas. As da sua casa, são tratadas com carinho e crescem sempre saudáveis.

O espaço das begônias tem um café, uma pequena loja/galeria de arte de flores secas prensadas (oshibana) e um local para repouso com onsen (águas termais). Um programa tranquilo, para desestressar, sentir a energia das plantas, contemplar e respirar beleza .

Degustação de Kamaboko

Kamaboko

Para quem não conhece, kamaboko é um alimento processado, feito de pasta de peixe, muito comum nas refeições caseiras no Japão, principalmente em cozidos, sopas, udons e lamens.  Odawara é uma grande produtora e lá podemos encontrá-lo nas formas mais variadas. Pela primeira vez na vida, fiz uma degustação do produto como se estivesse  saboreando queijos finos, e me surpreendi com a sutil diferença de texturas e sabores, num produto que eu supunha conhecer de trás para frente. Uma experiência inédita, literalmente gostosa.

Não se sabe ao certo a origem, mas há manuscritos que indicam que o kamaboko era servido nas refeições da nobreza desde pelo menos o século 12.

Na cidade, existe um museu dedicado a sua história, que inclusive proporciona a experiência do processo de produção: o Suzuhiro Kamaboko Museum, a dois minutos da estação Kazamatsuri. Entrada franca.

Entrada do onsen

Onsen

Na parte da tarde, fomos a um onsen em Minami-Ashigara, chamado Only You. Como grande parte das estâncias da região, bem no meio de um bosque. Para quem visita o país, um revigorante banho de águas termais é sempre uma ótima pedida, e essa região é famosa pelo bom número de opções e qualidade das pousadas hidrominerais.

Na recepção, um yuzu gigante

Cuidado, no entanto, para não confundir sento (ou furoya), o banho público, com o onsen, a estância de águas termais. A diferença fundamental entre os dois é a qualidade da água. No onsen, ela vem sempre de uma nascente vulcânica, com diversos benefícios para a saúde, ao passo que no sento, que costuma ser menor, não é nada mais que a nossa água da torneira do dia a dia, previamente aquecida.

Um choque para muitos estrangeiros é a nudez coletiva nesses banhos. Na maioria, as alas feminina e masculina são separadas. Mas há também os banhos mistos, conhecidos como kon-yoku, comparativamente menos frequentados pelas mulheres. Tem também a opção do kashikiri (alugado com exclusividade), usado por famílias ou pessoas que querem privacidade.

A primeira vez é sempre uma insólita novidade, talvez até mesmo um desafio para quem nunca foi a um balneário nudista. Me lembro que a minha estréia foi numa excursão do meu curso, na companhia de colegas e professores e, francamente, ainda aprendendo, atenta também à etiqueta, levei um tempinho para perder a inibição, relaxar e aproveitar o banho. Hoje, pensando bem, não é nada complicado. Na dúvida, observa-se, pergunta-se, macaqueia-se. A maioria das pessoas, pelo menos nessa região, vai dar assistência ao estrangeiro de bom grado.

Deve-se prestar atenção a onde tirar os chinelos recebidos, geralmente no vestiário. Colocamos nossa roupa num guarda-volumes. Ganhamos uma toalha grande e uma bem pequena. A grande pode ficar num cesto mais adiante, numa das prateleiras com compartimentos individuais perto da entrada; a pequena pode ser usada para nos cobrirmos parcialmente quando andamos (em verdade, pouco tapa) e para nos banharmos com o chuveirinho, antes de entrar na rasa piscina termal (nunca entramos direto, sem nos banhar completamente). São diversas piscinas, que variam em temperatura. A toalhinha não pode cair na grande banheira, deve-se evitar usar acessórios, e roupas de banho não são permitidas. Geralmente deixamos a toalha fora, na beirada, ao nosso alcance. Algumas pessoas a colocam sobre a cabeça quando se esticam na piscina. O ambiente é tranquilo e respeitoso. Ninguém encara ninguém e, nesse espaço, se você é mulher como eu, deve compartilhar a delicadeza da mais pura energia feminina.

rotenburo, banho ao ar livre, é o meu favorito. Desta vez, numa atmosfera idílica, estávamos cercados de verde, raios de sol por entre as árvores, canto dos pássaros, nutrindo o corpo e o espírito.

É engraçado. Não há topless nos balneários, nem praias nudistas no Japão. No dia a dia, as pessoas se cobrem muito mais que no Brasil. Mas, por outro lado, se sentem bem mais confortáveis com a nudez coletiva do que na terrinha, ou mesmo nos EUA, onde vivo agora. Em lugares como o onsen, ela é encarada com naturalidade e nem tanto, sensualidade. Por outro lado, para o imaginário masculino japonês, o quimono da gueixa, que tudo cobre, costuma ser considerado sexy. Curioso, não?

É possível hospedar-se no Only You ou passar apenas algumas horas aproveitando as instalações. Tem restaurante, café e spa com massagistas e outros profissionais a disposição. Um lugar perfeito para recarregar as energias!

O único porém é que nos separamos por mais de uma hora e fomos encontrar Paulo somente na saída.

Vista do Monte Fuji

Para fechar o passeio, subimos de carro uma das montanhas da região para tentar ver melhor o Monte Fuji, o mais alto do país (3.776 m), localizado na fronteira entre as províncias de Yamanashi e Shizuoka. Fazer a escalada do dito cujo, de formação vulcânica, segundo relatos, é uma experiência extraordinária, mas árdua, pois é preciso seguir um longo pedaço a pé, por um terreno íngreme e pedregoso. Por um motivo ou outro, quando morei no país, perdi inúmeras oportunidades para fazer a escalada. Meus amigos sempre dizem que adoraram a experiência, mas curiosamente poucos se animam a voltar…

Símbolo do país, o Fuji-san (“san” aqui quer dizer “montanha”) é até hoje reverenciado pela sua simetria, beleza e os tantos mitos que o envolvem… Em viagens, por exemplo, quantas vezes não vi vagões inteiros se levantarem dos assentos para ver melhor a montanha sagrada, por ínfimos segundos, na rápida passagem do trem-bala por certas cidades.

Na psique nacional, considerado sacro tanto pelo budismo como pelo xintoísmo, a sua gigantesca dimensão é espiritual também. E são muitas as peregrinações por esse motivo.

Recentemente, Irene e Paulo haviam subido essa montanha próxima algumas vezes, mas sem sucesso com a visibilidade. O dia, para mim, tinha sido tão prazeroso que pensei com meus botões: “Já está bom demais”. Qual não foi nossa surpresa ao chegar ao topo e dar de cara com o Fuji-san, coroado de nuvens, em toda a sua glória. Soprava uma brisa suave e o sol estava se pondo, o momento também foi perfeito. Ficamos ali em silêncio, surpresos, felizes, comovidos, contemplando o monte corado e a visão liliputiana da cidade abaixo, numa reconexão zen com a natureza. E com algo maior.

De repente, Irene me disse: “Nossa, como você é sortuda!”

Sim, tenho muita sorte de ter amigos como vocês, Irene, que me proporcionaram esse dia tão especial.

De coração, obrigada.

Paulo e Irene

* Outros textos sobre o Japão:

Revisitando Tóquio

Primavera no Japão: Hanami

Posted in: Viagem