Quando descobri Israel Kamakawiwo’ole (Iz), ele já não estava mais entre nós. Durante anos enfrentou problemas de saúde por conta de uma obesidade mórbida, e faleceu prematuramente, aos 38 anos, em 1997.
Segundo histórias de quem o conheceu, seu caráter era tão bonito como o seu canto, que exala uma humanidade, um frescor e uma doçura de outro mundo. Apesar de ter abraçado melodias tradicionais havaianas (tentando se distanciar da “hula” turística), um dos seus sucessos mais conhecidos é o remake de “Over the Rainbow“, que fez parte de várias trilhas sonoras do cinema e segue ainda despontando nas paradas musicais do mundo inteiro. Em dezembro de 2010, por exemplo, foi a número um na França e na Suíça.

Halona Cove, praia da cena do famoso beijo de Burt Lancaster e Deborah Kerr, no filme "A um Passo da Eternidade" (1953)
Além de ter sido notoriamente uma figura querida, bona fide, Iz promoveu os direitos do povo nativo e também a independência do Havaí. Um dos maiores ícones locais, ele hoje segue mais vivo do que nunca na sua música, na voz do seu ativismo e em todo o belo legado que nos deixou.
Penso nele agora porque, nessa última estada no arquipélago, pude enxergar aspectos que tinham passado despercebidos nas primeiras visitas, quando meus olhos embasbacados, em constante estado hipnótico, estavam voltados acima de tudo para as belezas naturais do lugar. Dessa vez, porém, na ilha de Oahu (uma das oito principais), deu para ver com um pouco mais de clareza o “outro lado”, aquele que os guias de turismo não mencionam e tantos pontos tem em comum com a música e a própria vida do cantor, um autêntico filho do Havaí.
Além dos nativos locais, o arquipélago é povoado por americanos de diversas procedências e muitos imigrantes, especialmente asiáticos, mas a obesidade é um problema sério (crescente em todo o país, diga-se de passagem), com incidência altíssima entre a população nativa. O caso de Iz está longe de ser uma exceção.
Os nativos consomem menos a comida tradicional havaiana, que inclui o “poi” (uma pasta feita da raiz de taro), e cada vez mais, no seu lugar, hambúrgueres, pizzas e congêneres, bem mais acessíveis ao bolso do que as frutas e verduras caríssimas do supermercado. Mais uma mudança de hábito trazida pela colonização ocidental.
Segundo o doutor Terry Shintani, especialista em nutrição, o poi é um super alimento, sem gordura e glúten, rico em vitamina B, cálcio e fósforo. Para ele, um elemento-chave na batalha para reverter a obesidade entre os nativos havaianos.
Cheguei então ao outro ponto: o excesso de consumo de fast food é precedido pelo alto custo de vida. Os precos são mesmo “salgados” quando comparados ao restante do país. Antes de comprar uma fruta no supermercado, me vi apalpando, pesando, suspirando, mentalizando vacilante o custo-benefício, antes de me dirigir ao caixa. Muita coisa custa quase o dobro e, de fato, segundo uma pesquisa da CNBC do ano passado, o Havaí encabeça a lista dos estados com o custo de vida mais exorbitante dos EUA, ao lado da Califórnia.
A maior parte dos produtos manufaturados é abastecida pelo restante mais afastado do país e o valor do transporte é adicionado ao custo, assim como o dos cuidados extras para conservar ao máximo alimentos perecíveis. A moradia também é cara, assim como os impostos.
É um preço alto que se paga para viver no paraíso.
Na estada mais recente em Oahu, vi cisnes negros pela primeira vez, e praias lindíssimas, cada uma com um colorido próprio. Dessa vez, além da Hanauma Bay que mencionei num texto anterior, me apaixonei também por Kailua, com árvores pertinho do mar, muita sombra e bancos para piquenique. Um bosque em plena praia, com uma vibração gostosa, tranquila.
Outra surpresa foi também dar de cara, agora em janeiro, com o navio do Jack Sparrow, o Black Pearl (Pérola Negra), ancorado por dias e dias na marina de Ko’Olina, com seu ar enferrujado e esqueletos pendurados. Estava lá ainda quando partimos.
Dirigindo perto do mar, ao longo da Costa Waianae, vimos na praia uma longa faixa de tendas precárias armadas, onde viviam famílias inteiras, sem condições para manter uma moradia. Muita gente tem carro e o usa para, de lá, ir ao trabalho. Soube que diariamente o ônibus escolar faz uma parada para pegar as crianças.
No acampamento, tem muitos americanos não-nativos havaianos, especialmente de meia idade, que não conseguiram encontrar um lugar ao sol na ilha. Há quem tenha problemas com drogas, ou quem foi despejado pelos novos proprietários dos imóveis que alugavam (principalmente depois do boom imobiliário de 2002). Mas a maioria mesmo, dentre os grupos étnicos, é composta de nativos havaianos, que têm a menor renda no estado e, quase sempre, muitas bocas para sustentar. Estatísticas do censo de 2010 mostram que apenas Oahu totaliza hoje mais de 4 mil sem teto e, em todo o estado, de acordo com o Hawaii H.O.M.E Project, entre 12 e 15 mil pessoas por ano vão morar numa tenda improvisada em algum ponto.
Muitos nativos havaianos se perguntam por que eles são os mais pobres, com o nível de educação e saúde mais baixo e estão na rabeira de tudo no arquipélago. Além disso, o sentimento contido em algumas canções de Iz, como Hawaii ’78, continua ainda bem palpável. Na letra, ele pergunta como o rei e a rainha se sentiriam se vissem o Havaí de hoje, ” rodovias na sua terra sagrada”, “semáforos e linhas de trem”, “como se sentiriam com essa moderna vida de cidade”:
“Cry for the gods, cry for the people
Cry for the lands that were taken away“
“Chorariam pelos deuses, chorariam pelo povo/ Chorariam pela terra que lhes foi tirada”
É assim que uma grande parte do povo nativo se sente até mesmo agora, com um ressentimento passado de geração a geração, por terem tido suas terras invadidas, sido expostos a doenças a que não tinham imunidade, forçados a abraçar uma cultura estranha…
Um bocado em comum com a triste história de subjugação dos nossos índios, assim como a dos índios norte-americanos no processo de colonização… E de quantos outros povos…
Há bandas do arquipélago em que os brancos evitam pisar, devido à hostilidade. Muitas crianças sofrem com o bullying nas escolas, por motivos raciais… Uma realidade tapada com a peneira para não prejudicar a imagem paradisíaca, cuidadosamente cultivada pela indústria do turismo.
Em 1893, a rainha Lili’uokalani, última soberana do Reino do Havaí, foi deposta e presa no Palácio Iolani. Foi quando a ocupação norte-americana começou e, pouco depois, em 1898, o território foi oficialmente anexado ao país.
Em 1959, o Havaí se tornou o quinquagésimo estado estadunidense.
# Ver também:









john
06/02/2011
tem os dois lados. já ouvi falar que a condição de vida era bem pior antes da colonização.
Lilian Kano
07/02/2011
Muito obrigada pelo comentário, John.
Concordo que há sempre vários ângulos de visão.
O que quis mostrar no meu texto é que nem tudo é paradisíaco. Muita gente sobrevive com dificuldade, especialmente os nativos.
Meu marido morou anos no Havaí. Para mim, foi a terceira visita. Adoro o arquipélago e pretendo voltar muitas vezes.
Mas, quando escrevi esse texto, não me fundamentei no achômetro e apenas no que vi. Dei uma pesquisada também.
Alguns artigos interessantes para consulta são:
http://hnn.us/articles/7431.html
http://www.fcnl.org/issues/item.php?item_id=1251&issue_id=111
Em 2002, a professora Haunani-Kay Trask publicou o livro : “Nós Não Somos Nativos Felizes”
Acho que dizer que as condições de vida são melhores agora do que antes é meio parecido com a retórica dos chineses de colonização benevolente do Tibet, por exemplo. Talvez a vida dos nativos fosse mais simples antes, talvez até houvesse fome, mas pelo menos suas terras eram suas, seus direitos eram seus, inclusive o da liberdade e da auto-determinação, pedra fundamental da Constituição e da própria independência dos EUA.
É realmente um assunto complexo. Mesmo porque, a essa altura, não se pode colocar a pasta de volta no tubo.
Abraços
Blog Viagens
09/02/2011
Oi, Lilian! Ontem mesmo eu ouvi na rádio local, aqui em Kailua (Oahu, Hawaii), o locutor dizendo: ‘estou precisando fazer exercícios físicos, não quero virar um nativo’. Isso quer dizer, a maioria dos havaianos nativos são obesos. Acho que é realmente por causa dos fast foods. Comida saudável é muito cara aqui, as frutas são um absurdo (e são meio sem gosto, já reparou?).
Os moradores de rua sempre chocam os turistas que vêm para cá. Ninguém espera encontrar mendigos ‘acampados’ no paraíso. Não gostei muito do poi. É muito nutritivo, mas tem um gosto estranho.
Lilian Kano
09/02/2011
Oi, Loo
Pelo visto, vocês continuam no Havaí. Quem sabe, a gente não se esbarre um dia.
Obrigada pelo comentário.
Vou já visitar o seu blog e me atualizar.
Um beijo!
Marcelo Góes
05/06/2011
Mais um artigo bacana e com uma crítica interessante.
De modo geral todos os americanos sofrem com a má alimentação.
Tem um programa de um chef de cozinha famoso na gnt (eu acho) onde ele tenta mudar a alimentação na Inglaterra. Ele quer tirar o hamburguer e fritas que custam 65c da merenda das escolas e substituir por alimentos mais saudáveis. Só que para resolver isto esbarra em custo e a própria rejeição dos estudantes. A Inglaterra é um país desenvolvido só que muito menor que os EUA. Resolver este problema vai ser muito complicado se não houver um senso de urgência e principalmente disposição para enfiar a mão no bolso.
Vou procurar depois e passo algum link.
abs
Marcelo
Lilian Kano
06/06/2011
É, Marcelo. Quando nos mudamos para o país, ficamos assustados. É muito fácil embarcar no ritmo daqui porque todo mundo à nossa volta come bastante e as porções dos restaurantes são super generosas.
Além da quantidade de fast food e bobagem que se consome, outro vilão é o milho, subsidiado pelo governo e presente em quase tudo. Principalmente o xarope, com alto teor de frutose, altamente engordativo.
Quando a gente sai para comer, muitas vezes acaba dividindo um prato. Só assim, para não sucumbir.
Marianne Schimidt
13/09/2011
oooi sou uma jovem estudante , e gostaria de saber que tipo de colonização o Havaí recebeu .
por favoor me responda , Muito Obrigado .
Lilian Kano
14/09/2011
Oi, Marianne
Que tal dar uma checada nesses links:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Expansão_ultramarina_dos_Estados_Unidos
http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20080514171617AAP8T86
http://maquiavelbaltasargracian.blogspot.com/2008/07/histria-da-ocupao-ho-havai.html
Bom estudo!
Alzira Amorim
21/09/2011
Oi Lilian San,
Há 23 anos atrás estive em Wonolulu. Confesso que fiquei um pouco decepcionada. Eu esperava mais. Aprendi a dança do local em um dia passado na Polinesia. Fiquei em um
hotel enfrente a praia que lembrava muito Copacabana..
Lilian Kano
22/09/2011
Honolulu é a capital, tem mais trânsito, mais burburinho. Pela descrição, imagino que tenha se hospedado na área de Waikiki. Acho que o melhor do Havaí está fora da capital. É mais tranquilo, a energia da natureza nos nutre de uma forma impressionante, a gente sempre volta para casa recarregado. Olha que normalmente não somos ratos de praia. Mas lá, adoramos explorar a costa e mergulhar!
Flávio P Costa
08/11/2011
Oi Lilian, Conheci Israel Iz apouco tempo. Já tinha ouvido as músicas mas não identificava o cantor, que me foi apresentado por meu filho. Falo “me foi apresentado” pois, apesar de ter feito a passagem, Israel Iz Kamakawiwo’ole continua “vivo” entre nós, pela suavidade, beleza, forma direta e clara de sua músicas e voz. É a própria encarnação da voz dos que não tem voz. No Hawaii (nativos) e em todo o planeta. Na verdade a imposição da “american way of life” que inclue alto custo dos alimentos naturais e maior assecibilidade financeira do fast-food (comida reciclada? reprocessada ? restos ?), imposição essa feita por coerção do sistema financeiro ou pela bala dos fuzis… A realidade dos nativos do Hawaii é a mesma de todos os excluídos, nativos de teras onde moram ou não. É o resultado da concentração de capitais que devora mesmo as empresas e pessoas incluídas, porém por baixo, no sistema finaceiro-industrial especulativo e desumano liderado pela “elite” finaceira euro-americano-asiáica. Infelizmente. O Hawaii foi ocupado e sua população subjugada. E o que será do Brasil ? Resistirmos ? o Brasil com a maior reserva mundial de biorecursos (principalmente na Amazônia), com 98 % das jazidas de nióbio, metal estratégico, nas terras dos ditos Ianomanis, e com a maior resevra mundial de água doce(em um planeta cada vez com maior escassez deste líquido) .
Lilian Kano
21/11/2011
O Iz é demais, não? Uma alma bonita e talentosa que se foi cedo demais.
É, Flávio. A história sempre parece se repetir. A Amazônia corresponde a mais da metade das florestas tropicais do mundo. Tem um potencial imenso, mas por enquanto impenetrável com a falta de planejamento, a corrupção endêmica no Ministério de Transportes e o escasso sensoriamento e fiscalização. É preciso protegê-la de interesses externos, mas também da degradação florestal e indígena levada a cabo pela nossa própria gente.
Ana Miranda
27/02/2012
Oi Lilian! Seu blog e’ muito interessante, estou adorando!! Ha’ tempos tenho vontade de conhecer o Hawai, mas devido a falta de cia e ao custo da viagem, nunca realizei. Mas de ferias marcadas para 2a. quinzena de abril, e sem destino, me voltei ao meu sonho de consumo… Gostaria de sua ajuda quanto a possibilidade de ficar 15-16 dias em Oahu, se e’ tempo demais pra ficar nessa ilha… Gostaria muito de conhecer mais uma ilha, mas pela questao financeira acho q nao vai ser dessa vez ainda, pois penso em alugar um carro por la’, e por estar indo so’ pesa no orcamento…
O q vc sugere, qto tempo nessa ilha? tem dicas de locacao de carro e hospedagem economicas (baratas)… pensei em ficar os primeiros dias em waikiki e depois na sexta feira ir pro North shore – q dizem q e’ melhor aos fds – e depois conhecer outros tantos lugares, como os que vi aki no seu blog (Kailua, etc…)
Pode me ajudar? Obrigada!
Ana
Lilian Kano
27/02/2012
Oi, Ana
Quando vamos ao Havaí geralmente fazemos uso de uma timeshare que nos dá direito a duas semanas anuais de hospedagem. Mas quando a estada passa de duas semanas, por ser mais em conta, nos últimos tempos temos optado por alugar uma casa (ou cabana), onde podemos preparar nossas refeições quando não queremos comer fora, etc. Costumamos usar os sites do tripadvisor (http://www.tripadvisor.com/VacationRentals-g29222-Reviews-Oahu_Hawaii-Vacation_Rentals.html) e do VRBO (http://www.vrbo.com/search?q=oahu&from-date=Arrival&to-date=Departure), sempre checando os comentários dos usuários. O tripadvisor é uma referência para mim sempre que ponho o pé na estrada, para pesquisar roteiros, restaurantes, hotéis, etc. Tem opções para todos os orçamentos. Quando buscamos hotéis especificamente, navegamos também pelo hotels.com.
Nas viagens, sempre usamos a empresa Hertz para a locação de carros, mas agora encontrei essa aqui (http://www.discounthawaiicarrental.com/) com comentários positivos.
Quanto ao tempo ideal, depende de você, do que te move, te estimula. Eu sou meio suspeita para opinar pois sempre tenho o comixão de ir ficando, nunca quero ir embora.
Recomendo uma visita ao blog da Loo, que morou lá (http://blogviagens.com/category/estados-unidos/hawaii/).
Um abraço e boa viagem!