Círculo da Vida

Posted on 26/01/2011

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A morte de um ente querido abre  uma enorme fenda no chão sob nós. Caímos desorientados, engolidos por um vazio abissal, a saudade, a dor e a certeza de que o mundo mudou de forma irreversível e fundamental.

No meio do breu, lá no fundo, nos deixamos ficar, paralisados, com o eco claudicante das palavras de conforto, as lembranças fragmentadas, o coração entorpecido…

Recentemente, foi assim.

Até que um dia, meu marido (que às vezes me compreende melhor do que eu mesma) me convenceu de que estava na hora de sacudir os carrapichos escatológicos, reabrir a porta da vida, sair e ver o mundo lá fora.

Levamos um sanduíche, uma salada e um vinho gelado.

O sol brilhava sobre as falésias, as lavandas-do-mar  e as baleias, que dançavam perto do penhasco… Ao lado da gente, uma garotinha se divertia fazendo bolhas gigantes, com água e detergente. Algumas logo explodiam; outras, desafiando o prognóstico coletivo, levantavam vôo, reluzindo coloridas sob o reflexo do sol.

Não era fácil fazê-las subir, mas por um bom par de horas, a menina perseverou, ganhando novos amigos e colaboradores. Três ou quatro vezes, a bola foi mais além, com a brisa que soprava, se perdeu nas alturas do céu, carregando nossos aplausos, o brilho do olhar esperançoso de crianças e adultos compartilhando o mesmo senso de encantamento…

O contato com a natureza e com as pessoas foi revigorante. À nossa volta, todo mundo parecia circular leve, de bem com a vida, numa Babel diferente, aquarela harmoniosa de idiomas e culturas. Um roedor gopher (uma espécie mais rechochuda da família dos esquilos) saía do buraco na terra para recolher capim e folhas, sem dar bola para os espectadores de plantão na boca da toca. Eu, querendo registrar essa tarde perfeita, ia clicando tudo.

Pensei comigo: há dias, uma das pessoas que mais amo no mundo partiu, levando um pedaço de mim. E cá estou, a sorrir com essa bolha que já vai alta, saboreando o momento presente com a urgência redobrada de quem, por um tempo, deixou de viver.

Um dia, eu me vou também.

Minha vida é esse momento, no penhasco à beira-mar, com meu companheiro amado, cúmplice no crime.

Quero dizer a ele e a todo mundo, o que penso e sinto. Não vou esperar por uma eulogia, tributo a quem se foi, para finalmente desentalar do peito palavras de ternura e louvor. Não quero viver timidamente, dentro de casa, em eterno preparo para o amanhã, que não sei se virá.

A vida é em si uma eulogia.

Temos todos um encontro marcado com a morte. Vale sair da toca, confrontá-la diariamente, identificar o seu papel – como nesse exato momento – de inocular vida na vida.

Entre bolhas que estouram e levantam vôo, é o epílogo e sua inevitabilidade que me ensinam a dar maior peso, significado e profundidade a cada gesto, cada ação… A me dispor a seguir em frente, abraçando o novo com alguma coragem, sem rascunhos, honrando meus mortos.


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