A morte de um ente querido abre uma enorme fenda no chão sob nós. Caímos desorientados, engolidos por um vazio abissal, a saudade, a dor e a certeza de que o mundo mudou de forma irreversível e fundamental.
No meio do breu, lá no fundo, nos deixamos ficar, paralisados, com o eco claudicante das palavras de conforto, as lembranças fragmentadas, o coração entorpecido…
Recentemente, foi assim.
Até que um dia, meu marido (que às vezes me compreende melhor do que eu mesma) me convenceu de que estava na hora de sacudir os carrapichos escatológicos, reabrir a porta da vida, sair e ver o mundo lá fora.
Levamos um sanduíche, uma salada e um vinho gelado.
O sol brilhava sobre as falésias, as lavandas-do-mar e as baleias, que dançavam perto do penhasco… Ao lado da gente, uma garotinha se divertia fazendo bolhas gigantes, com água e detergente. Algumas logo explodiam; outras, desafiando o prognóstico coletivo, levantavam vôo, reluzindo coloridas sob o reflexo do sol.
Não era fácil fazê-las subir, mas por um bom par de horas, a menina perseverou, ganhando
novos amigos e colaboradores. Três ou quatro vezes, a bola foi mais além, com a brisa que soprava, se perdeu nas alturas do céu, carregando nossos aplausos, o brilho do olhar esperançoso de crianças e adultos compartilhando o mesmo senso de encantamento…
O contato com a natureza e com as pessoas foi revigorante. À nossa
volta, todo mundo parecia circular leve, de bem com a vida, numa Babel diferente, aquarela harmoniosa de idiomas e culturas. Um roedor gopher (uma espécie mais rechochuda da família dos esquilos) saía do buraco na terra para recolher capim e folhas, sem dar bola para os espectadores de plantão na boca da toca. Eu, querendo registrar essa tarde perfeita, ia clicando tudo.

Pensei comigo: há dias, uma das pessoas que mais amo no mundo partiu, levando um pedaço de mim. E cá estou, a sorrir com essa bolha que já vai alta, saboreando o momento presente com a urgência redobrada de quem, por um tempo, deixou de viver.
Um dia, eu me vou também.
Minha vida é esse momento, no penhasco à beira-mar, com meu companheiro amado, cúmplice no crime.
Quero dizer a ele e a todo mundo, o que penso e sinto. Não vou esperar por uma eulogia, tributo a quem se foi, para
finalmente desentalar do peito palavras de ternura e louvor. Não quero viver timidamente, dentro de casa, em eterno preparo para o amanhã, que não sei se virá.
A vida é em si uma eulogia.
Temos todos um encontro marcado com a morte. Vale sair da toca, confrontá-la diariamente, identificar o seu papel – como nesse exato momento – de inocular vida na vida.

Entre bolhas que estouram e levantam vôo, é o epílogo e sua inevitabilidade que me ensinam a dar maior peso, significado e profundidade a cada gesto, cada ação… A me dispor a seguir em frente, abraçando o novo com alguma coragem, sem rascunhos, honrando meus mortos.





-*Vera Luz*-
29/01/2011
Olá Lilian!
Estava aqui envolta as suas palavras e vi que todos nós seres humanos temos o direito de viver a vida plenamente no momento presente, mas, por que queremos nos tirar isso como se não respeitássemos a nós, o outro e o divino que há em tudo o que há vida! Então senti vontade de lhe escrever dizendo: o Amor é tudo o que fica dentro de nós e é com este Amor que vivemos não importa em qual dimensão, e saiba sempre as pessoas queridas, estas que nos presenças caras, estarão sempre muito vivos dentro de nós, a cada lugar, cada lembrança e cada minuto que nós vivemos e que podemos nos lembrar desta presença e que possamos fazer isso, pois, deste momento em diante estas passam a viver bem unidos a nós, neste estágio e que o bem possa nos envolver e transmitir todo esse bem a esses que nos são caros, deixando-os em paz a cada instante que sentirem nossa presença.
Um abraço,
Todo o Conhecimento é Luz que Inspira a Alma -*Vera Luz*-
Lilian Kano
29/01/2011
Obrigada, Vera. Agora são as suas palavras que me envolvem.
É desse jeito que você falou que me sinto hoje, com uma visão um pouco diferente da morte.
Um abraço!
-*Vera Luz*-
29/01/2011
Que bom que tenha brilhado uma nova luz despontando a visão para outro ângulo da mesma situação, muitas vezes é preciso falar, expor nossos sentimentos e desse momento em diante, nos permitimos e nos deixamos envolver na luz do presente, tudo o que compartilhamos nos faz perceber novas formas, novos horizontes, onde sempre nossa mente encontra novos percursos, para enfim nos levar ao desenvolvimento interior que se faz necessário aqui na forma humana. Fico feliz que já está seguindo na transformação dos sentimentos que leva à sabedoria da Alma humana, onde tudo se faz no melhor, no bem do espírito que nos concede a vida nesta viagem terrena.
Um abraço iluminado!
Alzira Amorim
16/02/2011
Lilian ,achei tudo muito profundo o que você escreveu e o que a sua amiga comentou.
Só não entendi se enquanto eu estava viajando para Mato Grosso se recentemente
você perdeu algum ente querido. Espero que não. Que o artigo em questão
seja apenas um desabafo de filosofia de vida.
Bjs. Alzira
Lilian Kano
16/02/2011
Meu avô partiu em paz, aos cem anos de idade.
Obrigada pelo carinho.
Um beijo
Jun
23/02/2011
Lindo! Estas palavras sao um presente para todos nos. Obrigado. Jun.
Lilian Kano
26/02/2011
Oi, Jun
De certa forma, ele nos deu vida, não é? Temos que ser fortes e honrar o grande presente com que fomos brindados.
Beijo carinhoso