David Pogue e Tecnologia
Há alguns dias, acompanhando meus sogros antenados, fui a uma palestra de David Pogue, célebre colunista de tecnologia do New York Times. Fui curiosa, imaginando qual seria o atrativo do bate-papo, entitulado “All I want for Christmas, Hanukkah, Kwanzaa“, que os fez jantarem às pressas para poder chegar em cima da hora, afoitos, ao palco do encontro. O jornalista discorreria a respeito das últimas novidades tecnológicas do mercado e, confesso, fui pensando em sair logo depois dos primeiros vinte minutos…
Qual não foi minha surpresa quando não só fiquei até o final, como achei tudo interessantíssimo.
David Pogue nos informou de forma fluida, competente, e também nos entreteve com suas tiradas cômicas, a exibição de seus vídeos, programa na TV e até um
pequeno concerto ao piano com uma composição original. Além de tecnologia, fiquei surpresa ao saber que, multi-talentoso, ele tem também livros publicados sobre o mundo da ópera e da música clássica, ambos relacionados com a sua formação acadêmica.
Depois da viagem pelo intrincado e vertiginoso universo tech – de ipads, ipod touches, Samsung Galaxies e outros brinquedinhos – em que mouse e teclado pouco a pouco se tornam obsoletos, como bônus, ainda pude descobrir a câmera dos meus sonhos (pequena e leve, a Canon S95), antes de sair do auditório, feliz da vida.
Funcionalidade e Eficiência
Basta olhar ao redor. No mundo global, a tecnologia está onipresente, e mesmo pessoas de inclinação humanista como eu – amante de palavras, não de números, chips e aparatos de metal – cada vez mais, sucumbem a sua funcionalidade. Aliás, falando especificamente por mim e pelo meu marido, nosso entusiasmo se justifica também pelo fato de nos permitir conduzir o trabalho onde quer que estejamos, em qualquer canto do mundo. Atualmente, vital ao nosso estilo de vida, sempre com os pés na estrada, ou no avião.
Nesse momento, estamos tranquilos em casa. Escrevo com o meu iphone encaixado num aparelho que funciona, ao mesmo tempo, como carregador de bateria e caixa de som. Estou usando a aplicação “Pandora“, uma rádio “inteligente”. Sou fã de Robert Downey Jr, como ator e cantor, para mim, um dos artistas mais talentosos dessa geração. Digito esse texto embalada por algumas de suas canções, e de cantores de estilo parecido, selecionadas por Pandora, quando indiquei seu nome como referência para a programação.
Não preciso perder tempo pensando, escolhendo as músicas uma por uma, nem colocá-las no aparelho… Estou terceirizando essa tarefa.
Parece que “terceirizar” é mesmo a palavra da moda, ela tem aparecido em tudo o que leio ultimamente.
Terceirização
Meu marido também terceiriza a contabilidade da empresa, feita por uma outra companhia que, por sua vez, terceiriza o serviço, contratando grande parte do staff
na Índia, de onde dados e relatórios são diariamente enviados. Além disso, como um outro exemplo, não-convencional (e questionável para um bocado de gente), a mídia daqui noticia um grande boom de casais que contratam mulheres indianas para serem fertilizadas com seu material genético e parirem filhos para mulheres americanas, quase sempre biologicamente impossibilitadas de dar à luz um bebê, numa cultura em que a barriga de aluguel é, cada vez mais, uma realidade aceitável. Assim funciona a terceirização, um sistema que oferece uma solução a mais, através da contratação de especialistas; na maioria das vezes, servindo para nos poupar tempo e permitir a concentração naquilo que fazemos (ou queremos fazer) melhor.
Na esfera high tech contemporânea, não precisamos mais lembrar dos itinerários, nem das histórias, dos aniversários ou do nosso próprio número telefônico. Não há mais necessidade de correr atrás de espaço em caixas e gavetas para guardar todas aquelas fotos, a papelada acumulada… O computador e o telefone, nossos fiéis escudeiros, fazem tudo isso para a gente. E muito mais.
Hoje, posso usar meu celular como calculadora, despertador, lanterna, dicionário, scanner de códigos de barra, de impressões digitais, jogo eletrônico, termômetro, apito para cachorros, repelente de insetos, localizador de criminosos sexuais, etc, etc, etc. Não canso de me espantar com as novidades toda vez que dou uma espiada na infindável lista de aplicações oferecidas. Ultimamente, ando encantada com a função do Dragon Dictation, da Apple. Um software que nos permite ditar o conteúdo, ao invés de digitar, onde apenas a voz basta para escrever.
Fragmentação
Por outro lado, nem tudo é la-di-da na nuvem que compartilhamos.
As coisas ficaram mais fáceis, mais rápidas. Assim, por consequência, fomos ficando impacientes, nossas expectativas, elevadas, e nossa vida… mais fragmentada.
Às vezes, pego meu marido dirigindo e observando de relance a telinha do celular. Felizmente, hoje, depois de uns puxões de orelha, ele melhorou bastante… No restaurante, olho ao redor e, invariavelmente, vejo gente lendo e digitando mensagens, os acompanhantes bocejando solitários… Na escola, professores se queixam de alunos apáticos, alienados, imersos na realidade virtual dos torpedos e jogos do celular…
Se bobearmos, deixamos de nos entregar às pequenas tarefas do dia a dia com a profundidade de antes. Ficamos mais reativos aos estímulos externos, aos sons e sinais dos nossos aparelhos, viciados na sua gratificação instantânea, em constante ritmo de telecoteco, de um ponto a outro, um email a outro, um telefonema a outro, sem cultivar pensamentos substanciais, nem tempo para curtir pequenos prazeres e nos dedicarmos ao que melhor fazemos – justamente aquele princípio básico, mencionado lá em cima, no qual se fundamentaria a terceirização.
Vale, então, ficar atento para não cair na arapuca.
Extensão da Mente?
No formidável texto, “A Zona Franca do Pensamento”, Martha Medeiros escreveu que “o pensamento não tem fronteiras, lógica, advogado de defesa ou carrasco. O pensamento é zona franca, terra de ninguém, um lugar onde sempre há vaga.[…] O pensamento é o único lugar onde ainda estamos seguros, é onde nossa loucura é permitida e onde todos os nossos atos são inocentes.”
Pois, nesse sentido, parece que estamos com os dias contados, chegando num ponto de integração nebuloso, em que não sabemos mais onde nossa mente termina e o computador ou o celular começam. Hoje, nossa vida está nesses aparelhos digitais, por sua vez, praticamente uma extensão da nossa memória: sejam interesses, idéias, gostos, atitudes, fotos de família, cartas de amor, relatórios financeiros, dados do banco, do cartão de crédito, informações médicas, segredos corporativos… As fronteiras do pensamento nunca estiveram tão tênues.
Privacidade
A bola de neve do pandemônio Wikileaks segue crescendo, com novidades picantes a cada dia.
Apesar de curiosa por natureza e, como todo mundo, acreditar que o governo (pela gente, para a gente) nos deve muitas explicações, acho questionável a divulgação pública, indiscriminada, de segredos, cenários e bastidores de negociações, que podem colocar a vida de pessoas e o futuro de nações em perigo.
O escândalo serviu também para levantar uma bandeira vermelha aos riscos que enfrentamos com a digitalização das nossa vidas, lembrando-nos que o crescimento de uma rede aumenta potencialmente a possibilidade de ter pessoas erradas desenterrando ossos. No caso do governo americano, para agilizar o compartilhamento de informações entre os serviços de inteligência (ao contrário do que aconteceu na época do ataque de 11 de setembro), as mensagens diplomáticas haviam sido salvas e armazenadas num servidor próprio, facilitando assim o seu acesso de qualquer ponto do mundo. Contudo, o subsequente vazamento acabou expondo de forma bombástica a fragilidade do sistema no espaço cibernético. Se acontece com o próprio governo, o que dirá conosco? Dados altamente sensíveis e confidenciais, hoje em dia, não estão mais seguros. Pode-se dizer que a privacidade é quase inexistente.
Quando a nossa mente estava entre as nossas orelhas, podíamos mesmo afirmar que era uma zona franca, território sacro. Mas agora, que praticamente a carregamos na bolsa, ficamos infinitamente mais expostos, vulneráveis.
Em setembro, a Associação Nacional de Advogados Criminais de Defesa (NACDL – National Association of Criminal Defense Lawyers) deu entrada numa ação judicial contra a política do Departamento de Segurança Nacional (DHS – Department of Homeland Security), que permite que os agentes da fronteira façam uma busca completa em câmeras, celulares, computadores e seus acessórios, podendo, inclusive, copiar dados e confiscá-los, sem explicação, mandado judicial ou qualquer motivo razoável para suspeita. Mais um, na avalanche de processos desse mesmo teor, nos últimos tempos.
Dizem que os americanos têm mania de ações judiciais. De fato, é meio difícil encontrar por aqui um adulto que não tenha se enroscado em alguma, de pequenas
a grandes causas, num ponto qualquer da vida. Nesse caso específico dos laptops, a indignação do público se explica por julgar seus direitos truculentamente desrespeitados com a invasão à privacidade (e dignidade), garantida pela 4ªemenda da Constituição, criada para proteger as pessoas de buscas e embargos não-razoáveis. O parágrafo determina que nesse tipo de situação, deve sempre haver um mandado judicial, baseado numa “causa provável”. Num país onde a Constituição é a bíblia, conduzir uma busca num aparelho que carrega todo tipo de segredo e informação pessoal é, para muita gente, uma grave violação de direitos civis.
Até aqui, o debate foi parar no tribunal inúmeras vezes. O Departamento de Segurança Nacional alega que fazer uma busca em computadores e outros artigos eletrônicos seria “como examinar o conteúdo da mala de alguém”. Uma desculpa furada, já que obviamente não é a mesma coisa.
Na verdade, o argumento mais sólido tem sido o de que essa emenda não se aplica à fronteira, uma vez que ainda não se entrou no país. Esse tem sido o veredito das ações judiciais.
À minha volta, muita gente concorda em abrir mão da privacidade, em determinados casos, para o bem maior da comunidade. Mas, numa democracia, espera-se que haja respeito, ao menos, uma razão concreta, e que a checagem seja conduzida por canais realmente competentes. O que mais tem enfurecido a opinião pública é a falta de critério, regulamentação clara, ao sabor do radar do desconfiômetro dos agentes da imigração… Os jornalistas temem a quebra do sigilo de suas fontes; os advogados querem preservar o privilégio da confidencialidade de seus clientes; logicamente, todos se preocupam com a forma que a informação é armazenada, onde vai parar, quem vai acessá-la, etc, etc.
Enquanto isso, complexos programas de criptografia e codificação são cada vez mais procurados pelo grande público, numa tentativa
extenuada de proteger o que resta da sua privacidade digital… O que nem sempre funciona.
Com o avanço galopante da tecnologia, à medida em que desfrutamos dos seus benefícios, vai se tornando impreterível confrontar questionamentos e tomar decisões fundamentais acerca de limites éticos, práticas legais, institucionais, e encontrar formas efetivas de lidar com milongas ultrajantes… como o iminente vazamento das nossas próprias vidas.





Alzira Amorim
15/12/2010
Gostei muito da sua explanação. O que mais me impressionou foi o avanço
galopante da tecnologia e possivelmente as suas futuras consequências.
Como por exemplo a sua privacidade digital.
Lilian Kano
17/12/2010
Eram idéias que vinham fermentando há algum tempo. E explodiram com o escândalo do Wikileaks.
Um abraço
Renato Brandao
18/12/2010
Adorei, Lilian,
Esse texto é uma referência importante que vou manter na minha inbox por um tempo para acessá-lo de vez em quando.
Obrigado pela reflexão – sinto como se tivesse ‘terceirizado’ esses pensamentos para você, já que não consigo me dedicar a eles com a intensidade que eles merecem.
Beijão com saudades e um ótimo fim de ano prá você e a família,
Renato
ShigueS
24/12/2010
Interessantíssimo. Mas como entusiasta tecnológico tenho que colocar alguns pontos: a tecnologia da informação é um processo irreversível. A internet é caótica, selvagem e perigosa a níveis que não se pode nem explicar. Se alguém teme que dados pessoais importantes possam cair na mão de terceiros, uma solução lógica seria simplesmente não colocá-los na rede. Deixe o que é privado offline e as chances de se ter algum tipo de invasão caem drasticamente. Ou aprenda o que pode ser compartilhado e onde.
A palavra de ordem na internet é liberdade. Acesso irrestrito à informação. Muitos programadores geniais empregam seu tempo derrubando sistemas que monopolizam dados. Uma situação tão revolucionária que é facilmente classificada como crime. Mas não quer dizer que nada seja seguro. O e-banking e o e-commerce estão aí a tempo bastante para provar que pode-se ter segurança na internet.
A iniciativa do WikiLeaks tem tido grande apoio da comunidade da rede e muitos defendem que é a melhor maneira de um povo acompanhar o que faz o seu governo. Se a publicação de um segredo pode colocar vidas em risco, a ocultação do mesmo também pode levar a mesma consequência: Há alguns meses vazou um vídeo onde se via um barco pesqueiro chinês atacando deliberadamente um navio da frota costeira japonesa. Mas a mídia japonesa foi privada dessa informação pelo governo e cidadões japoneses foram agredidos na China, pois acreditava-se que era os japoneses os agressores. Pessoas foram espancadas, lojas foram saqueadas e incendiadas e clima ficou péssimo. O Japão foi humilhado publicamente e o atual governo perdeu quase que toda a aprovação do público por ter escondido esse incidente.
Imagino como seria ter um governo que tivesse toda suas atividades publicadas na internet.
liliankano
27/12/2010
Oi, Shigue, que bom te ver por aqui. Obrigada pelo comentário.
Sim, no mundo ideal a transparência deveria prevalecer sempre. E eu também queria viver no mundo ideal.
Mas, infelizmente é com um pão, pão, queijo, queijo bem diferente que temos que lidar.
Algumas revelações do Wikileaks dizem respeito à matança de inocentes civis afegãos por militares americanos e também denúncias sobre apoio estrangeiro ao Talibã. Mas os nomes das fontes foram mantidos nos documentos, completamente expostos, colocando suas vidas em risco, assim como de seus familiares. O Talibã já anunciou que está usando as informação do website para a caça às bruxas.
A diplomacia é um jogo delicado, envolve especulações, discussões, estratégias e uma boa dose de secretividade para tomar decisões e resolver conflitos enrolados. O mesmo vale também, por exemplo, para as atividades de contra-terrorismo. Imagine só se tudo vem à tona em tempo real, quando as engrenagens estão em andamento.
Para mim, ironicamente, o medo de vazamento estimula a boca de siri e tem um efeito congelante na liberdade de expressão.
Lilian Kano
27/12/2010
Renato,
Uma abração para você também.
Boas festas a todos!