Ana Cintra conta que seu filho pequeno – com a curiosidade de quem ouviu uma nova palavra,
mas ainda não entendeu seu significado – perguntou-lhe:
“Mamãe, o que é velhice?”
Na fração de um segundo antes da resposta, Ana fez uma verdadeira viagem ao passado.
Lembrou-se dos momentos de luta, das dificuldades, das decepções.
Sentiu todo peso da idade e da responsabilidade em seus ombros.
Tornou a olhar para o filho que, sorrindo, aguardava uma resposta.
“Olhe para meu rosto, filho”, disse ela. “Isso é a velhice”.
E imaginou o garoto vendo as rugas, e a tristeza em seus olhos.
Qual não foi sua surpresa quando, depois de alguns instantes, o menino responde:
“Mamãe! Como a velhice é bonita!”
(Ana Gama Cintra – Perdizes/SP)
Esse é um dos textos publicados num livro infantil chamado “O Gênio e as Rosas”, trabalho de colaboração entre Paulo Coelho e Mauricio de Souza, com 24 contos adaptados pelo escritor; desenhos e personagens da turma da Mônica.
Por alguns anos, o utilizei em sala de aula, no Japão, quando lecionava a língua portuguesa a um nível ainda básico. A tarefa dos alunos era fazer uma lista de vocabulário e recontar a história com as próprias palavras, usando recursos diversos, como sinônimos mais simples, teatrinho, etc, de forma que o restante da turma, sem acesso ao texto, pudesse compreender. Cada dupla recebia um conto diferente. Assim, eu matava dois, três coelhos, introduzindo um pouco da nossa cultura pop, os personagens da irrequieta “turminha”, e dois significativos autores, além do ensino do idioma, com o conteúdo (e extensão) dos textos adequado ao tempo de aula e ao nível dos pupilos.
“O que o menino viu no rosto da mãe?” “Como deve ser, afinal, a velhice?” Depois de curta pausa, o som de páginas freneticamente viradas, manuseadadas nos dicionários…
Lembro-me desse conto agora porque acabamos de celebrar o centenário do meu avô, um acontecimento extrordinário, que me fez parar de novo para refletir sobre a velhice, a mortalidade e a vida.
Foi um processo gostoso o planejamento da festa, que trouxe a família ainda mais coesa, determinada a arregaçar as mangas, cooperar, criar em conjunto um evento memorável e, acima de tudo, fazer o velhinho feliz. Pois foi assim mesmo: a batuta do planejamento nas mãos dos tios; a decoração administrada pela prima, com centenas de dobraduras de “tsuru“, o legendário grou, tradicional símbolo de longevidade e sorte na cultura japonesa; belos arranjos florais; exposição de fotos; discursos emocionados; cantorias; risos; lágrimas… A festa foi uma catarse, uma explosão de amor, celebração de vida… Mais uma oportunidade para cada um de nós – filhos, netos, sobrinhos, bisnetos – à nossa maneira, repensarmos o valor, o significado incomensurável da família, e do nosso patriarca.
Meu avô é um imigrante japonês que chegou ao país há exatos 82 anos. Com minha avó, teve oito filhos. Foi agricultor, líder comunitário, técnico de beisebol, desportista multifacetado, desbravador de caminhos, semeador de sorrisos… Com generosidade, compartilhou conosco sua sabedoria e inata verve otimista; nos proporcionou também o esteio, o determinante de princípios sólidos, o encorajamento para nos esticarmos vigorosamente para atingir nossos objetivos…
Correm muitas histórias, pérolas de família, tramas tecidas a inúmeras mãos e memórias. Contam, por exemplo, que
ainda mal falando o português, costumava ir à escola dos filhos para, sem preâmbulos, pedir às professoras que fossem severas, que lhes exigissem nada menos que o melhor desempenho. De quebra, aproveitava a visita para tirar dúvidas, aprender as equações, os problemas matemáticos do livro, e poder assim, mais tarde, ensinar aos meninos em casa.
Quando se mudaram de uma comunidade japonesa do interior de São Paulo para o Rio – uma família cujo primeiro idioma era o nipônico – seu mantra para os filhos, até com certa aspereza, era: “aqui, vocês certamente vão perder com a boca, não vão conseguir vencer falando; usem a cabeça, mostrem seu valor fazendo”. Em reminiscências nostálgicas, minha tia diz que foi o que mais a marcou na sua formação. Coincidentemente, na geração seguinte, a mim também , “valor”, “cabeça”, “fazer”, entre as poucas palavras que ouvia do meu avô em português…
Nunca vou me esquecer da vez em que, sério, se virou para mim e disse: “Você é uma garota estranha…” Antes de acrescentar, divertido: “Assim como eu”. Foi uma injeção de auto-estima, o maior elogio que recebi no período frágil e turbulento da adolescência. Passei a imaginar nossas silhuetas unidas, na contramão, a caminho da Pasárgada onde tudo era possível, e éramos “amigos do rei”.
Alguns tios, os mais velhos, se recordam com carinho das vezes em que ele fez questão de levá-los - escadinha de filhos – caçula no cangote, da chácara onde moravam, para passear de bonde e, juntos, experimentarem a folia do carnaval pela cidade. Às vezes, ia com eles ao antigo Cine Ipiranga; já mais crescidos, aos torneios esportivos, até mesmo fora do estado. As paradas obrigatórias para refrigerantes e salgadinhos, sempre uma festa.
Me lembro da enxada, do chapéu de palha, das camisas molhadas de suor, das vezes em que minha avó se punha a tocar o sino – blém, blém, blém – chamando pelo meu avô. Vinha correndo, entre as árvores do goiabal, imaginando talvez um imprevisto, incidente, necessidade premente, para então receber um vidro de maionese, ou outro qualquer com a tampa emperrada, impossível de abrir. O que prontamente fazia, sem se queixar, antes de sair correndo de volta ao trabalho na plantação.
Dá para imaginar pas de deux mais singelo? Ele, pai e mentor do universo; ela – que já se foi, deixando saudade - uma rosa pequenina e enérgica, achando urgência em tudo.
Conta que a conheceu quando ela estava na sexta série escolar, no Japão. Era graciosa, e ele, tímido. Anos se passaram até que pudessem ter a primeira conversa e, logo a seguir, como acontecia naquele tempo, iniciarem a vida em comum.
Hoje, aos cem anos de idade, as pernas do meu avô não lhe obedecem, seu ouvido pouco escuta, os olhos lhe pregam peças… Sonha com uma comida que não pode mais mastigar; como a coruja, troca o dia pela noite… A mente, no entanto, continua alerta, assim como seu espírito, maior que o mundo.
A idade avançada traz, inevitavelmente, limitações e desconfortos. Não é uma caixa de sonhos de valsa, não é fácil.
Por outro lado, percebo nele o desenvolvimento de uma nova perspectiva, uma maneira de abalroar decepções, romper com a depressão, a decrepitude mórbida, através de deliberados passos concretos… Respira, come, dorme, acorda. Ao despertar, perscruta o teto com seus olhos pequeninos e, em silêncio, na cama, por alguns segundos presta atenção ao redor. Quando se dá conta de que continua neste planeta, orbitando o sol com a mesma família de sempre, move suas pernas no ar, se enche de determinação para encarar o dia, mantém-se intelectualmente ativo, tenta deixar aberto o canal de comunicação com o mundo e não desperdiçar um minuto de vida. Ainda faz planos, acalenta sonhos… Quer estar entre nós por mais alguns anos.
Outro dia, sonhou com um campo de orquídeas perfeito, aveludado. Numa inversão de papéis, conta que uma das filhas era a mestra do cultivo e ele, o aprendiz. De fato, diz que ainda tem muito o que aprender. A vida é “yakkai“, tem contratempos, mas é “omoshiroi“, interessante e divertida, diz sorrindo.
Olho para ele e o que vejo? Serenidade, sabedoria, tolerância, generosidade… iluminação – marcas de alguém que viveu e vive, não apenas existe.
A velhice pode ser bonita, sim.




Sonia Ninomiya
04/12/2010
Lilian, linda sua ode à velhice! Me remeteu aos “meus velhinhos”, não tão longevos quanto seu avô, mas que se deram com igual grandeza para os que os cercaram. Felizes de nós, né! Beijos, Sonia
Jun
04/12/2010
Nossa! Lendo trechos referentes ao sitio passou pela minha frente varias imagens de nossa infancia como a tenda que ele montava sob o ceu estrelado , noites iluminadas por lamparinas, brincadeiras nas poças da estrada apos as chuvas, bicicletas , jogos de tenis, pescarias no Iwanaga san, festas no kaikan… com certeza o Ditian teve e tem grande influencia em nossas vidas. Parabens pela homenagem. Jun. ( Ficou tudo sem acentuaçao . Nao estou no meu computador.)
Renato Brandao
05/12/2010
Querida Lilian,
Que texto lindo, enxuto, profundo e ao mesmo tempo singelo.
Obrigado por compartilhar conosco essas facetas riquíssimas de sua família, esses valores e princípios.
É difícil imaginar nossa geração vivendo tanto, mas a gente nunca sabe, não é mesmo?
Saudades imensas de você e de nossas conversas, mas tenho certeza que logo, logo estamos juntos outra vez, discutindo as coisas importantes, como sempre fazemos.
Um grande abraço e parabéns ao seu avô, e a você também,
Renato
Sanae
05/12/2010
Oie,priminha,cá estou em lágrimas emocionadas por tantas coisas ditas em seu blog e que eu nem imaginava,e sabia…É priminha ,vc como uma boa contadora de estórias,sabe bem como levar o enredo,revelando tantos momentos que ditian viveu e agora se revelam como uma grande revelação.Para mim,é como se agora participasse de algo que também faz parte de minha vida, que são lacunas de uma estória que agora foram preenchida e que me foram revelados em sua linda homenagem em seu blog, mas que fazem parte da estória desse grande PATRIARCA.e como é grande e bonita essa estória que ainda estamos vivendo!
Hatsumi
06/12/2010
Querida Sayumi-chan,
Que lindo o seu texo! Me peguei mergulhada nas boas lembrancas que tivemos no passado, que construiram nosso presente e farao parte de toda a nossas vidas.
Meus parabens para o Dicchan e a toda a familia Kano.
Muitas e muitas saudades,
Hatsumi
Lilian Kano
09/12/2010
Obrigada! É sempre bom receber um feedback.
Será que chegamos lá? Não sei.
Na vida, mais vale a jornada do que o destino final, não é? Que seja plena e útil.
Rogerio
09/12/2010
Emocionante…Parabens pelo texto…
Fica um gostinho de quero mais (histórias do diitian)…
Ká
15/12/2010
Não preciso conhecer o teu dichan para saber que é uma pessoa especial.
Beijão amiga.
Alzira Amorim
15/12/2010
Minha amiga fiquei muito emocionada com a homenagem feita por você ao seu avô.
Parabéns para ele e para toda a família. Me vejo num momento de reflexão levada por pensamentos passados que conduz a um só caminho a velhice.
Beijos Alzira
Tohiro
04/01/2011
Olá Sayumi! Muito bonito e autêntico o texto(verdadeiro ). De fato ele(Ditian),apesar de sua saúde física não estar vigorosa, a presença de espírito ficou mais fortalecida (nunca desiste de nos querer bem) e isso é o que mais me impressiona , de ver o quão ele é um ser especial e iluminado .
Salve Ditian!!!!!!!! !
Toshiro
16/01/2011
Fica a lembrança de que ………………….
Deixemos a vaidade de lado e vamos viver intensamente com nossos entes queridos , afinal??????? Qual o valor de viver????????????????
Nadja G.
29/01/2011
Oi, Lilian! Seu texto me fez chorar! Muito bonito, tanto o texto quanto a historia de vida do seu avô.
Obrigada pelo comentario no meu blog!
Beijos