Israel e Palestina, um Mosaico Humano

Posted on 23/11/2010

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Há poucas semanas, voltamos de uma viagem a Israel.

Embarcamos para lá numa época de alerta elevado ao terror, confesso, com uma certa apreensão da minha parte. Mas era um sonho antigo do meu marido, judeu, que queria ver com seus próprios olhos a situação do país.

Fomos com algumas condições impostas por mim, de tomar todas as precauções para a segurança, não visitar, por exemplo, certas partes da Cisjordânia (ou West Bank), como aconselhava o website do governo americano até algum tempo atrás. Claro, nada disso foi cumprido. Ficamos baseados em Jerusalém, mas nossos amigos locais nos levaram para cima e para baixo, atravessamos a tão falada região supracitada, visitamos aldeias palestinas e chegamos a viajar para o norte do país, pertinho da fronteira com o Líbano.

muro que separa o território israelense do palestino

O único momento de tensão para nós ocorreu quando, no caminho de volta de Belém,  soldados israelenses nos vetaram entrada e tivemos que ser abandonados pelo motorista palestino numa outra passagem indicada por eles, a ser atravessada a pé. Retornamos para a banda israelense, meio como que engaiolados por todo o caminho. Passamos então por um segundo check point com militares armados e, daí, esperamos pelo carro, que teve que dar uma volta imensa para nos buscar do outro lado do muro. A sensação de insegurança, sem dúvida, vinha por conta da experiência do desconhecido. Na realidade, soubemos depois, esse era um procedimento bem corriqueiro.

Redundante afirmar que Israel é uma nação complicada e que pudemos ver apenas a ponta do iceberg na estada de pouco mais de uma semana. Os próprios residentes locais, inclusive palestinos, nos diziam:  “Esse não é um país louco?”; “não acreditem em tudo o que vêem na mídia”; “temos mais paz do que no Brasil ou nos EUA”; “a violência existe, mas é isolada, não é um retrato de todo o país”…  Até lembra um pouco do nosso próprio discurso ao descrever a terrinha lá fora, não ?

Certamente, é um universo extremamente diverso, em termos de etnia, religião, crenças e valores em geral. Nos deparamos com muitos cristãos e muçulmanos de afiliações diferentes. Mesmo os judeus, são divididos em vários grupos, que evitam se misturar.

Dessa vez, todos que encontramos, sem exceção, eram pessoas intensas, diretas, de convicções fortes – com certeza, tudo isso fruto natural do meio. Apesar do histórico de dor e agressão recíproca, a maioria que tivemos a chance de ouvir – palestinos e israelenses – acredita ser possível a cooperação mútua e quer basicamente as mesmas coisas: viver com dignidade, em paz. O maior problema, segundo eles, são os líderes políticos que determinam a sua sorte, e os extremistas. Nosso guia israelense chegou a dizer: “temos que fazer os palestinos felizes, dar-lhes de volta a sua auto-estima”. Pudemos perceber que muitos discordam das decisões do próprio governo.

Recentemente, em agosto, um grupo de atores e dramaturgos israelenses iniciou um boicote, se recusando a trabalhar num teatro financiado pelo Estado, prestes a ser inaugurado num assentamento judeu em Ariel, um dos maiores da Cisjordânia, expressando assim sua insatisfação com a ocupação. A petição assinada pelo grupo está crescendo como uma bola de neve, recebendo também apoio de artistas e personalidades de fora do país.

Divisão Territorial

Deu para sentir que as coisas estão longe do oito ou oitenta, preto no branco. Há, por exemplo, basicamente, três tipos de território. Para facilitar, vamos chamá-los aqui de A, B e C. “A” seria a parte majoritária, israelense. A porção “B”, a área palestina de supervisão israelense, e a parte “C”, a terra sob a autoridade nacional palestina, onde israelenses não entram e de onde os palestinos não saem. É uma salada confusa. Podemos ver muitos check points nas estradas, assentamentos judeus e blocos árabes, lado a lado, pertinho um do outro, sem nenhuma separação visível. Ironicamente, trabalhadores árabes constroem as casas dos assentamentos e, para nós, a única maneira de distinguir os prédios palestinos era através das caixas d’água no teto, pois a infraestrutura é diferente. Havia também áreas palestinas inteiramente isoladas, cercadas por um alto muro, como uma prisão. Por outro lado, em cidades mistas como o Acre na região da Galiléia, ao norte, por onde passamos, judeus (maioria) e muçulmanos árabes vivem juntos, às vezes até nos mesmos prédios. Aqui, problemas existem mas não há segregação.

Como todos sabem, a dificuldade maior é que os territórios de autoridade palestina (na Cisjordânia e em Gaza) se encontram isolados dentro de Israel e não estão interligados, o que entrava a sua unificação e o passo adiante, como nação independente. Além disso, tem também a grande disputa pelo leste de Jerusalém, a cidade sagrada para cristãos, muçulmanos e judeus. Todo líder da região que tentou sentar para negociar a paz seriamente, com disposição para adotar medidas concretas, foi assassinado pelos próprios seus. Foi o caso do rei Abdullah I  da Jordânia, em 1951; do presidente Sadat, do Egito, em 1981; e do próprio primeiro-ministro israelense, Rabin, em 1995. Para os políticos, muitas vezes, com oposição dentro do próprio partido, são vários os interesses em jogo.

Pessoas

Encontramos pelo caminho muita gente especial, que generosamente compartilhou conosco sua história, idéias e sentimentos.

Para começar, Dror, um amigo de Tel Aviv, que nos apresentou à família – a esposa, os três filhos, três cachorros, três gatos, as irmãs (são três irmãos) – e aos amigos, escancarando sua casa e seu grande coração.

Com ele, visitamos um kibbutz, uma comunidade rural judaica, com o seu próprio sistema sócio-econômico, baseado na cooperação mútua em tudo – desde a produção e o consumo à educação –  com a posse coletiva, compartilhada. Recentemente, seu tio havia falecido e fomos convidados a participar da shivá, uma reunião na casa da família. Os sete primeiros dias de luto recebem esse nome na tradição judaica.

Sua tia, viúva, nos recebeu com simpatia e hospitalidade. Logo nos levou ao quarto para mostrar fotos do esposo. Vizinhos e familiares iam chegando e sentando-se numa grande roda no quintal. Como que em revezamento sincronizado, um grupo – pratinho de comida na mão – chegava e outro ia saindo. Todos conversavam, comiam, bebiam, descreviam recordações, falavam da vida, dos últimos acontecimentos e empenhavam-se em explicar para nós, forasteiros laicos, um pouco do histórico daquele kibbutz especificamente, num ambiente espontâneo e caloroso, sem sinal do torá, das kippas (as pequenas toucas masculinas) e da gravidade do cenário que, confesso, eu imaginava antes de chegar.

abrigo anti-bomba

Soprava uma brisa suave e, à noite, caminhamos um pouco pela área. Vimos as casas, uma escola, um pequeno parque, um espaço comunitário de equipamentos de musculação ao ar livre e muitos abrigos subterrâneos com entradas cavernosas, construídos para proteção contra bombardeios, mas hoje, em tempos menos conturbados, usados como discotecas e espaço para festas.

Passou por nós um pequeno grupo de etíopes judeus (os Falashas) recém-chegados à comunidade, ainda recebendo orientação quanto ao sistema local.

Tova Meyer

Na shivá, conhecemos Tova Meyer, uma energética senhora húngara, de 84 anos, que durante a Segunda Guerra Mundial teve a traumática experiência de viver num campo de concentração alemão. Após o término da guerra, ela foi libertada mas, tristemente, não pôde reencontrar nenhum dos familiares, todos judeus, que haviam sido dispersados em outros campos.

Em 1956, participou da Revolução Húngara contra a União Soviética. Arisca, foi uma das wildcats, que subiam nos tanques militares e lançavam coquetéis molotov no seu interior. Logo a revolta foi esmagada pelos russos e a partir daí, ela se tornou procurada. Conseguiu escapar  para Israel, chegando ao kibbutz onde vive agora. Recentemente, um documentário foi produzido a respeito e ela foi condecorada pelo governo húngaro.

Vendo hoje a vitalidade e o lampejo do seu sorriso, depois de tudo o que passou, é difícil imaginar a sua vida anos atrás, sempre no limite, e deixar de nos sentir inspirados pela sua capacidade de superação.

Como tínhamos vindo de longe, nos permitimos ficar por um tempo um pouco além do que recomenda a etiqueta da shivá (normalmente até uma hora).

Nos despedimos e acompanhados do nosso amigo-cicerone e suas duas irmãs, ainda com um pouco de fome, dali nos dirigimos à cidade do Acre (ou “Akko”, em hebraico) – a cerca de apenas 20 km do Líbano – onde fomos apresentados a Uri Yermias (ou Uri Jeremias), considerado um dos maiores chefs (senão o maior) do país. Jantamos no seu despojado restaurante de frutos do mar – Uri Buri – numa pequena construção de pedra de cerca de 400 anos, e involuntariamente pudemos reproduzir um pouco daquela atmosfera babona do banquete do filme escandinavo  “A Festa de Babette”, com caras e bocas do mais puro deleite, a cada prato que provávamos.

Uri Yermias

Uri, com sua longa barba, aura sábia e boa fide, lembrando um pouco o Dumbledore da escola de Hogwarts, atento, não perde um suspiro de satisfação, exclamação de regozijo, sorriso de prazer…  Adora ver o rosto bobo de felicidade das pessoas que experimentam a sua comida. E, além de todo o talento na cozinha, é uma pessoa interessantíssima. Entusiasta de arqueologia e história, fala vários idiomas, inclusive arranha o português, que aprendeu na sua estada em Minas Gerais. Simples, diz que é um autodidata, nunca “estudou” culinária e adora se enveredar por caminhos inexplorados. Sua formação original é em engenharia aeroespacial.

Ficamos impressionados com os sorvetes sem preservativos, com sabores exóticos, inacreditáveis. No sashimi, por exemplo, ele usa uma bolinha de sorvete de wasabi, uma delícia! Provamos os de frutas como maracujá e pink grapefruit, com um gosto surpreendentemente natural. E experimentamos outros, bem diferentes, um com o sabor de rosas e outro de caipirinha, muito gostoso. Sugerimos, brincando, que abrisse uma sorveteria, ao que Uri respondeu que deve ser mesmo o próximo passo.

o futuro Hotel Efendi

Ele nos levou para conhecer seu novo projeto: a restauração do palácio turco Abdul Pasha, casa do governador da cidade no século 19, pertinho dali, que deve ser inaugurado como um hotel em dezembro próximo (Efendi Palace Hotel). O palácio, ainda em reforma, com uma vista deslumbrante do Mediterrâneo, tem grandes janelas arqueadas e pinturas lindíssimas sendo reconstituídas no teto alto.

A cidade portuária do Acre, toda de pedra, fica na Baía de Haifa, a oeste da Galiléia e, patrimônio da humanidade, tem uma história longuíssima, de cerca de 4 mil anos.

Tel Aviv

Em Tel Aviv, com Dror, visitamos também o artista Arie Gavrielov e sua esposa Gila, um casal singular, de energia luminosa. Arie, natural de Bucara, uma cidadezinha do Uzbequistão, é um famoso artesão de obras judaicas em metal e recentemente  começou a trabalhar com vitrais também (Arie Gavrielov). Gila é psiquiatra, nutricionista, gemóloga e tem uma clínica de terapia com pedras e cristais que usa para tratar da saúde dos clientes (Gila Gavrielov). Tem doutorado em gemologia e ciências comportamentais.

Ambos são judeus não ortodoxos, mas religiosos, e para Gila, como uma mulher casada, isso quer dizer que, por opção, ela segue, entre outras, a tradição de usar uma peruca no dia a dia, além de roupas que lhe cobrem a maior parte do corpo. Arie, assim como Uri, cultiva uma comprida barba.

O curioso foi, para nós, o paradoxo de serem conservadores em certos aspectos (na preservação das tradições) e, ao mesmo tempo, abertos e liberais em outros.

Por exemplo, uma das filhas (israelense) de Gila se casou com um palestino e se tornou uma das líderes do ISM (International Solidarity Movement), movimento pela liberdade da Palestina, optando por viver em Ramallah, na Cisjordânia. Seu irmão do meio é um talentoso ator que já recebeu o “Oscar” da academia israelense. E a caçula é uma militante comunista. Arie tem dois filhos do casamento anterior. Juntos, adotaram uma sexta filha.

“Cada um na sua área,

cada macaco em seu galho,

cada galo em seu terreiro,

cada rei em seu baralho.”

Na família de Arie e Gila, temos um microcosmos representativo da diversidade (e complexidade) de Israel e uma amostra de que a nível pessoal, pelo menos, as diferenças podem ser abraçadas. Dror nos conta que quando os netos se reúnem com os afetuosos avós, cada qual com suas crenças e costumes, de alguma forma, todos parecem se entender, e se divertir, numa casa cheia de alegria e amor.

Comunicação

Meu marido e eu reservamos um dia para visitar Belém, a cidade da famosa Igreja da Natividade, que fica no território do grupo “C”, de autoridade palestina, onde vive uma das suas maiores comunidades cristãs, ao lado da maioria muçulmana. Devido ao conflito, o turismo e o comércio agonizam, com a redução de visitantes, e o povo local, isolado de tudo, tem uma vida sofrida e difícil.

Evitamos fazer compras em Jerusalém, onde ficamos baseados. Deixamos para adquirir lembrancinhas em Belém, do lado palestino, onde sabemos que o dinheiro é muito mais necessitado.

Para a visita, nosso excelente guia israelense, Itay, licenciado pelo Ministério de Turismo, nos recomendou um  guia palestino chamado Jirius, pois um está proibido de entrar no território do outro.

Ouvimos que constantemente se falam ao telefone, discutem a questão árabe-israelense e concordam em muitos pontos. Hoje se dizem bons amigos e acreditam que canais de comunicação como esse são essenciais para trazer paz à região.

O curioso é que separados por um muro intransponível, nunca se viram e pacientemente esperam pelo dia em que poderão se encontrar.

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