Há poucos dias, meu primo tocou na questão “qualidade de vida” e me falou da SPA, a síndrome do pensamento acelerado, além – claro, uma coisa leva a outra – do ideal de desacelerar.
Por um momento, me pus a pensar nos anos em Tóquio, quando esse era um dos tópicos recorrentes na conversa com os amigos. Na época, muitos de nós, profissionais de áreas diversas, buscávamos uma maneira de ganhar a vida, sem deixar de viver, driblando o compasso nipônico, impetuoso, já bastante incorporado ao nosso dia a dia.
Estava tão habituada ao corre corre, ao ritmo apressurado, com um sem número de projetos paralelos e horas extras de labuta, que vivia em constante inércia, numa direção única, sempre cavocando tempo para a vida pessoal. A sorte era que amava o meu trabalho. O azar, que acabava deixando para segundo ou terceiro plano outros essenciais…
Quando, finalmente, tinha a oportunidade de sair daquele espectro, experimentar a amplidão de espaços diferentes, a liberdade, os ares e a vida numa outra cadência – normalmente fora do país - colocava tudo numa perspectiva melhor, recuperava um pouco da sanidade e só aí, me dava conta de que as coisas podiam, e
deviam, ser bem diferentes…
Felizmente, o tempo passou, os projetos foram se concretizando, a cobrança diminuindo… Aprendi a navegar com um pouco mais de equilíbrio, a respirar fundo com tranquilidade, prestar mais atenção ao mundo e aos meus próprios sentimentos. De vez em quando, tenho recaídas (continuo preferindo o email às cartas), me afobo, me precipito, quero soluções rápidas mas, de forma geral, acho que fiquei mais zen, como diz meu primo, desacelerei.
E isso tem me feito um bem danado.
Slow Food
Suas palavras voltam a ecoar agora não por acaso. Estamos passando pela Itália, terra de Carlo Petrini, fundador do movimento Slow Food. Aqui, em especial, nas pequenas cidades podemos sentir na pele um pouco dessa filosofia de viver, em comunhão com o momento presente, bem devagar. A pessoas tiram um bom tempo para se sentar à mesa na companhia de familiares e amigos, com boa comida, bom vinho. Nas lojas, temporariamente fechadas no meio do dia, avisos de que o intervalo para o almoço tem três horas de duração…
Hoje, a organização do Slow Food tem ramificações em 150 países (inclusive no Brasil - livepage.apple.com) e já supera um total de cem mil membros. Sociólogo, jornalista, escritor especializado em gastronomia, em 1986, invocado com a abertura de um MacDonald’s na Piazza di Spagna, em Roma, Petrini organizou uma demonstração, protestando contra a indústria de fast food e o despencar da qualidade da culinária contemporânea. Com um grupo de amigos, criou então a Associação de Arcigola, fundindo algumas idéias de esquerda com a valorização dos produtos locais e, de forma ativa, deu início ao processo de propagar esse pensamento “neo-eco-eno-gastronômico” de trazer a cozinha de volta às suas raízes, priorizando “o bom, o limpo e o justo”(livepage.apple.com), o rito social de nos sentarmos à mesa para comer com tranquilidade, em boa companhia. A organização cresceu e, em 1989, se internacionalizou, mudando o nome de Arcigola para Slow Food. Pouco a pouco, foi ampliando seus objetivos, passando a promover a biodiversidade, a sustentabilidade agrícola, os pequenos produtores e a resgatar alimentos e ingredientes que correm o risco de “extinção”.
Movimento Slow
Daí para a onda do movimento slow foi um pulo. Ele se expandiu e passou a ter um foco muito além da comida, com prioridade na reconexão com as pessoas, os lugares e a vida em geral. Com ele, surgiu a tendência consciente da slow travel, a viagem tranquila, sem pressa, tão prazerosa, incentivando a apreciação da arte, da cultura e da natureza. E também, o slow design, o slow shopping, slow money, slow sport, slow sex, slow books, slow parenting, e muitos outros tipos de breque, com ênfase na proximidade, no cuidado, na reflexão e na união.
Alguém já ouviu falar em Cittaslow?
Alinhada ao slow food, é uma outra expressão do movimento, dessa vez, a nível de cidade, com o ideal de elevar a qualidade de vida. A instituição (livepage.apple.com) nasceu em 1999, por iniciativa de Paolo Saturnini – antigo prefeito de uma cidadezinha toscana chamada Greve in Chianti – e encoraja as
pessoas a viverem mais devagar, a preservarem suas tradições e a resistirem a tendência à homogeneização do mundo global. A città slow (cidade slow) é, via de regra, sempre mais sossegada, com menos muvuca, menos trânsito, um ambiente, na medida do possível, ecologicamente correto, mais humano e saudável… Segundo o manifesto criado pelo grupo, sua população não pode ser maior do que 50 mil habitantes. O documento possui 55 condições envolvendo infraestrutura, conscientizacão, qualidade urbanística, política ambiental, hospitalidade e incentivo aos produtores locais. Na lista atual de città slow figuram cidades de cerca de 20 países, encabeçadas cronologicamente por Orvieto, a pioneira na Itália. Por enquanto, infelizmente, nenhuma do Brasil…
Até o Japão “ligeirinho” acabou entrando na dança, com a criação da sua própria ONG, chamada The Sloth Club (o clube do bicho-preguiça / livepage.apple.com), no mesmo ano. O grupo promove um estilo de vida mais simples, em que consome-se menos eletricidade, gás, plástico, supérfluos em geral… Apoia slow cafés, restaurantes orgânicos e uma série de outras atividades relacionadas com o meio ambiente, a cultura e o slow business.
Pouco a pouco, se propaga no país essa mentalidade de que “correr por correr” e “comprar por comprar” não está com nada.
Mas, atenção: absolutamente, não confundir a “preguiça” do movimento com “corpo mole” ou fraqueza. Muito pelo contrário!
Tempos Modernos
Quando escrevo – outro exercício slow - quase levito, meu pensamento vagueia, deambula. Me levou agora àquele filme, Tempos Modernos, de 1936, com metáforas geniais para a loucura açodada em que a gente vive. Tem uma cena engraçada em que o operário, Charlie Chaplin, é convocado para testar a máquina de alimentação. Ele se senta à mesa, tem a cabeça imobilizada e o aparelho, com tentáculos de metal, lhe serve a comida na boca, levantando o prato de sopa, limpando seus lábios, girando o milho na manteiga, dando-lhe a comida cortada… Atordoado com o ritmo e o insólito da situação, ele só vai abrindo a boca e mal tem tempo de mastigar e saborear a refeição. Aí, kaput, a máquina entra em pane, acelera ainda mais os movimentos, vai jogando toda a comida no pobre operário e o comitê de observação da empresa, com um alto grau de “humanidade”, só tem olhos para o mecanismo de metal com suas porcas e parafusos. Pobre Chaplin. Pobres de nós…
Adoramos a tecnologia, queremos tudo rápido, nos cobramos mais ação e produção, mas a que preço? Até que ponto é a sobrevivência gritando? Até que ponto, condicionamento?
No final das contas, nada demais é bom, nem o devagar, nem o rápido. O rápido nem sempre é eficiente e o relaxado nem sempre é fraco ou passivo.
Mas como reduzir a marcha, combatendo impulsos tão enraizados? Na prática, não é tão fácil quebrar a corrente. Não existe fórmula mágica. Fazemos o que podemos.
Meu marido tem que administrar entre 3 e 4 centenas de emails por dia. Uma realidade com a qual temos que lidar. Mas, não desistimos de priorizar o nosso tempo junto, tentando equilibrar atividades de forma saudável, com um olho no velocímetro pessoal. Temos momentos de agitação também. Às vezes, o estresse é inevitável, mas cada vez mais esticamos o tempo de paz e contemplação de que precisamos, seja no ritual matinal de meditação, na caminhada diária, na hora não-negociável da leitura, no contato constante com a natureza, nas refeições sem interrupção de telefone e parafernálias eletrônicas, ou aprendendo a ser seletivos, a dizer “não”quando necessário, a prestar atenção ao nosso redor…
O jornalista e escritor canadense Carl Honoré, um dos entusiastas e precursores, com dois livros publicados sobre o tema, ressalta que o cerne do movimento é “fazer as coisas o melhor possível” ao invés de “o mais rápido possível”, a qualidade se sobrepondo a quantidade em tudo, desde a comida ao trabalho, à educação dos filhos.
A revolução industrial nos trouxe conveniência e conforto, mas também, uma torrente de inquietude, alvoroço, fugacidade, informação, estresse, distanciamento, depressão…
É essa marcha zás-trás que queremos?
“A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas: há tempo…
Quando se vê, já é sexta-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos…
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente…
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.”
(“Seiscentos e Sessenta e Seis” – Mário Quintana)
Pelo menos, vale a reflexão, né?




brasilonmobile!
02/12/2010
Muito bom o texto! Uma maravilha de lição!
Lucy Leite
20/01/2011
Oi Lilian! Lindo mesmo o seu blog e esse assunto dá pano para manga mesmo… além de ser uma delícia. Também é paradoxal que a gente goste de morar em cidades grandes, com o ritmo enlouquecido, mas ao mesmo tempo sempre procura desacelerar. O slow travel, como disse no meu blog, é um estilo de vida para mim. Pinga pinga não condiz com o meu timing. Trata-se de qualidade, não de quantidade, não é mesmo? Bom, vou ler mais porque tem coisa boa por aqui! Abraço.
Lilian Kano
14/03/2011
É como aquela poesia do Francisco Otaviano, vista de outra perspectiva, de cabeça para baixo. A vida pode ser tão boa se a gente se permitir viver e não só passar por ela, né?
Obrigada pela visita e pelas palavras gentis!