Numa equação rudimentar, é infalível: boa companhia adicionada a um lugar agradável, em contato direto com a natureza, mais algumas frutas, comidinhas, um pouco de sol, céu azul, ar fresco e aquele “x” opcional de um bom vinho… Voilà! Temos instantaneamente a soma da serenidade, recarga de energia e joie de vivre… ao quadrado, através desse prazer tão simples e acessível de “piquenicar”.
No verão, na Costa Leste, um dos nossos passatempos favoritos é colocar a comida nos caiaques, bebida no isopor, e sair remando até uma pequena ilha próxima.
Se estamos na Califórnia, do outro lado do país, quando pegamos a estrada rumo sul – em curtas viagens de fim de
semana – virou tradição, pelo menos uma parada, para comer ao ar livre, esparramados no gramado do tranquilo Seagrove Park, em Del Mar.
Tudo muito cômodo: no porta-malas, um forro para o chão, uma cesta com os apetrechos. Fazemos compras lá mesmo, por perto, e passamos sempre um par de horas gostosas, rodeados de esquilos saltitantes, com uma bela vista do mar e do trem, que passa devagar, esporadicamente, num cenário inusitado, ali ao lado de surfistas e banhistas.
Tirando a época de hibernação do inverno, o piquenique foi de vez incorporado ao nosso estilo de vida, e entra, sem titubeios, no panteão pessoal dos pequenos prazeres essenciais.
(Sea Grove Park, em Del Mar)
Coronado
E foi assim: depois da parada habitual no meio do caminho, para o convescote em Del Mar, seguimos essa semana para Coronado, uma pequena península no condado de San Diego.
A cidadezinha é uma das mais afluentes do país, tem uma grande base da Marinha, e o turismo como importante alicerce econômico. Sua praia, com a areia branquinha, é considerada uma das melhores dos Estados Unidos.
Logo ao chegar, atravessando a longa ponte – Coronado Island Bay Bridge – temos uma prévia da beleza cênica do lugar: o mar quase azul piscina e a tranquilidade típica das cidadezinhas americanas, com suas ruas arborizadas e muitos quintais com miniaturas coloridas de jardins ingleses, roseiras vermelhas, amarelas, brancas…
Além da praia e dos esportes marítimos, podemos curtir o ciclismo, longas caminhadas, patinação, compras, ótimos restaurantes, mais piqueniques e… o tradicional Hotel Del Coronado.
Para quem, ao contrário de nós, sente falta do buxixo noturno, ele pode ser alcançado a um pulo, lá fora, do outro lado da ponte, no centro da metrópole.
Detalhe: o Aeroporto Internacional de San Diego fica a apenas 15 minutos.
Hotel Del Coronado
Desde minha mudança ao país, essa foi, pelas minhas contas, a nossa quinta incursão à cidade mas, só recentemente, pela primeira vez, nos hospedamos no tradicional Hotel Del Coronado, parada obrigatória, irresistível, independente da escolha de hospedagem.
Pode parecer estranho ter um resort como atração principal da cidade, afinal, um hotel é, ora, um hotel. Mas, o Del Coronado, inaugurado em 1888, com uma aura única, consegue ir muito além.
Será que alguém se lembra daquele cult romântico, “Em Algum Lugar do Passado” (Somewhere in Time), de 1980, com Christopher Reeves e Jane Seymour? No filme, a maior parte das cenas (ai, ai, uma love story “daquelas”) se passa no Grand Hotel, em Mackinac Island, no estado do Michigan.
O fato é que o roteiro teve como base um livro entitulado Bid Time Return, de autoria de Richard Matheson, lançado em 1975, cinco anos
antes do filme. E, nessa obra original, o palco dos acontecimentos foi, na realidade, o Hotel Del Coronado, onde o autor chegou a residir por várias semanas em busca de inspiração, do mesmo jeito que o protagonista do filme, gravador em punho, num quarto do hotel. No cinema, entretanto, o cenário acabou transferido para o Grand Hotel, por conta de alguns detalhes práticos, anacrônicos, do Del Coronado, como antenas, janelas de alumínio, quadras de tênis modernas, etc, que não combinavam com o contexto temporal do filme (1912).
De qualquer forma, essa volta toda que dei é para dizer que existe, sim, uma conexão entre ambos os estabelecimentos e a história (com a distinção de filme e livro),
e não é mera coincidência a atmosfera vitoriana, refinada, meio parecida dos dois hotéis…
Abordo primeiro Em Algum Lugar do Passado, a história da filmagem que não deu certo em Coronado, pelo significado e repercussão que o filme teve no Brasil. Para falar a verdade, cá entre nós, um romance açucarado que também fisgou meu coração…
Por outro lado, em contraposição, o hotel, décadas antes, foi associado a uma grande produção do cinema, com um casamento perfeito, legendário, de locação e roteiro.
Com Marilyn Monroe, Jack Lemmon e Tony Curtis – direção de Billy Wilder- me refiro a Quanto Mais Quente Melhor (Some Like it Hot), uma comédia rodada em 1958 e lançada no ano seguinte, em 59. As tomadas externas do resort do filme foram inteiramente feitas no Hotel Del Coronado.
Na época, sempre atrasadíssima, e incapaz de memorizar suas falas, Marilyn Monroe fez o diretor Billy Wilder, e muita gente do
elenco, estrebuchar, mas o filme foi concretizado, e acabou virando um dos maiores clássicos do cinema, ironicamente, um dos papéis em que a atriz (grávida então) esteve mais afiada, sucesso estrondoso de crítica e bilheteria.
Além do emblemático Quanto Mais Quente Melhor, até hoje, o hotel foi usado em pelo menos uma dúzia de produções cinematográficas, entre elas, obras como O Fugitivo (1980), com Peter O’Toole, e Meu Pequeno Paraíso (1989), com Steve Martin.
Especial, por quê?
Com tanta coisa relevante e interessante no mundo, pode soar de uma frivolidade além da conta dedicar um espaço tão amplo a um hotel. Mas, se alguém tiver a oportunidade de conhecer San Diego, não pense duas vezes. Vale checar com os próprios olhos. A visita ao Hotel Del Coronado é uma jornada fantástica. Por isso, voltamos sempre.
Ao chegar, podemos imediatamente sentir um pouco da atmosfera do “Velho Mundo” americano. É como entrar numa máquina do tempo e resgatar o passado, num universo paralelo, idílico, distante de tudo.
O estabelecimento, numa propriedade de 28 acres, dá para uma praia linda, com muita atividade e um ambiente saudável para todas as idades. A estrutura arquitetônica, gigantesca, originalmente em madeira, tem várias alas, com tipos diferentes de quartos, inclusive algumas “cabanas”, praticamente independentes, para quem faz questão de maior privacidade. Muitas varandas, com a vista do Pacífico, convidam a contemplação, a reflexão e… a preguiça. Lá – alheios à multidão do auge do verão – bebericando uma piña colada em frente ao mar ou, simplesmente, caminhando nas dependências do hotel, podemos experimentar uma energia gostosa, uma vibração de paz. Às vezes, também, um pouco do glamour e do ar borbulhante daquelas cenas de Quanto Mais Quente Melhor, onde num devaneio, a qualquer momento, um jovem Jack Lemmon pode se materializar e, de repente, do nada, reverberar o eco: “ninguém é perfeito”.
O hotel oferece aluguel de equipamento de surfe, bicicletas, barcos, esquis aquáticos, caiaques, instrutores e diversas atividades recreativas para crianças. Além de um excelente spa e uma série de outras amenidades.
Como muitos estabelecimentos antigos, tem também sua quota de mitos, anedotas de visitantes ilustres… Uma que atravessa décadas é a história de ser assombrado pelo fantasma de uma jovem – Kate Morgan - que teria falecido na propriedade, em 1892, em circunstâncias misteriosas.
Hóspedes, ainda hoje, reclamam de luzes que se acendem nos quartos e alarmes que disparam, inexplicavelmente, à noite…
Por incrível que pareça, o lobby, de elegância vitoriana, por si só uma antiguidade, é uma das atrações turísticas mais populares da ilha. Tem sempre muitos visitantes tirando fotos.
A rua mais movimentada da cidade – Orange Avenue – com muitas lojinhas, restaurantes e lanchonetes fica a um passo.
Para as refeições – algo além de um básico sanduíche – é bom dar uma pesquisada nas resenhas dos estabelecimentos e explorar os quarteirões vizinhos ao hotel, com uma boa seleção de opções gastronômicas ali pertinho, infinitamente melhores, em qualidade e preço.
A cada visita à cidade, não deixamos de bater ponto num tailandês bem autêntico, chamado Swaddee (livepage.apple.com). Uma delícia!
“cabanas”







Posted on 25/09/2010
0