Barcelona: Alguém vai de Tapas?

Posted on 04/09/2010

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Parque Güell

Sagrada Família

A percepção da gente é engraçada. Com nossas ilusões, bagagens e humores, nos olhos da mente, como muda.

Mais curioso ainda quando experiências similares calham de despoletar impressões tão diversas.

Um exemplo disso é a nossa viagem a Barcelona.

Uma amiga achou que a realidade não correspondeu à expectativa inflada por “Vicky Cristina”… Meu marido se encantou pela arquitetura, gostou da viagem de forma geral, mas não pode dizer que seu coração tenha sido arrebatado e queira voltar numa das próximas grandes brechas na agenda.

Quanto a mim, simplesmente amei cada segundo! A comunicação fácil, a expressão espontânea do povo, as descobertas, a comida, a arte nas ruas, a arquitetura eclética… Gaudí!

Será que visitamos de verdade a mesma cidade no fim do verão?

Talvez tenham sido, em parte, minhas raízes latinas abrindo um canal a mais, o “portunhol” me possibilitando apreciar um pouco melhor a comunicação franca e direta, a alegria de sentir aqui e ali, reconhecível, um ínfimo reflexo da nossa própria cultura, tão diversa.

Curti os bate-papos descontraídos com os motoristas de táxi, a gentileza das pessoas que nos atenderam no hotel, nos restaurantes… Também, poder ouvir esporadicamente o português de turistas transeuntes; a música espanhola, em performances de rua, ecoando romântica entre torres e brasões medievais…

À saída do hotel, já no primeiro dia, vimos uma grande roda fazendo o balacobaco. No centro, rodopiando e requebrando-se à melodia envolvente, casais da terceira idade, cavalheiros delicadamente conduzindo suas damas de olhares lânguidos e cabelos de flocos de algodão. Pouco a pouco, os espectadores mais jovens entravam na dança, encantados com aquele momento generosamente compartilhado, a onda veterana de vitalidade e graça no ar…

Em outro ponto, mais adiante, alguém tocava violão para uma platéia embevecida, que só saiu do transe quando um grupo ruidoso de turistas se aproximou, imerso no seu mundo de dados históricos e detalhes arquitetônicos.

Até apresentação de bossa nova na rua tivemos a chance de ver.

Como sempre, para minha alegria, a MPB estava em todo canto, nas lojas e restaurantes, dando o tom, tocando, embalando desse lado do oceano, por uns instantes que fossem, os animados, os sorumbáticos, os solitários, os apaixonados…

tapas

Os catalães costumam jantar às dez da noite. Muitos restaurantes, à noite, só abrem às oito e meia! Por isso, passamos dias à base dos tapas espanhóis – o que meu tio no Brasil costuma chamar bem-humoradamente de “belisquetes” – pequenos pratos que acompanham um bom vinho. Pequenos, mas nem por isso menos saborosos.

Ficamos num hotel na parte gótica da cidade, a um minuto da grande Catedral, perto de tudo: do metrô; da movimentada rua Las Ramblas, uma das principais; do Museu Picasso; do Palau de la Música Catalana; do famoso Mercado de La Boqueria; do porto; das quietas ruelas históricas… Podíamos passar dias e dias descobrindo pontos pitorescos nas caminhadas, em cada beco, em cada esquina.

Fomos alertados no hotel para tomar cuidado com as nossas bolsas, principalmente nas Ramblas, aparentemente, paraíso dos batedores de carteira. Mas, nos sentimos seguros com o policiamento constante.

Liberdade de Expressão e Nudez

Um dia, nos surpreendemos com a visão de um senhor caminhando completamente nu, parando aqui e ali para ver os artigos à venda nos quiosques. É claro que por onde passava, provocava o maior frisson, mas seguia tranquilo, como que alheio ao tumulto e alvoroço que provocava entre os turistas: senhoras quase desmaiando, paparazzis em perseguição, pais tapando os olhos dos filhos…

Nudez em público

Ramblas

Ouvimos de um vendedor que esse homem, nos seus sessenta e poucos anos, era figurinha tarimbada na área e ficamos surpresos com a reação meio blasé do povo local, a falta de ação da polícia, impensável nos lugares em que vivemos até agora.

E olha que essa não foi a única vez. Chegamos a ver um outro cidadão, com mais idade, também nu, andando calmamente pela calçada de uma avenida movimentada, perto da Casa Batlló. Esse, provocando gritinhos e um estardalhaço ainda maior por onde passava, chamando uma baita atenção também pela extravagância das tatuagens excêntricas espalhadas pelo corpo.

Descobri assim, que a Espanha não tem nenhuma lei referente à nudez e como numa democracia, o que não é proibido acaba permitido, existe um certo relaxamento nesse sentido. Aqui, nos dois casos, o nudista estava na dele e não tinha nenhuma intenção lasciva de atentado ao pudor, por isso, o ato por si só não é considerado ilegal.

Por outro lado, algumas pessoas se irritam, nem todo mundo concorda e há muitas sensibilidades a se levar em conta. Nos estabelecimentos comerciais, por exemplo, cabe ao proprietário determinar o que é permitido. Por mais liberal que seja, nem todo mundo quer se sentar onde sentou uma pessoa nua, por questões de higiene…

Em Barcelona, atualmente existe um movimento, liderado por Alberto Fernández Díaz, presidente do Partido Popular de Cataluña (PP),  para proibir a nudez na cidade, exceto por algumas áreas designadas.

Enquanto a mudança não vem, os naturistas aproveitam para professar a liberdade de expressão do que para eles é uma filosofia de vida.

Surreal e inesperado, confesso, ver um homem despido, caminhando imperturbável na minha frente. Mas eles o faziam com tanta naturalidade e dignidade, que em nenhum momento me senti ofendida.

Ah, se Fernando Sabino estivesse por aqui…

Orgulho Catalão

À direita, bandeira da Catalunha independente

No café da manhã, descobri que um dos garçons era brasileiro. O jovem Mateus vivia no país havia seis anos, estudava Comércio Internacional na Universidade de Barcelona e fazia bico no hotel.

Nosso santo bateu. Compartilhamos um pouco do alívio que se sente ao falar português fora de casa.

Depois de alguns minutos, quando já estávamos comendo, de repente, ele passou por perto, apontou para outra moça que acabava de entrar no restaurante e, sorrindo, bandeja na mão, em pequena pantomina a la Chaplin, foi abrindo bem os olhos, piscando e articulando com os lábios: “Outra!”

Mais uma hóspede brasileira no hotel.

Muito simpático e atencioso com minha família e todos os clientes. Nos dias seguintes, pudemos conversar um pouco mais, sempre no café da manhã. Ele disse que nos primeiros dois anos, viveu numa cidade do interior. Como forasteiro, sentiu na pele o preconceito de mentes pequenas e uma dificuldade grande de adaptação. Mas, ao se mudar para a capital, pôde relaxar um pouco por logo perceber uma abertura maior aos estrangeiros, de todo canto do mundo.

Mateus acha que, de certa forma, Barcelona é um pouco parecida com São Paulo. Para ele, aqui, o povo tem grandes liberdades, e também uma imagem mais séria e responsável do que em outras partes do país. Não foi fácil conseguir a confiança das pessoas, mas uma vez aceito e respeitado, apesar da crise econômica nos últimos anos, diz que sua vida melhorou muito. Com bons amigos, está mais feliz do que nunca.

Ajuda também o fato de agora falar fluentemente ambos, o espanhol e o catalão; essa última, a língua oficial de Barcelona e de três outras províncias.

Barcelona é a capital do antigo reino da Catalunha, que hoje corresponde a uma das 17 comunidades autônomas do país, status que conseguiu em 1979, na constituição. Os catalães, que possuem uma “nacionalidade histórica”, têm um governo próprio mas, ao mesmo tempo, continuam fazendo parte da Espanha.

Em julho passado, houve uma grande passeata, com mais de um milhão de pessoas nas ruas, reivindicando a independência, um assunto que sempre sobe à cabeça e ferve o sangue do povo local.

Bandeiras catalãs

Em todo canto, nas casas, vimos a bandeira catalã nas janelas, com listras vermelhas e amarelas. Encontramos também muitas com a marca da estrela, símbolo da Catalunha independente. E poucas bandeiras espanholas.

Quando perguntei ao guia o que definia o povo catalão, a resposta foi enigmática. Segundo ele a Catalunha era, ao mesmo tempo, o norte do sul e o sul do norte. Em outras palavras, a influência germânica, prática e realista, era muito forte e isso se refletia até mesmo no idioma e na maneira como se expressavam.

Li em algum lugar um comentário interessante. Alguém dizia que a língua catalã era “essencialmente o alemão, lido em espanhol, por um falante de francês”.

Em contraposição ao touro, um símbolo informal da Espanha, os catalães, com senso de humor, escolheram a figura do burro para representá-los. Vimos muitos adesivos nos carros.

É uma questão instigante, mas não quero me estender demais. Para finalizar, só queria ressaltar duas palavras-chave que ouvi, sintetizando as razões do movimento separatista. As mesmas que devem estar pairando na cabeça de todo mundo: identidade e economia.

Acertei?

Arte

A arte está, sem exagero, em todo canto que olhamos: no graffiti, nas luminárias, nas grades, maçanetas, portas, azulejos… Nas calçadas e praças também, em concertos ao ar livre, quase que diários aqui e acolá… Nos mais de 50 museus, muitos com entrada gratuita depois de certa hora.

Em especial, adorei os bônus adicionais.

Fomos ao Museu Picasso e, de quebra, descobrimos o talento de Santiago Rusiñol. Um dia, contratamos um guia para visitar as obras de Gaudí e nos deparamos com a genialidade de Montaner e Cadafalch.

A beleza arquitetônica de Barcelona, extremamente original, é uma das mais impressionantes que já vi.

O Arquiteto, Antoni Gaudí

Com tanta beleza no mundo, é tarefa espinhosa destacar o cimo, mas depois da nossa visita a Angkor Wat, no Camboja – a maior cidade da era pré-industrial – na minha inocência, sinceramente, pensei que nada mais fosse me deixar de queixo caído, pelo menos em termos de criatividade arquitetônica.

Ledo engano.

Nessa viagem, descobri Gaudí.

“Antonio”, para nós no Brasil; “Antoni”, no batismo catalão, na sua terra natal.

Palau de la Música Catalana

Naquele dia, nosso tour com o guia, começou pelo Palau de la Música Catalana (Patrimônio da Humanidade), assinado por Montaner, construído entre 1905 e 1908, um dos edifícios modernistas mais suntuosos e coloridos que conheci, tanto por dentro como por fora.

O que é tão diferente? A estética toda, a brincadeira com a mistura de materiais, o colorido art nouveau, os mosaicos, a simbologia, a história contada pelas esculturas, expressivas nos mínimos detalhes…

Uma parada que nos preparou para o que estava por vir.

Depois de caminhar um pouco pela vizinhança do hotel, observando com mais atenção um ou outro resquício renascentista, tomamos um táxi para a famosa Casa Battló.

Illa de la Discòrdia

A construção fica numa sequência de três prédios notáveis, criações dos arquitetos modernistas mais célebres de Barcelona. A Casa Batlló, de Gaudí, era vizinha à Casa Amattler, idealizada por Puig Cadafalch e à Casa Lléo Morera, projetada por Domènech i Montaner. Uma ao lado da outra, todas três são criações únicas, com estilos tão originais e distintos que dizem que se chocam esteticamente entre si e com o resto da vizinhança. Por isso, esse canto do quarteirão acabou sendo apelidado de Illa de la Discòrdia.

De novo, a percepção e o gosto individual. Para mim, essas diferenças  têm frescor, caráter, quebram a chatice do previsível… Francamente, não vejo nada chocante ou disparatado no alinhamento dos três prédios no Passeig de Gràcia

Entre as obras de Gaudí, checamos a Casa Battló, a Casa Vicens, a Casa Milá, a Sagrada Família e o Parque Güell, onde estava a sua residência. Para explorar seu universo, valeu muito a pena o serviço do guia, nosso exímio contador de histórias – versado em tudo o que nos interessava (arte, história, política, arquitetura…) – que, sem dúvida, enriqueceu muito mais a experiência.

Visitar uma obra de Gaudí, repleta de metáforas, linhas curvas, tortuosas e insólitas, provoca na gente um pouco do estarrecimento de Pinóquio explorando o interior da baleia. É uma experiência emocionalmente tão poderosa que, atordoados com tanto para ver e sentir, corremos o risco de ser engolidos pela exuberância espirituosa, a pluralidade vertiginosa nos simbolismos de cada um dos seus trabalhos. No universo Gaudí, seja o que for, absolutamente nada é banal ou previsível: banco, piso, janela, parede, teto…

Entre os prédios que citei, o único em que não pudemos entrar foi a Casa Vicens, ainda ocupada por uma família. Um pouco mais low key(por não ter sido convertida a museu), tanto que no hotel, a recepcionista não tinha idéia de onde estava localizada, e nem o motorista de táxi. Tivemos que pesquisar.

Casa Batlló (1904 -1906)

Esteticamente uma das mais fascinantes para mim, tem um lado meio antropomórfico, com peculiaridades como escadarias que lembram as vértebras, colunas esqueléticas, janelas com o formato de rins, varandas parecidas com caveiras… Não é a toa que foi apelidada “casa de los osos”.

Construída em 1877, foi remodelada por Gaudí entre 1904 e 1906, cada cômodo com uma concepção distinta, sempre um toque orgânico.

O telhado meio azulado e arroxeado lá em cima tem uma pequena torre em formato de cruz, que supostamente representaria a espada de São Jorge derrotando o dragão, cujas escamas seriam as telhas. As “caveiras” das varandas, vítimas passadas…

Descobrimos que tem dois apartamento com moradores, que não pensam em sair de lá, apesar da comoção diária dos turistas.

Não só a criatividade encanta, mas a engenhosidade também, seja nos recursos para iluminação, ventilação, sustentabilidade, onde tudo se recicla, sempre reafirmando originalidade.

Casa Milá (1905 – 1910)

É mais conhecida como “La Pedrera”, uma construção ondulante, massiva, que lembra vagamente um pedregulho. Algumas pessoas gostam de pensar que sua concepção foi inspirada em Monserrat, a montanha sagrada de Barcelona, com histórias de aparições da Virgem Maria (circula a lenda de que abrigaria o Santo Graal). Mas ouvimos que o artista, na verdade, tinha em mente a imagem de um vulcão em erupção, com lavas na parede, para “enterrar o materialismo e a vaidade da burguesia”. Uma simbologia punitiva e obscura, talvez reflexo também do momento pessoal que ele vivia, depois dos falecimentos do seu mentor, Martorell, e do seu pai, Francesc, logo nos primeiros anos da construção; além do declínio da saúde de sua sobrinha, Rosa, a quem era extremamente apegado.

O interior do prédio é tão impressionante como a fachada, sempre com a dicotomia primitivo/futurística, uma brincadeira com a tensão dos opostos, que seu criador tanto parecia curtir.

O terraço é uma atração à parte. Amplo, tem várias esculturas para camuflar as chaminés, os ventiladores e os elevadores. Suas formas são contorcidas, arrojadas, modernas. Dizem que George Lucas se inspirou em algumas delas para criar o figurino dos soldados de Guerra nas Estrelas.

Sagrada Família (1882 – ?)

Meu marido, apesar de concordar que é um projeto arquitetonicamente fascinante, questiona o significado e o investimento de tanto dinheiro para essa megaconstrução ambiciosa de mais de um século (mantida pelo turismo e por doações privadas).

Picasso fez críticas ainda mais duras. Sem papas na língua, o pintor costumava dizer que o templo expiatório era “uma piada”.

A previsão da conclusão, que tantas vezes mudou, é agora para o ano de 2030, se as doações continuarem. Estima-se que não deve dar tempo até o centenário de Gaudí, em 2026.

Além de nunca ter sido terminada, a construção (que tem o anexo de uma escola), foi parcialmente destruída durante a guerra civil, em 1936. Hoje, é reconstituída com a ajuda da tecnologia digital e a colaboração de diferentes artesãos, inclusive um escultor japonês, Etsuro Sotoo, que, para minha surpresa, teve a iniciativa de adicionar traços japoneses a algumas estátuas.

estátuas com traços orientais na Sagrada Família

Mesmo com vestígios de outras denominações religiosas aqui e ali, como o judaísmo e o islamismo, o templo deve ser consagrado basílica católica pelo papa Bento XVI, em breve, no dia 7 de novembro.

Menos pragmática que meu marido, para mim, a insistência em abraçar a saga dessa construção faraônica, com desafios hercúleos, dá uma boa idéia da dimensão da nossa capacidade para a fé. Não posso deixar de admirar a visão, a determinação, a audácia, o sonho… Um pouco da loucura. E apreciar a meta desse espaço belíssimo para reunir pessoas e levar ao mundo uma mensagem de unidade e paz.

A obra em si – iniciada quando Gaudí tinha apenas 32 anos – grandiosa, tridimensional, com riqueza de detalhes, chega a ter, sem exagero, efeitos alucinogênicos.

Fiquei hipnotizada, encantada, ao longo de toda a visita.

Parque Güell (1900 – 1914)

Parque Güell

Eusebi Güell é nome do proprietário e patrono, um conde, grande amigo de Gaudí e cúmplice no “crime” do projeto, podendo até ser chamado de co-autor. Sua casa ficava logo ao lado, quase tocando a murada do terraço do parque.

A idéia era construir uma espécie de Éden, exótico, com jardins, arte e toda a forma de beleza, no alto do morro El Carmel. O “paraíso” acabou tendo uma referência inglesa, com leitura catalã.

Durante as escavações da obra, em 1900, foram descobertos no local fósseis de ossadas de animais, de grande valor, que fizeram a festa dos paleontólogos.

Caminhar pelo complexo, para nós, mesmo sob um sol escaldante, com a multidão de turistas, foi divertido, estimulante. Sem dúvida, um programa imperdível quando de passagem por Barcelona, diferente de tudo o que já vimos.

O parque tem, na entrada, duas construções de contos de fadas, como que saídas das histórias dos Irmãos Grimm; mais adiante, alas cavernosas dignas dos Flintstones; o terraço principal com um longo banco serpentinado que dá voltas, todo trabalhado em mosaicos de material reciclado; a residência de Gaudí (la Torre Rosa); a casa do próprio Güell, ao lado… Do terraço, uma bela vista da cidade, do porto e do Mediterrâneo.

Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo: rodinhas de música, apresentações de arte ao ar livre…

Casa Vicens (1883 – 1889)

Casa Vicens

Com uma forte influência moura, foi o único lugar que, sem poder entrar, tivemos que contemplar de fora, da rua estreita. Colorida, com azulejos floridos e contornos orientais, é meio extravagante, sim, mas com elegância, sem a vulgaridade da fanfarra, do espalhafato gratuito, de mau gosto. Para mim, pelo menos.

Foi o primeiro trabalho de destaque de Gaudí, em Barcelona.

Assim como a Casa Batlló, uma parte do Parque Güell, a cripta e a fachada da Natividade da Sagrada Família, a casa Vicens também foi tombada como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.

O Homem, Antoni Plàcid Guillem Gaudí  (1852 – 1926)

Casa Batlló

O que vi e ouvi foi tão fascinante, que não perdi tempo, acabo de embarcar na leitura da biografia, por Gijs Van Hensbergen.

Não posso terminar sem essa última nota.

Aprendi, entre o livro e conversas com o guia, que vindo de uma família de artesãos caldeireiros do cobre, Gaudí cresceu cultivando desde cedo o senso estético, o amor pela arte, a natureza, a crença e o fervor cristão.

Na escola de arquitetura, apesar do reconhecido potencial, passou aos trancos e barrancos, por causa da frequência a desejar, a rebeldia e negligência nas tarefas acadêmicas. O diretor, no dia da sua formatura disse que ou estavam todos na presença de um gênio ou de um louco.

Mais tarde, a resposta ficou clara. Mas, revolucionário, sem meio termos, com métodos excêntricos de trabalho, muitas vezes Gaudí foi incompreendido no seu tempo. Na verdade, até hoje.

Visto na época como um heremita emburrado, paradoxalmente, teve a vida toda um círculo sólido de amigos leais.

A ambição no trabalho não se refletia de forma alguma no aspecto materialista. Tudo o que ganhava ia direto para as mãos do pai, enquanto ele era vivo.

Quando Gaudí foi atropelado, em 1926, vestia roupas tão modestas que, por dias, antes de falecer, chegou a ser considerado um indigente.

Ninguém sabia quem ele era.

Amou uma mulher (talvez duas) e, ao encarar a rejeição (já estavam comprometidas), viveu em celibato.

Após sua morte, o corpo foi colocado numa tumba na Sagrada Família.

Que diria hoje se soubesse que depois de tantas críticas e batalhas em vida, seu legado, em pleno século XXI, continua a crescer e a inspirar?

“Originalidade significa voltar às nossas origens.”

- Antoni Gaudí -



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