Canadá e EUA: Parecidos, Mas Diferentes

Posted on 15/08/2010

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Voamos para Seattle. E, depois de um pequeno tour auto-guiado – que em sessão nostalgia, incluiu locações do filme Sintonia de Amor, de 1993 – pegamos a estrada rumo norte e atravessamos a fronteira.

Não sem antes, porém, enfrentar pacientemente longa fila de carros e passar por um curto interrogatório na cabine do inspetor de imigração para só então, aí sim, adentrar a província de British Columbia e poder respirar um pouco do ar puro das montanhas canadenses.

Tomamos uma barca para Vancouver Island. Lá, da cidadezinha de Sidney – onde nos instalamos na ilha – visitamos Victoria e, passados alguns dias, pegamos outra barca (sempre com o carro alugado) de Nanaimo para a grande Vancouver, onde estamos agora.

* Detalhe: não confundir Vancouver Island com a cidade de Vancouver.

Sidney e Victoria

Para selecionar hospedagens, em qualquer parte do mundo, uma boa dica é usar hotels.com ou orbitz.com, sempre com vários tipos de desconto. Graças ao primeiro, desta vez, por exemplo, descobrimos uma pequena jóia, um despretensioso B&B (bed & breakfast) urbano, chamado Beacon Inn, combinando quartos amplos, decorados com bom gosto, conforto, excelente café da manhã, hospitalidade atenta e calorosa que, não fosse a agenda programada, nos permitiria ir ficando semanas, ou até mesmo meses, adiando a partida. Quanto à cidadezinha de Sidney, que nos serviu de base para as andanças na ilha, achamos bonita e agradável, perfeita para quem quer fugir do burburinho e busca quietude perto do mar.

Já no centro de Victoria, capital de British Columbia, pelo contrário, nos deparamos com a presença ubíqua dos turistas, muitos prédios altos, históricos, ruas agitadas, lojas, cafés, restaurantes, atividades marítimas… Nos chamou a atenção o movimento dos pequenos hidroaviões turísticos, decolando e aterrissando perto do porto. Nunca vi tantos hidroaviões como nessa viagem.

Visitamos também o Butchart Gardens, ao norte da cidade e saímos de lá em êxtase, deliciados com o festival dos sentidos em meio à amplidão e o esplendor da natureza, perfeita, nos 15 acres de múltiplos jardins coloridos e perfumados, com a moldura das montanhas verdes e azuladas ao fundo.

Nesse dia ensolarado, vimos muitos insetos, mas, curiosamente, nenhum outro tipo de animal. Para onde foram? Mistério…

Baleias

Desde que tomamos a barca pela primeira vez, logo ao chegar ao país, topamos com muitos esguichos e movimentos de baleias, até mesmo perto dos portos, sem precisar ir tão longe. Isso nos despertou a vontade de aproveitar a chance para vê-las mais de perto. Em Victoria, decidimos então pegar um tour para observá-las em alto mar. Selecionamos a empresa Seafun Safaris (seafun.com), com a reputação no topo do ranking, segundo o website tripadvisor.com, outro que nunca deixamos de consultar nas viagens, pelas dicas úteis de hospedagens, restaurantes, lugares interessantes para visitar, etc. Enfim, uma mão na roda.

Dito e feito. Acertamos em cheio na escolha.

Através do nosso guia, Tom, descobrimos que as companhias locais de turismo aquático enfrentam uma competição acirrada por clientes mas, uma vez, no mar, todas se ajudam, compartilhando informações através do rádio. O segredo do sucesso dessa, em particular, é o ótimo preparo – à disposição dos clientes: jaquetas, óculos de sol, protetor solar, binóculos, equipamento para ouvir a comunicação das baleias… – aliado a um time supimpa de profissionais e a qualidade top dos pequenos barcos, que quebravam as ondas facilmente, em alta velocidade, com não sei quantos cavalos de força. Dessa forma, o tempo da exploração, de cerca de três horas e meia, foi muito bem aproveitado. Quando recebíamos a dica da presença de baleias, logo chegávamos ao local e nos movíamos ligeiramente acompanhando o seu movimento arisco.

Nos deparamos com focas, aves aquáticas, a gigantesca baleia cinzenta e muitas orcas. Fomos brindados com a visão de alguns pares de mãe e filhote de orca. Um deles, nadou em sincronia e, de repente levantou a cabeça (ambos, mãe e filhote) pertinho, quase na beirada do barco, como que para nos ver melhor.

Em outro momento, uma mãe nadou levantando e empurrando o filhote habilmente com a cabeça.

Essa experiência foi muito mais intensa do que a nossa primeira, no Havaí, pela proximidade, quantidade de baleias que tivemos a sorte de encontrar, a espirituosidade do guia, a qualidade do tour e a pletora de emoções: fascínio, medo, coragem, alegria, deslumbramento, reverência, respeito… Tudo abarcado!

Vancouver

É a quarta cidade mais populosa da América do Norte, atrás apenas de Nova Iorque, São Francisco e a cidade do México.

Aqui, ficamos hospedados no centro.

Logo depois do check in, nos surpreendemos ao dar de cara com um grande labrador, circulando livremente pelas dependências do hotel, com direito a um assento de honra ao lado do balcão do concierge!    Descobrimos mais tarde que era um dos dois mascotes, embaixadores caninos do estabelecimento. Idéia simpática e original do Fairmont Hotel.

A cidade cosmopolita, situada também em British Columbia, tem um pouco de tudo para todo mundo: parques, marinas, bons restaurantes, o charme do novo e do velho, resquícios do legado aborígene, belas montanhas, muitos ciclistas nas ruas, uma energia vibrante…

Por outro lado, como em toda metrópole, nem tudo é um mar de rosas. Entre os problemas sociais, visíveis mesmo para o turista de passagem, tem o das drogas. E também, o dos moradores de rua, pedindo trocados nas esquinas.

Visitamos amigos que moram no subúrbio, na montanha Grouse, ao norte. Dizem que é bem possível dar de cara com um urso numa caminhada por lá… As latas de lixo têm que ser resistentes, bem cerradas, à prova das patas gigantes dos esporádicos visitantes peludos.

Um dia pegamos a estrada Sea to Sky Highway até a cidadezinha de Whistler, a umas três horas de onde estávamos.  Era preciso ter cuidado dobrado para dirigir por lá. Havia muitas curvas nos penhascos, faixas que se multiplicavam e vice-versa, de repente convergiam. Vimos dois acidentes na rodovia.

É realmente um caminho muito bonito, com um verde viçoso, a vista do mar, cachoeiras, montanhas cobertas de neve ao longe…  No passeio, sentimos ipsis litteris o aforismo de viver para a jornada e não para o destino.

Canadá x EUA

Quando estudante, apaixonada pelo estudo de idiomas, por algum tempo, acalentei a idéia de estudar inglês num país nativo. Na época, me lembro que, de orelhada, cheguei à conclusão de que o Canadá era o país mais atraente para a empreitada. Sedutor para o meu bolso, pois o custo de vida era comparativamente mais baixo, além de apresentar cursos de bom nível e, muito importante, qualidade de vida.

Hoje, no entanto, a realidade é outra e o fator econômico já não seria tão favorável. A diferença de valor entre o dólar canadense e o americano é mínima e o custo de vida aqui, pasmem, chega a ser mais alto do que nos Estados Unidos. A gasolina, por exemplo, está cerca de 30% mais cara!

Ao chegar ao país, nos primeiros dias, fiquei intrigada. Olhava ao meu redor e não via quase nenhuma diferença entre os dois vizinhos norte-americanos. Se tivesse cruzado a fronteira de olhos vendados, francamente, custaria a me dar conta de que estava em outro país. Afinal, o idioma é o mesmo (nem o estereotipado maneirismo “eh” eu ouvi); os costumes, parecidos; muitas das lojas e supermercados, iguais também; o sotaque, similar (onde estávamos, pelo menos)… Sentiria, talvez, um jeito um pouco mais relaxado do povo local, alguma diferença na arquitetura… Impressão minha?

Curiosa, comecei a perguntar aqui e ali.

Alguém lembrou que ao sobrevoar os EUA, vemos sempre uma intrincada teia urbana se expandindo de encontro a outras teias, ao passo que no vizinho, há muito mais espaços verdes, inexplorados, entre um povoado e outro. Fácil entender: a população americana é quase dez vezes mais numerosa que a do Canadá, segundo maior país do mundo (depois da Rússia), embora muito menos ocupado, cheio de vazios demográficos.

Foi uma surpresa para mim descobrir que apesar da área maior, por incrível que pareça, o Canadá tem um território cultivável, viável para a agricultura, de menor proporção que o dos vizinhos americanos, por causa de uma combinação de fatores, como qualidade do solo, clima e topografia.

Aqui, abro parêntese para uma curiosidade. Pela primeira vez, há alguns dias, ouvi a expressão “lower 48” (os 48 estados de baixo), que é como as pessoas às vezes se referem ao território interligado dos Estados Unidos, tirando apenas o Alasca (antigo território russo) e o Havaí. Na barca, um americano dizia que nunca tinha saído do “lower forty-eight”, aquela seria sua primeira viagem ao exterior.

Achei interessante a expressão. Fiquei sabendo que, meio antiga, originalmente foi introduzida pelo povo do Alasca – daí a idéia de “mais para baixo” ou “lower”- para diferenciar o território continental americano. Mais tarde, o seu uso foi incorporado no resto do país. Só que agora não é mais tão usada, principalmente pelo próprio povo do Alasca que, hoje em dia, parece preferir a expressão “outside”.

Mas, páro por aqui com os meandros. Voltemos às diferenças.

Ao tocar no assunto com um amigo canadense, ele chamou a atenção para o fato de nos Estados Unidos sentirmos imediatamente uma forte presença militar nas bases espalhadas pelo país, quando no Canadá ela é bem mais discreta.

Sua esposa lembrou que o acesso ao álcool é mais restrito, ele é vendido em liquor stores, lojas específicas de bebidas, e não nos supermercados também, como na maioria dos estados americanos.

Muitos canadenses mencionam, com indisfarçável orgulho, o fato do porte de armas de fogo, exclusivamente para auto-defesa, não ser facilitado no país, em contraposição à sua abertura nos EUA. Além disso, falam também da previdência social que cobre uma rede abrangente de necessidades, seguindo os moldes do oeste europeu. Em especial, do sistema de saúde, que investe em prevenção e dá a toda a população um acesso razoável aos cuidados médicos quando, por outro lado, muitos americanos não têm nem o benefício do seguro, por conta dos preços altos.

Daqui, ainda hoje se cruza bastante a fronteira em busca de emprego e melhores condições de vida em território americano.

Contudo, o Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas colocou o Canadá em 4a colocação no ranking mundial, ao passo que os EUA estão abaixo, em 13a, de acordo com as estatísticas de 2009, baseadas em longevidade, educação e renda per capta (o Brasil está em 75o lugar).

Do ponto de vista religioso, no Canadá, o catolicismo ainda abocanha a maior fatia da população; e entre os americanos, o protestantismo é mais difundido.

Canadá: Influência Francesa e Inglesa

Dividido em bandas de predominância anglófona e francofone respectivamente, no curto tempo em que estive no país, ao falar com as pessoas, não pude deixar de sentir uma sutil rivalidade entre as duas partes. Alguém chegou a sussurrar a palavra “animosidade” mas, convenhamos, é sempre fácil cair na armadilha da generalização.

Não podemos negar, porém, que existem, sim, vestígios de um histórico de conflitos, relacionado com o passado de luta pela supremacia imperialista no país, entre a França e a Inglaterra; a corrente de promessas quebradas; um certo medo da maioria francofone do Quebec de ser absorvida pela corrente maior, anglófona, do país; além da mentalidade diferente, assim como o estilo de vida.

Alguns preferem dizer que o que existe é uma distância, não necessariamente “rivalidade”, pela espécie de fenda que separa as duas culturas.

Mas, pouco a pouco, as coisas parecem estar mudando.

Como uma nação bilíngue (desde 1969), as principais instituições públicas e privadas devem oferecer serviços nos dois idiomas, independente da localização. Apesar do Quebec ser a única província oficialmente unilíngue, essa é reportadamente a meta do país.

Nos Estados Unidos, tenho duas amigas da terrinha que contrataram babás brasileiras para facilitar a aquisição da língua portuguesa pelos filhos (Parece funcionar!). O New York Times fez uma matéria recentemente sobre uma tendência similar dos americanos, de fazerem uso do serviço da babá estrangeira para expor as crianças a outro idioma, desde cedo.

No Canadá também, apesar da “distância” mencionada,  muita gente antenada, principalmente  entre as gerações mais jovens, enxerga o bilinguismo do país como um lastro cultural precioso, uma boa ferramenta para o mundo global e, literalmente, acredita que quem não se comunica no mínimo em ambos – inglês e francês – se trombica. Como alguns americanos, muitos pais buscam maneiras alternativas de mergulhar os pequenos no mundo do outro: seja através das babás, acampamentos de verão ou hobbies em que o instrutor só fala no segundo idioma.

Assim, apesar das eventuais fricções, cada vez mais, toma-se partido da situação. Muitos canadenses, de olhos abertos, vão encarando a necessidade e o ambiente intrínseco de mistura cultural e linguística no país como um um empurrão positivo, um motivo a mais para crescer e expandir horizontes, transformando dificuldade em potencial.

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