Califórnia: Cidadão Kane e o Castelo Hearst

Posted on 05/08/2010

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Dessa vez, foi assim: vi o filme, visitei o castelo e li o livro.

Nessa ordem.

Reação em cadeia. Um escancarando a porta do interesse e conduzindo ao outro.

O filme: “Cidadão Kane”, lançado em 1941, dirigido, produzido, protagonizado e co-escrito por Orson Welles, na época, com apenas 25 anos, no seu primeiro longa metragem. O palácio de conto de fadas: o Castelo Hearst, no povoado de San Simeon, na Califórnia – refúgio cujo proprietário insistia em chamar de “rancho”. E o livro? Entre tantos escritos sobre a persona, optei por um de leitura fácil e cunho mais pessoal, de autoria da companheira, Marion Davies. Título: “The Times We Had”.

O elo comum, nome que teima em se repetir associado a tudo isso: William Randolph Hearst.

Cidadão Kane

Aclamado como um dos filmes mais importantes da história do cinema, líder absoluto da lista top de muitos críticos, teve o roteiro ficcional inspirado em certos elementos da vida do magnata da comunicação – William Randolph Hearst – uma espécie de Roberto Marinho americano (guardadas as proporções), proprietário de jornais, revistas, uma empresa cinematográfica – entre inúmeros outros negócios da corporação – uma das pessoas mais ricas e poderosas do país.

Na tela, Orson Welles deu vida a Charles Foster Kane, um homem de origem humilde que enriquece subitamente, dono de um imenso império jornalístico, personagem com ambições políticas, casamentos fracassados e muito drama.

Por um bom tempo, apesar da curiosidade, adiei assistir ao filme. Talvez, em parte, por causa da foto de divulgação, confesso, uma certa resistência à expressão sisuda de Welles, em preto em branco.

Há alguns meses, porém, finalmente, pinimba vencida, vimos o DVD. E, para nossa surpresa, o anacronismo pouco se fez sentir. Os temas abordados, primorosamente desenvolvidos, mantêm o frescor de tendências universais bem contemporâneas, como a perda da inocência e dos valores; a corrupção do poder; o eterno anseio humano de ser amado, busca que segue movendo e motivando cada um dos nossos passos…

Soa até convencional, não?

Entretanto, com performances arrebatadoras, para nós, o filme foi crescendo, cada cena adicionando uma peça do quebra-cabeça, com o último encaixe, bem sutil, lá no final, deslindando o enigma, trazendo um momento inesperado de silêncio boquiaberto, iluminação, revelando para nós, inequivocamente, toda a maestria da obra.

Detalhe: W. R. Hearst, nada lisonjeado, considerou o filme um insulto, e usou toda a influência para boicotar e impedir a divulgação. Em vão.

Castelo Hearst – San Simeon

Xanadu, o castelo do filme

“Cidadão Kane” abre com a imagem de uma cerca gradeada com a placa “não atravessar” e, dali, a câmera mostra no alto o castelo fictício, “Xanadu”,  ao mesmo tempo, obscuro e imponente, com macaquinhos, barcos que lembram gôndolas, no estilo fantástico e extravagante a la Neverland…

Meu marido me disse que ele teve sua concepção inspirada no castelo Hearst, localizado no Condado de San Luis Obispo, Califórnia, com uma eclética arquitetura e belíssima coleção de arte, hoje, transformado em museu. Ao término do filme, corri para a Wikipedia no computador  (livepage.apple.com). Curiosidade instigada, combinamos no futuro visitar o lugar.

Pois “o futuro” chegou logo, na semana passada. Aproveitando uma brecha na agenda, fizemos a reserva via computador (livepage.apple.com) e, finalmente, partimos em curta viagem.

O dia estava lindo e, como os tours eram em parte ao ar livre, foi bastante agradável.

Piscina de Netuno

Seguindo o conselho de amigos, nos inscrevemos em duas opções (dentre as seis possíveis) de visita, cada qual com duração de uma hora e quinze minutos. De fato, um tour apenas seria insuficiente. Valeu a pena.

A opção número um proporcionou uma pincelada básica, nos deixando com gostinho de “quero mais”. Já a número dois, foi infinitamente mais interessante, pela competência da guia, uma senhora simpática de cabelo vermelho chamada Rosemary, e por nos dar a chance de explorar com calma a construção principal, que lembra um monastério, sua arquitetura elaborada e as antiguidades, mergulhando num universo de matizes bem variados: renascentista, barroco, rococó, gótico, mouro, mediterrâneo, islâmico, etc, etc.

O ingresso nos dava direito (opcional) a assistir a um documentário introdutório de 45 minutos, no moderno cinema do Visitor Center, na base da montanha. Não foi perda de tempo. Tirando a exaltação à família – enfatizando a bravura e o pioneirismo do patriarca, George Hearst (que fez fortuna descobrindo prata no estado de Nevada); a inteligência e o refinamento da mãe, Phoebe Apperson Hearst - pudemos aprender um pouco mais sobre a arquiteta, o talento e a tenacidade de Julia Morgan (uma das primeiras mulheres americanas no métier, e primeira mulher do mundo a ser admitida na prestigiosa École des Beaux-Arts, em Paris), além da magnitude do processo de construção, entre 1919 e 1947 (mais longa do que a de Brasília!), e a concretização do sonho faraônico de William Randolph Hearst, mudando de contornos caprichosamente, ao sabor do tempo e do vento.

A saga da criação arquitetônica no telão, com o bônus de imagens históricas da pompa das festas versalhescas das décadas de 20 e 30, com toda a nata de Hollywood (Charlie Chaplin, Clark Gable, Cary Grant, etc), propulsionou ainda mais a nossa imaginação, injetando alegria e nos deixando no ponto, empolgados com a visita prestes a começar.

Um ônibus nos levou ao topo da montanha, onde nos esperava o primeiro guia.

Começamos o tour pelos jardins e seguimos para a piscina de Netuno, ao ar livre, com a fachada de um templo greco-romano e terraço com vista panorâmica do oceano Pacífico. Depois fomos para as construções chamadas de “cabanas”, verdadeiros casarões. Roupas, cosméticos e objetos pessoais de época complementavam a decoração, dando um toque mais autêntico aos quartos. No tour número um só pudemos ver o primeiro andar do castelo. No segundo, tivemos acesso a todos, inclusive às torres que abrigavam, cada qual, um quarto de decoração toda dourada.

Em meio ao esplendor dos tapetes persas, pinturas, esculturas, bibelôs e tapeçarias gigantescas nas paredes, ao entrar num recinto, meus olhos, sem querer, iam sempre, primeiro, direto ao teto. Todos os cômodos tinham, lá em cima, obras de arte preciosas de séculos passados: pinturas, ornamentos, entalhes… Cada um mais lindo que o outro!

piscina romana

Mas, a unanimidade geral na reação de queixo caído foi mesmo quando chegamos à piscina romana, interna. O contraste dos mosaicos de tom azul escuro com as pastilhas de ouro (24 quilates!), somado à beleza das esculturas de mármore de deuses e heróis romanos, é de tirar o fôlego. As paredes representam o fundo do mar e a base da piscina seria o céu noturno, com o brilho das estrelas de ouro. A idéia era criar a ilusão de um mergulho ao contrário, do oceano para o céu estrelado…

Meu marido ficou meio incomodado ao ver pinturas e painéis, verdadeiras antiguidades, cortadas e modificadas para a adaptação nos recintos, principalmente nos tetos, com artefatos que chegavam a remontar o século 13. Mas, por outro lado, não podemos esquecer o cuidado e investimento para a manutenção, sem os quais muitas dessas obras estariam perdidas hoje.

O complexo tem ao todo 56 quartos, 41 lareiras e 61 banheiros. No passado, havia um zoológico particular, menagerie diversa de mais de 300 animais – incluindo zebras, girafas, orangotangos, leões e ursos – que hoje não existe mais.

William Randolph Hearst foi casado com Millicent Hearst, de quem nunca se divorciou (a esposa nunca lhe concedeu a separação oficial). Com ela, teve cinco filhos.

Por outro lado, viveu feliz, abertamente, ao lado da atriz (comediante)Marion Davies, por quase três décadas, até o fim da vida. Costumavam dar juntos festas extravagantes e receber a elite artística na propriedade nos fins de semana.

No segundo tour, pudemos experimentar o glamour do cinema retrô do castelo, onde os anfitriões costumavam ver filmes com os convidados, após o jantar. Vimos no telão muitas cenas de décadas passadas, com os visitantes ilustres.

Ao voltar para a base da montanha, sentimos, como em toda atração turística, o aspecto comercial bem presente, nas lojas e cafés do Visitor Center. Mas, é um passeio agradável, bonito e enriquecedor, se não à mente, através das lições de arte e história, pelo menos, ao espírito, em meio à beleza de conto de fadas.

Pode soar meio tolo e clichê, mas ao ouvir as anedotas e ler o livro, por um instante agora, minha imaginação deambulou, associando o castelo ao Taj Mahal – ambos, imensos monumentos ao amor.

Piedras Blancas

De passagem por San Simeon, vale a pena visitar também Piedras Blancas, ao norte, um santuário de focas-elefantes, gigantescas, a uns dez minutos do castelo. A praia tem um espaço devidamente cercado para a proteção dos animais, mas podemos observá-los de uma curta distância. É interessante ver as disputas entre os machos, sua corte às fêmeas, a relação entre adultos e filhotes, um pouco do processo da mudança de pele (dependendo da época)…

Dormindo, parecem inofensivos, graciosos, mas levamos um susto com um macho de peito empinado, que abriu o berreiro de repente. As fêmeas, em contraste, são bem menores.

Há muitos esquilos – Tico, Teco, a patota toda – por perto também. Ficamos surpresos ao ver gente alimentando os bichinhos com comida processada. Nada saudável para eles…

Cambria

Cidadezinha costeira ao sul de San Simeon. Aqui podemos apreciar a beleza de Moonstone Beach, com suas pedras, penhascos, surfistas e pôr do sol romântico.

O centro é charmoso, pacato, com muitas lojas e restaurantes que lembram casas de boneca. A cidade claramente vive do turismo.

Conferimos três pequenos restaurantes, Black Cat Bistro, Madeline’s e Robin’s, todos muito bons.

Dentre os outros estabelecimentos, nos chamou a atenção também a Seekers Glass Gallery (http://seekersglass.com/), recomendada por amigos, uma loja de arte em vidro, com trabalhos de vários conhecidos artesãos do país.

The Times We Had (Life with William Randolph Hearst)

O livro, recheado de fotos, redigido com base em inúmeras sessões de gravação com a autora – Marion Davies (1897-1961) – acabou publicado do jeito que ela falava, com um coloquialismo exuberante, gírias e tudo mais, fácil e gostoso de ler.

Para aprender quem foi Hearst (1863-1951), seu impacto na política externa, ou ter uma idéia de como evoluiu a mídia nos Estados Unidos, no entanto, acabei descobrindo que essa não seria a obra mais indicada.

Uma das críticas mais frequentes ao magnata das notícias, era a acusacão de um jornalismo inflamado, sensacionalista, chamado aqui de “yellow journalism”, responsável pela destruição implacável de muitas reputações na época.

Naturalmente, nada disso é ventilado no livro, onde Marion Davies vê o companheiro através de lentes rosadas. Nas suas páginas, W.R. – com uma diferença de idade de 34 anos – é um herói magnânimo, protetor, de princípios edificantes, sem a menor sombra das manias ou imperfeições incômodas de todo mortal.

O relato tem também muitas curiosidades sobre o esplendor e a decadência das festas, as frivolidades, a relação com os estúdios, encontros e desencontros com artistas, diplomatas, príncipes, reis, chefes de Estado… E um bocado de traquinagens de Marion, que conta, por exemplo, entre outras pérolas, como surrupiou um segredo de Estado do cofre (encontrado negligentemente aberto) de um embaixador, numa festa, levando à expulsão de Hearst da França, em 1930, fato verídico.

Em certos trechos, francamente, tive a impressão de estar lendo o diário de uma menina levada, impulsiva, nos seus dez, doze anos de idade… Também, generosa, audaciosa e divertida, com um senso de humor meio auto-depreciativo.

Além das histórias coloridas, cheias de excentricidades, destaco aqui dois dos meus pontos favoritos: o prólogo e um poema.

O prólogo foi escrito por Orson Welles, em 1975, mais de uma década depois da morte da autora. No texto, ele põe os pingos nos “is”, dizendo que há paralelos entre “Cidadão Kane” e a vida de W. R. Hearst, mas quase tudo no filme foi mesmo inventado, em outras palavras, uma balela.

Ele ressalta que ao contrário da sua suposta alterego na película, a personagem Susan Alexander (uma cantora medíocre que abandona Kane), Marion Davies e Hearst viveram uma verdadeira história de amor e a atriz, além de pessoa encantadora, foi também uma das mais talentosas comediantes de todos os tempos, ironicamente prejudicada pelo zelo excessivo e a máquina do marketing alimentada pelo companheiro. Sem o seu apoio, Orson Welles – e muita gente – acredita que ela teria tido uma carreira ainda mais estelar.

Para terminar, reproduzo aqui um poema de autoria do próprio Hearst, escrito num dos muitos bilhetes colocados à noite, embaixo da porta do quarto de Marion, no castelo, como era de seu costume.

“Oh the night is blue and the

stars are bright

Like the eyes of the girl of

whom I write…

And the day is a glimmer of

golden light

Like the locks of the the girl of

whom I write.

And the skies are soft and the

clouds are white

Like the limbs of the girl

Of whom I write,

But no beauty of earth is so

fair a sight

As the girl who lies by my

side at night.”


Dispensa comentários.

William Randolph Hearst   &   Marion Davies

*As visitas ao castelo Hearst requerem reserva com antecedência.

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