Meses atrás, papo vai, papo vem, um amigo me recomendou dar uma checada no seriado “Nurse Jackie”, que anda fazendo sucesso na telinha. Misto de drama e comédia de humor negro, ele vai descortinando o meio hospitalar americano, sua engrenagem interna, a bravata de uns, a bravura de outros… Em especial, da armada de enfermeiros e da personagem central – Jackie – de força admirável, dedicação ferrenha aos pacientes e… uma outra faceta, de conduta mais tortuosa. Por exemplo, com o vício em medicamentos que ela surrupia do centro médico, vira e mexe, escondendo a aliança de casada, cultivando um relacionamento extra-conjugal paralelo a um casamento feliz, duas filhas, iludindo ambos, marido e amante…
Segundo meu amigo, ou o que entendi através dele, uma personagem complexa, humana, corajosa, por quem, apesar de tudo, era difícil não se apaixonar.
Eu, que raramente vejo televisão, e nunca tinha ouvido sobre o programa, achei curioso. Afinal, era o perfil da própria anti-heroína, quebrando todo tipo de regra, derrubando balizas éticas, vivendo uma mentira atrás da outra… Como sentir essa simpatia toda por ela?
Ora pois, outro dia, no avião, tive a chance de ver uns episódios. E, para minha surpresa, dito e feito. Não é que meu amigo Renato estava certo? O controverso seriado acabou desafiando minha lógica e princípios, tive que rever limites, expectativas e conceitos (preconceitos?). A vida não tem respostas fáceis. A enfermeira – com toda sua contradição, inteligência intuitiva e cinismo – não é perfeita. Mas quem de nós é? Que atire a primeira pedra.
Tem uma fala particularmente sugestiva que Renato havia comentado, quando a protagonista, em certa ocasião, corrige a colega novata com a tirada: “ Just so you know…” , “só para você ficar sabendo: os médicos estão aqui para diagnosticar, não para curar. Nós curamos.”
Me lembro que louvamos o trabalho dos enfermeiros e daí, pouco a pouco, o papo foi tomando outro rumo. Começamos a discutir a febre atual de antidepressivos. E por aí vai…
Por que toco no assunto agora? É que nos últimos tempos tive a experiência de checar esse meio de perto, num atendimento hospitalar que tive nos Estados Unidos.
Tendo sempre gozado de boa saúde, pela primeira vez na vida, passei pelo susto de um procedimento médico um pouco mais delicado, que exigiu internação. Em face de tantas enfermidades graves e condições terminais, meu caso, do ponto de vista físico, era brando, tinha solução. Mas, ainda assim, era nossa dor, agonia, e foi uma lição de humildade diante do incrível senso de impotência e fragilidade.
No processo, passei por pelo menos nove enfermeiros, muitos deles, filipinos. Cada um que se aproximava, se apresentava com um sorriso, engatando uma conversa, tratando de criar uma atmosfera um pouco menos impessoal.
A primeira foi Ellen, que veio me buscar na sala de espera e, após minha troca de roupa, passou mais de meia-hora registrando no computador todas as informações possíveis sobre meu histórico de saúde e de meus pais, enquanto Veronica me dava as picadas para o exame de sangue, o antibiótico intravenoso e tentava me deixar o mais confortável possível, com três travesseiros e dois cobertores, meus dentes tiritando com o ar-condicionado e o nervosismo…
Ellen era uma senhora nos seus sessenta anos, um anjo de fala firme, aura protetora e maternal (pela qual, confesso, sempre tive um tremendo fraco). Depois de minucioso interrogatório, desembocando em perguntas do tipo: “Você quer ser ressuscitada caso algo aconteça?”, “Vai doar seus órgãos?” – tentou me tranquilizar com palavras de otimismo. Tive o ímpeto de abraçá-la, me aninhar sob suas asas e pedir que não me deixasse só…
Depois do interrogatório e de alguma espera, meu marido finalmente teve autorização para entrar. Vi a ternura e a preocupação nos seus olhos molhados. Sabíamos que o procedimento era simples, mas também que meu corpo não reagia bem a certos medicamentos. Tínhamos medo da anestesia geral e dos antibióticos desconhecidos. E a esse temor, somava-se o da lista de complicações possíveis entregue por escrito antes da operação; o antigo trauma da perda precoce de meus pais por motivos de saúde; a consciência da própria mortalidade, mais forte do que nunca; a tristeza, a espiral emocional com ânimos em baixa; o cheiro de hospital …
Danilo, o enfermeiro seguinte, veio me buscar e foi empurrando minha cama para outro setor, num andar diferente. Lá estava Kathy de plantão, para o segundo interrogatório. O anestesista, dr. Wong, se apresentou para explicar o processo. Aproveitei para perguntar se o procedimento seria filmado, fotografado ou observado por estudantes, pois bem depois de assinar o documento de autorização, vi atônita um item que incluía sinal verde a tudo isso. Felizmente, o anestesista disse que não. Eu teria relativa privacidade.
Fui levada para a sala de operação pela enfermeira sino-americana de nome impronunciável. Lá, quando era afivelada à cama, o médico finalmente entrou em cena. No teto, imensos refletores redondos iluminavam até mesmo a poeira embaixo das unhas. Clássica cena de ER. Só que dessa vez, o sangue, as agulhas e o pânico eram bem reais.
Black out…
Após o procedimento fui transferida para uma sala de observação temporária e, ao despertar, dei de cara com a enfermeira Mayra, a quem perguntei ansiosa se a operação começaria. “Já terminou”, disse ela, “… e correu tudo bem. Não se preocupe”. O alívio foi tão grande que desandei a falar e a insistir que me trouxesse meu marido. Talvez pelo barulho que fiz, tratou de injetar uma droga que me fez dormir. Ao despertar depois de cerca de uma hora, me perguntou: “Sente algum desconforto? Alguma dor?”. Ao que comecei a balbuciar: “um pouc…”. Nem completei, nova droga. Processo que se repetiu ainda mais uma vez, pelo menos. As horas foram passando. E meu marido esperando notícias…
Quando, desarvorado, ele finalmente me encontrou, por conta própria, as enfermeiras estavam chocadas. Todas perguntaram: “Como? Ninguém foi buscá-lo? O médico não o contactou?”
Não, o doutor havia ido embora, sem nenhum comunicado ou explicação…
Durante horas, meu marido pensou que eu estivesse tendo alguma complicação séria. Via médicos e enfermeiras saindo para falar com familiares de pacientes e só ele foi ficando, esquecido na sala de espera.
Naquele momento, no entanto, o alívio acabou vencendo a decepção. Celebramos a vida emocionados.
Queriam me levar para o quarto, mas todas as camas estavam ocupadas e tínhamos que esperar.
A penúltima enfermeira, uma energética filipina, atendia pelo nome de Star, e me aplicou morfina. Depois de alguns minutos, porém, teve início uma reação alérgica, provocando um grande inchaço ao redor dos meus olhos.
Vi as pupilas de Star se arregalarem e sua rápida decisão de injetar novo medicamento.
Irritada com a atitude do médico responsável (?!), logo em seguida, telefonou-lhe para que meu marido pudesse, enfim, saber o que aconteceu e ter as recomendações necessárias de cuidados e precauções post facto. A ligação durou apenas um minuto. O médico parecia ocupado, talvez decidindo – uni-duni-tê – qual a próxima garfada no jantar…
Senti meus olhos pipocarem, um torpor no cérebro, dificuldade de controlar movimentos, de engolir minha própria saliva… Aos poucos, apagando, sussurrei para Star: “Do I look like Quasimodo?” E ela, aos outros enfermeiros: “Ela está me perguntando se se parece com QUASIMOTO! Quem é esse tal QUASIMOTO? Quem é QUASIMOTO??” Ao que, de olhos fechados, murmurei entredentes – “o corcunda… de Notre Dame…” – num último suspiro, antes de perder os sentidos.
Transferida mais uma vez, o último a cuidar de mim foi um rapaz, Erle. Pelo menos, dessa vez, meu marido estava por perto, pacientemente lendo um livro e eu não me sentia tão isolada.
Perguntei-lhe as drogas que haviam me aplicado ao longo da internação. Ao que respondeu: morfina.
Insisti, dizendo que havia ouvido de Star pelo menos três outros nomes. Com a boca na botija, ele acabou entregando a lista. Não é de se admirar minha reação alérgica a tanta toxina…
Fui, finalmente, liberada para voltar para casa.
Vindo de uma família no Brasil, que conta oito médicos, entre tios e primos – todos peritos dedicados, acessíveis, envolvidos – que de plantões a corridas emergenciais, matam um leão a cada dia, bem sei a importância e o valor da sua classe.
Não pude deixar de comparar sua atitude profissional à do médico que me atendeu aqui. Que contraste.
Meu marido dissipa um pouco da onda cáustica no ar, lembrando que, apesar de tudo, devemos muito a ele, a esse médico local, que cumpriu o seu papel essencial. Talvez estivesse sobrecarregado, cansado, ao dar cobertura ao colega que saiu em férias, este, sim, na verdade, nosso médico primário.
Mas, penso que nada desculpa desaparecer sem uma satisfação, uma mensagem, tendo a vida de alguém nas mãos. Nada justifica o descaso.
Hoje, é aos enfermeiros – baluartes do comprometimento total – que quero dar meu aplauso, uma medalha, uma corbelha… Sou extremamente grata ao time que cuidou de mim, pela atenção, preocupação, seriedade, eficiência e calor humano.
A maioria desses profissionais, nos Estados Unidos, tem mestrado; sua esfera de atuação pode se esticar de tal forma que acabam realmente desempenhando muitas das funções dos médicos – embora com salário bem menor – pedindo testes, diagnosticando e tratando doenças, monitorando a recuperação, prescrevendo medicamentos e, como diz a enfermeira Jackie, literalmente, curando. Vinte e dois estados norte-americanos autorizam a sua atuação de forma independente, sem o envolvimento de um médico responsável, o que acho extraordinário.
Corpore sano.
Resta agora remendar o espírito…




Posted on 21/07/2010
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