Perplexidade e desalento. Diante da extensão do vazamento, ainda descontrolado, de petróleo no Golfo do México, a cada manhã, acompanhando as notícias, a estupefação segue em crescendo. Pegajosa e poluente, a mancha avança perturbadora, corroendo e penetrando cada vez mais o oceano, os mangues, a terra firme, a fauna, a flora – nossa paz de espírito.
É irônico. No aconchego do lar, com todo o conforto proporcionado por esse mesmo óleo que jorra no mar, vejo fotos do estrago (livepage.apple.com) no ecossistema do Golfo – a mortandade dos peixes; aves cobertas de óleo, com olhar moribundo – e me indigno, me entristeço. Nos últimos anos, por puro descaso e ganância, catástrofes como essa, de efeitos ainda mais duradouros, em países como o Equador, a Nigéria… Meu pensamento navega por um vago senso de cumplicidade silenciosa. Como a de quando consumimos a carne, sem sujar nossas mãos de sangue; ou lamentamos o efeito estufa, com o ar-condicionado ligado a toda…
Tem sempre um quê de lúgubre o ritual de ler o jornal. Há que se desenvolver uma couraça, estômago, um mecanismo de defesa qualquer, para encarar, além das eventuais mazelas pessoais, as más novas do mundo, e lidar com o avanço da nódoa negra, viscosa, do pessimismo sempre à espreita, em cada um desses desastres, confrontos beligerantes, atos de crueldade, homens-bomba, violação, falcatrua, devastação… Em face disso, como o pato, nadando plácido na lagoa, mas furiosamente batendo as patinhas submersas, tentamos de alguma forma, preservar a normalidade, o equilíbrio, manter a cabeça sobre a água, pedalar e seguir em frente.
Na era da informação, os recursos se multiplicam, cada um lida com a vida, e seus desafios, do jeito que pode: meditação, oração, terapia, chá de camomila, yoga, leitura de auto-ajuda, antidepressante… Blog… Cria-se o véu de proteção, essa galvanização, espécie de bolha em que vivemos, grande ou pequena, fina ou espessa, alienante ou não – colocando tudo numa perspectiva própria, delineando limites, filtrando, compartimentalizando… Para poder tocar o barco.
Do contrário, como manter a centelha da esperança? De que jeito reunir energia e coragem para colocar mais uma criança nesse mundo doido? E ousar ser feliz, apesar de tudo?
Meu avô, um doce velhinho, com lucidez cristalina aos 99 anos, se põe a cantar sempre que sente uma nuvem pesada pairando próxima. Segundo ele, é tiro e queda. A desdita se dissipa, sua mente desembaça, o peso vai embora.
Aliás, diz que recentemente desenvolveu uma nova técnica, de cantar para dentro, para não despertar a família no meio da madrugada… Ainda não pude conferir.
Imigrante japonês, oito filhos, ele já suou bastante a camisa e, sem dúvida, passou por poucas e boas. Mas, mesmo hoje, com a liberdade tolhida pela fraqueza nas pernas e a dificuldade de audição própria da idade, nunca chora as pitangas dos percalços que enfrentou ao longo da vida. Todo tempo, jovial, diz que é uma pessoa feliz. A cada vídeo-telefonema, me abastece de energia com seu sorriso de Buda e perco a conta das vezes em que repete a palavra kansha, “gratidão”: gratidão pelo desprendimento dos filhos; gratidão pela comida na mesa; pela vida longa; pelo carinho da família; pela abundância de possibilidades e recursos do país que o acolheu… E a lista não pára por aí.
Não por acaso, hoje em dia, além da arena filosófica (e da teológica), uma brigada de psicólogos também vêm colocando o sentimento de gratidão no patamar de relevância máxima rumo ao crescimento pessoal.
Soa a lero-lero?
Nem tanto. Pois em 2004, os doutores Robert Emmons (Universidade da Califórnia) e Michael E. McCullough (Universidade de Miami), fizeram uma experiência interessante com três grupos de centenas de pessoas. A um deles foi determinado que escrevesse um diário sobre acontecimentos ordinários do dia a dia; ao segundo, que reportasse as patuscadas e experiências desagradáveis; e ao terceiro, que se concentrasse numa lista diária de coisas a agradecer.
Como resultado da pesquisa empírica, provando a teoria dos psicólogos, o terceiro grupo, da gratidão, experimentou menos estresse, depressão e, muito pelo contrário, um alto nível de entusiasmo, energia, determinação, boa saúde física e mental – felicidade.
Meu avô, na sua sabedoria, parece ter chegado à mesma conclusão por caminhos próprios.
Nos meus momentos Schopenhauer, de decepção e barafunda, como hoje, ao ler o jornal, quando me vejo pedalando contra a maré que foge ao meu controle, é nele, no velhinho, que me pego pensando: no seu otimismo, na dignidade, generosidade e graça com que tem vivido e superado obstáculos; cantarolando baixinho no seu quarto, vendo na tv um mundo que agora pouco pode escutar, feliz e grato pela sua sorte.
Aí, arregaço as mangas, dou meu voto de confiança no futuro e, mais uma vez, inspirada, abraço a vida com todas as suas dores e alegrias.




Posted on 04/06/2010
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