O aeroporto internacional de Siem Reap, minúsculo, lembrou um pouco as nossas estações rodoviárias no Brasil. Nada de finger, nada de ônibus. Ao desembarcar, sob olhares vigilantes, descemos a escadinha e caminhamos, com a bagagem de mão, do campo de pouso, direto ao guichê do controle de passaportes.
Tínhamos conseguido o visto via internet ($25), para ganhar tempo mas, nesse dia, não vimos tanta diferença na espera. Poderíamos ter passado pelo processo ali mesmo, ao chegar ($20)… Em pouco tempo, ao pegar o resto da bagagem, estávamos livres para tomar o táxi.
No caminho ao hotel, o motorista dirige bem devagar, tuc tucs e motos zunindo por nós. Ele é simpático, puxa
conversa, arranha o inglês, pergunta a nossa procedência, o tempo de estada, recomenda esse e aquele lugar para visita… até que, finalmente, pimba: vai direto ao ponto e se oferece para nos guiar pela cidade. Um dia nos conduzindo nos passeios, sairia por 30 dólares. Anotamos seu número e pedimos tempo para pensar.
No lobby do hotel, logo ao entrar, ouvimos a voz suave, familiar, de Bebel Gilberto e relaxamos. Nos impressionamos com o bom atendimento, a postura e a afabilidade do staff.
Depois de discutir a questão do guia, concordamos que nesse país, definitivamente, precisaríamos de um bom profissional desse serviço, a que poucas vezes recorremos nas viagens. Sempre sonhamos visitar Angkor Wat e queríamos aproveitar a experiência, absorvendo o máximo. Por isso, acabamos optando pela reserva do motorista e o guia licenciado do hotel. Um pouco mais caro ($30 para o guia, $30 para o motorista), mas certamente valeria a pena, pensamos.
Vimos a diferença na tabela de preços, de acordo com o idioma. Curioso, porém, no topo da lista, o preço mais alto era o do francês. Suspeitamos que essa era uma pequena retribuição
dos cambojamos aos anos de colonização francesa no país… E estávamos certos.
Na manhã do dia seguinte, nosso guia pontualmente nos esperava no lobby. Seu nome era Sorm Son, um rapaz franzino, de 36 anos, com um comando claro, primoroso do inglês e, logo descobrimos, também ótimo caráter, uma história de vida interessantíssima e muito, muito conhecimento… Graças a ele, a tudo o que nos transmitiu, essa acabou se tornando uma das mais fascinantes viagens que já fizemos.
Lá fora, fomos apresentados a Rath, nosso expedito motorista.
Na cidade de Siem Reap, o primeiro dia foi dedicado a visitar o complexo dos templos de Angkor Wat (livepage.apple.com), em sânscrito, a “cidade templo” – construído entre os séculos 9 e 13 – o maior legado do império Khmer, um dos mais prósperos e poderosos de todos os tempos, no sudeste asiático. Muita gente pensa que se trata de uma única construção. Na verdade, esse nome corresponde a um dos templos, o mais bem conservado, mas também engloba todo o imenso complexo, uma infra-estrutura urbana elaboradíssima de mais de mil quilômetros quadrados. Para se ter idéia da dimensão das ruínas, uma exploração um pouco mais abrangente dos principais templos ainda relativamente de pé (cerca de 72, entre centenas) levaria pelo menos duas semanas, segundo Sorm. Angkor Wat foi a maior cidade da era pré-industrial, muito maior inclusive do que a cidade maia de Tikal, na Guatemala. Infelizmente, não tínhamos tempo suficiente para o grande tour cultural e decidimos então, nos concentrar em três dos subcomplexos: o templo Bayon, o Ta Phrom (cenário do filme “Tomb Raider”) e Angkor Wat.
Ficamos extasiados. Para cada canto que olhávamos, podíamos ver contornos de uma estética refinadíssima, com motivos do hinduísmo e do budismo, fosse nas paredes, nas colunas ou estátuas de pedra minuciosamente desenhadas, com entalhes que contavam uma parte da história de sangue, suor e lágrimas do povo cambojano. Nas ruínas, dava para ver que cada pedra da estrutura tinha buracos. Nosso guia nos explicou que, séculos atrás, haviam transpassado cabos por eles para que os elefantes conseguissem transportar os blocos durante a massiva construção.
Vimos milhares de faces engravadas nas pedras, cada uma diferente da outra, muitas sorridentes. Nas paredes, muitas cenas de guerra, construção, destruição,
animais, festividades, divindades, vida diária… Para mim, aí é que estava a maior atração do lugar. A cada compartimento, ahs e ohs de admiração. Fomos transportados no tempo, arrebatados pelo nível colossal de detalhes, sofisticação e beleza ao nosso redor. Mas, não pudemos deixar de sentir também uma certa tristeza pelo tanto de devastação, o ódio explícito, em grande parte das estruturas quebradas, estátuas decapitadas e desfiguradas. Um sentimento misto, meio comparável ao de quando contemplamos as ruínas de Ayutthaya, na Tailândia, saqueadas pelos birmaneses, abandonadas com um sem número de estátuas sem cabeça, sem rosto… Como o ser humano podia destruir obras como aquelas?
Durante a visita, entendemos que algumas das mesmas disputas que levaram ao saque e à destruição dos templos de Angkor Wat, ao longo dos anos, continuam até hoje. Pudemos sentir o histórico entrelaçado de relações difíceis, entre três nações: Camboja, Vietnã e Tailândia. Deu para captar o ressentimento no ar… O próprio nome da cidade em que estávamos hospedados, Siem Reap, quer dizer “Tailândia” (Siem), “derrotada” (Reap), na língua oficial do país, o khmer.
Atualmente a tensão maior entre o Camboja e a Tailândia – ambos países monárquicos em que o rei “reina mas não governa” – envolve a disputa da soberania do território do templo Preah Vihear, determinado patrimônio cambojano pela Corte Internacional de Justiça, em 1962, e patrimônio da humanidade pela UNESCO, em 2008. As tropas dos dois países vêm se enfrentando na fronteira, inclusive com registro de mortes. Hoje, no jornal, leio que o primeiro-ministro cambojano, Hun Sen, diz que pode novamente pedir o arbítrio internacional para resolver a questão.
Por acaso, pudemos testemunhar um momento de relativa tranquilidade dos soldados que tinham voltado da fronteira e
aproveitavam o dia de folga com a família, relaxando, alimentando os macacos na área aberta, com os filhos. Sem dinheiro ou mudas de roupa para trocar, vestiam a farda até mesmo no dia de descanso…
O povo cambojano (também identificado como “khmer”) é, em geral, cordial, de uma doçura cativante, e também, humilde, sofrido, muito castigado pelas guerras e pela corrupção. Cerca de 40% da população vive abaixo do nível nacional de pobreza e 70% mora em favelas ou vizinhanças carentes. Quase um terço vive com a renda de apenas 1 dólar por dia. Vimos a enormidade dos obstáculos e só tivemos a admirar a sua resiliência.
Vira e mexe, alguém – adulto ou criança – se aproximava para nos pedir dinheiro. Nossos acompanhantes não interferiam. Resignados, diziam: “Não há empregos. Eles vivem em extrema miséria…”
Tem também a atrocidade das minas, plantadas no território ao longo de mais de 20 anos de guerras. Desde 1979, mais de 60 mil vítimas foram reportadas e o Camboja tem ainda hoje o maior número de amputações do mundo. Calcula-se que existem cerca de seis milhões de bombas e minas ativas, espalhadas principalmente nas áreas rurais a oeste, em especial, a noroeste. Para quem pensa em visitar o país, no entanto, os arredores de Angkor Wat e da capital, Phnom Penh, passaram por um “pente fino” e, hoje em dia, não devem oferecer esse tipo de perigo. Contudo, pelo sim, pelo não, para ir a lugares mais remotos, é melhor sempre consultar o hotel e o guia.
Há anos, eu ouvi vagamente que uma das minhas amigas de Tóquio, filha de mãe japonesa e pai cambojano, havia perdido o
pai, tragicamente, morto pelo regime do Khmer Rouge, o sanguinário Partido Comunista do Camboja, responsável por um verdadeiro genocídio na década de 70. Nessa viagem, pude entender melhor as circunstâncias. Durante cerca de quatro anos (75-79), a administração do partido, que assumiu o poder, liderada por Pol Pot, evacuou as cidades, levando a população ao campo para viver da agricultura, pondo fim no comércio, nas escolas (mais de 90% foram destruídas), nos templos, e dizimando também a classe culta do país (mais de 75% dos educadores foram assassinados). A estimativa de mortos pelo regime nesse período é de cerca de 1.7 milhões de pessoas (3 milhões, se forem incluídos aqueles em campos de refugiados), seja por trabalhos forçados, fome ou extermínio. É só uma estimativa. Alguns pesquisadores citam números ainda maiores que, de uma forma ou de outra, corresponderiam a mais de um quarto da população da época.
Nesse período, mulheres cambojanas em casamentos internacionais receberam autorização para deixar o país com seus maridos. Mas os homens cambojanos casados com mulheres estrangeiras, como o pai de minha amiga, não tiveram a mesma sorte…
Na década seguinte, houve a brutal ocupação vietnamita, que terminou em 1990 e, dessa vez, acabou resultando na morte do pai e da irmã do nosso guia, Sorm. Histórias como essas, tristemente, não são raras…
Na mídia, muito se fala no governo atual do Camboja como uma “marionete” do Vietnã, de cuja procedência é o maior número de imigrantes. Desde a década de 90, a relação entre os dois países melhorou, com a abertura das fronteiras, do comércio e o relaxamento na concessão de vistos, mas uma certa tensão ainda é palpável.
Sorm nos deu uma grande aula de história e sociologia. E nos falou um pouco da sua vida. Sua formação é em Letras, língua inglesa. Mas, ele foi também soldado e
monge budista, antes de tirar a licença como guia.
Aspirações futuras? Nos contou algumas. Entre elas, a de se casar.
Mas, não é tão fácil. No Camboja, o noivo tem que desembolsar uma grande quantia aos pais da noiva para o dote e as despesas da festa de casamento. Segundo ele, algo em torno de 5 ou 6 mil dólares seria aceitável. O valor – que vai depender da noiva e da sua família – seria uma forma do noivo mostrar a sua segurança em prover, e uma retribuição aos pais da noiva pelos sacrifícios que fizeram em prol da filha. Além do fato de estarem perdendo um bom par de mãos para os trabalhos da casa…
O mesmo costume existe na Tailândia.
Perambulamos pela cidade e, sempre atentos, nos sentimos seguros. Em Siem Reap, todos têm noção do quanto o turismo é importante para a subsistência local, por isso, parece haver um acordo comum de deixar os turistas relativamente em paz. Por outro lado, ouvimos que andar pela capital, Phnom Penh, requer muito mais cuidado, principalmente com os trombadinhas.
Mesmo no inverno, como agora na Ásia, o calor é de rachar, por isso, é bom andar sempre com uma garrafinha d’água para evitar a desitratação. Ouvimos histórias de visitantes que desmaiaram nos templos. Chapéu e óculos de sol também vêm sempre a calhar de dia. Há muito chão para explorar, muita coisa para ver: um bocado de história, arte, antiquários, bares, cafés, lojas, restaurantes, cenas pitorescas do dia a dia…
Aproveitando o gancho da arte, o que mais nos chamou a atenção foi a qualidade e a originalidade dos trabalhos entalhados em pedra e madeira, as esculturas em bronze e a linda seda cambojana tecida a mão. Interessante a visita (gratuita) aos workshops do grupo Artisans d’Angkor (livepage.apple.com), que podem ser feitas com ou sem o acompanhamento de um guia do estabelecimento. Lá, pudemos ver a destreza dos jovens artesãos em ação, esculpindo, pintando, moldando…. A loja tem preços “para turistas” mas, também, alguns artigos belíssimos.
No dia seguinte, dispensamos uma visita à trilha dos elefantes (domesticados) e a membros da tribo dos longos pescoços,
aqueles cheios de argolas (alguns viveriam em uma aldeia próxima). Ao invés disso, queríamos ver um pouco da área rural, a vida como ela é, no seu curso normal, sem o risco de dar de cara com animais acorrentados ou etnias exploradas pela indústria do turismo. Meu outro desejo era bem simples: ver um bonito pôr do sol cambojano.
Sorm, o gênio da lâmpada, nos atendeu da melhor maneira possível. Pela manhã, depois de nos levar às ruínas do antigo templo em que ele viveu, onde pudemos compará-la com a construção recente, bem próxima, nos conduziu a uma visita a seus familiares, no campo. Eram três famílias que dividiam a mesma propriedade e viviam da agricultura.
Sua tia, a matriarca, nos recebeu com um grande sorriso e muita hospitalidade. Os homens haviam saído para trabalhar. As mulheres podiam entender um pouco de inglês e, as crianças, arredias a princípio, logo baixavam as defesas e disputavam nossa atenção. Nos mostraram a gatinha, os cachorros, as galinhas e pintos, os porquinhos recém-nascidos, uma pipa empinada… Um dos meninos subiu habilmente um coqueiro para pegar cocos, cortados e abertos na hora.
Logo nos vimos com uma tigela de lata, cheia de água de coco, passada de mão em mão e compartilhada, como um cachimbo da paz.
Nos sentimos honrados e gratos por poder respirar um pouco da sua intimidade, compartilhar uma parte da manhã, caídos assim, de
repente, de pára-quedas, no seio da família.
À tarde, fomos conhecer a aldeia flutuante de Chong Khneas, uma comunidade com casas, restaurantes, clínica, escola e uma igreja, em precárias estruturas flutuantes distribuídas entre moradores khmers e vietnamitas, no plácido, lamacento Lago Tonle Sap, um dos maiores da Ásia.
Tomamos um barco que nos conduziu por entre centenas de casas-barco, cerca de 1.300 no total, nessa comunidade. No meio do passeio,
pequenas embarcações se aproximavam, oferecendo frutas, bebidas e outros produtos à venda. De repente, vimos um barquinho com dois meninos. Um deles tinha uma grande cobra (viva!) em volta do pescoço. Logo descobrimos que queriam uns trocados pelo pequeno “show” ofídico…
Como sempre acontece em atrações turísticas, ao longo do passeio, cruzamos com mais de uma centena de visitantes estrangeiros e todo tipo de artifício para que deixássemos o nosso dinheiro por lá.
Desembarcamos num estabelecimento flutuante no meio do lago. Na entrada, uma pequena exposição de utensílios de pesca e cartazes explicativos sobre o ecossistema local. Mais adiante, uma pequena loja e a ala do bar-restaurante. Veríamos o esperado pôr do sol do terraço da estrutura.
Lá dentro, mais uma vez, vimos cobras enormes num aquário e uma menina manuseando-as afetuosamente. Na parte de trás, um fosso de crocodilos. Agradeço a São Pedro o tempo firme. Detestaria passar uma tarde de tempestade com o barco saracoteando, entre cobras e crocodilos estressados…
O sol começou a beijar a água, em tons dourados, rosados, alaranjados… Subimos para o terraço.
A imagem lá de cima era luminosa e dinâmica, com o movimento de barcos, famílias a todo vapor em atividades de ganha-pão e aglomerações de turistas em outros terraços. Conversamos com um casal próximo de nós. Me surpreendi ao descobrir que a esposa, húngara, falava um português fluente… Desta vez, o único que ouvimos na viagem (além da eventual bossa nova como som ambiente), em contraposição ao inglês, japonês, chinês, coreano, russo, alemão e italiano, que escutamos a toda hora.
Enquanto eu fotografava o cenário, nosso guia, Sorm, discretamente confidenciava a meu marido incertezas quanto ao futuro: casamento, carreira, estudo… Ouvi meu marido opinando, aconselhando, e me comoveu um pouco a percepção dos laços que se estreitaram em tão pouco tempo…
Logo chegou a hora da despedida. Nos faltaram palavras para expressar o quanto valeu a experiência. Olhos inexplicavelmente molhados, prometemos manter contato, não desaparecer nos confins do mundo.
Nesses últimos dias, já de volta para casa, trocamos algumas mensagens via email e escrevemos um pouco do que não pôde ser dito.
Hoje, aqui nessas linhas, mais uma vez, com gratidão, virtualmente abraçamos Sorm, abraçamos aquele país, a força da sua gente, sua coragem, e todas as coisas boas que vimos por lá.
PS: Se um dia alguém quiser se aventurar por essas bandas, aqui está a referência de um excelente guia (divulgação autorizada):
Nome: Sorm Son
Guia falante de inglês
Email: sormson16@hotmail.com
Website: Charming Angkor Guide





Dorothéa Silva de Souza
07/11/2011
Oi Lilian, descobri você no site o Viajante. Gostei muito do seu depoimento. Estivemos em Siem Reap agora em setembro, e já estamos com saudades. Pena que não peguei a dica do guia Son com você. Também gostamos muito de viajar, agora vou acompanhar seu blog.
Um abraço
Dorothéa
Lilian Kano
09/11/2011
Oi, Dorothéa
Obrigada pela visita.
Essa experiência mexe um bocado com a gente, né? Todo lugar é único, mas a viagem ao Camboja foi uma das mais interessantes em termos de aprendizado para mim.
Um abraço!
HELENA AFONSO
27/03/2012
OI LILIAN,
Só agor pude ler sua reportgem sobre o CAMBOJA, LUGAR QUEE VISITEI EM OUTUBRO PASSADO. ADOREI VER PELAS SUAS PALAVRAS QUANTO GOSTOU DAQUELE LUGAR, COMO EU, QUANDO LÁ FUI. VVISITOU AQUELAS MARAVILHAS QUE SE CONHECEM ATRVES DAS PUBLICIDADES TURISTICAS MAS QUE REALMENTE SÓ NOS TOCAM QUANDO AS VISITAMOS…..
Eu também estou publicando minha reportagens no meu blog… vá espreitar:
http://www.viagensimagensepensamentos.blogspot.com
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