Lagartixas furtivas, libélulas intrépidas, dança de borboletas, revoada de pássaros, cantilena vibrante de grilos, sapos, cigarras… Imagens e sons familiares da infância, dos tempos do sítio em que cresci. E um calor de rachar (pudera, pertinho da linha equatorial!). Assim têm sido os dias em Sayan, uma pequena aldeia da ilha de Bali, nas montanhas, onde estamos agora.
Nosso hotel fica numa colina, na boca da selva, de cara para o vale do rio Ayung. A arquitetura do prédio principal lembra um pouco a do Museu de Arte Contemporânea de Niterói: linhas modernas de um Niemeyer dos trópicos asiáticos* – como um disco voador – abusando do uso da madeira teca, que respira em harmonia com a mata. No terraço, em cima da “nave”, uma enorme piscina com flores de lótus, água até a borda redonda do espaço elevado. Descortinando-se ao fundo, a vista panorâmica do santuário natural, e a ilusão “avataresca”, transcendental, de um grande lago flutuante sobre a selva…
Na propriedade, são cultivados o arroz, o gengibre, a hortelã, o capim limão e até açafrão para uso nos pratos dos dois restaurantes e nos tratamentos do spa local. Em todo canto, ouvimos o som mitigante da água em movimento, aparentemente um reflexo da tradição balinesa de nutrir o corpo e o espírito com água fresca.
Uma noite dessas, pulamos da cama assustados, com o som repentino de um guincho, que mais parecia um alarme de emergência.
Insistente, agudo, penetrante. Levou algum tempo para que nos déssemos conta de que era algum bicho, um inseto talvez. Meu marido, com o sono leve, não pensou duas vezes, apesar dos meus protestos. Foi para fora do bangalô e se pôs a sacudir os arbustos freneticamente. Que o bichinho não nos leve a mal, mas funcionou. Silêncio quase absoluto. Dormimos com os anjos. E nunca mais nada importunou o nosso sono sagrado.
Na verdade, a possibilidade de um alarme no meio da noite é até bem plausível, considerando-se a realidade de Bali e todos os cuidados
com a segurança tomados no dia a dia. Apesar da atitude relaxada e amigável dos balineses, existem ainda resquícios de uma certa paranóia no ar por conta dos ataques terroristas mais recentes, de 2002 e 2005. A segurança nos hotéis, em alguns grandes restaurantes e centros frequentados por turistas é intensa. No local onde estamos, diariamente dois ou três homens armados, acompanhados de um cão, checam os carros e seus passageiros, antes de passarmos pelo portão no regresso ao hotel. Diante disso, não convém facilitar. Qualquer sino, campainha ou sirene no meio da noite pode bem lá ser sinal nebuloso de encrenca…
O próprio Aeroporto Internacional Ngurah Rai, de Denpasar, tem uma boa vistoria, com a checagem da bagagem de todo mundo, logo na entrada do prédio, antes da outra segurança, mais rígida, no setor de embarque.
Ficamos, porém, surpresos com o processo de emissão do visto de turismo na chegada, ao desembarcar: vapt-vupt, do tipo “pagou, levou”, sem grandes exigências ou averiguações ($25).
No maior país muçulmano do mundo, composto de um total de 17.508 ilhas, a província de Bali, com quase 95% da população adepta do hinduísmo – minoria no arquipélago (quase 2%) – resiste bravamente às pressões de todos os lados para se tingir de cores bem mais conservadoras, homogeneizando assim sua tonalidade com a maior parte, islâmica, monoteísta e cada vez mais ortodoxa do país onde, ironicamente, o lema nacional é “unidade na diversidade”. Os habitantes locais se empenham em preservar o senso de identidade, mantendo com orgulho seus trajes típicos, as tradições, cerimônias e rituais de sua crença; elevando monumentos cada vez maiores, proclamando aos quatro ventos que Bali é – e sempre será – hindu.
Incorporada à Indonésia em 1950, essa é realmente uma ilha singular, diferente de tudo o que já vimos.
De forma geral, existe um clima de tolerância com relação a outras culturas e religiões, na medida em que tradições e regras locais sejam respeitadas. Mas, a verdade é que em off, nenhum balinês com quem cruzamos esconde a insatisfação com o fundamentalismo galopante dos vizinhos muçulmanos – principalmente de Java, a ilha vizinha -que têm migrado cada vez mais para a região, quase sempre apontados como responsáveis por delitos, violência e corrupção.
Nosso motorista, o jovem Wayan, diz que um balinês raramente deixa a ilha para viver em outro lugar no país. Não há para onde ir. Aqui, na sua terra natal, é que
ele deve encontrar (e fazer) sua felicidade. Ele tem 23 anos, apenas uma irmã, e nos conta que atualmente existe uma política em Bali de limitar o número de filhos por casal para até duas crianças. Por outro lado, entre os muçulmanos, que podem ter até quatro esposas, o número de filhos é incrivelmente maior, mais de 20 algumas vezes. Ou seja, ao passo que a minoria local se reduz ainda mais em número, a maioria ao redor só faz proliferar, assim como sua influência e valores.
Aproveito para fazer uma enquete (a velha professora em mim emergindo de novo). Perguntamos para todo balinês que encontramos pelo caminho o que a ilha tem de especial. E duas são as respostas mais frequentes. Segundo eles, a sua espiritualidade, a celebração da vida através de rituais diários e cerimônias constantes, de um lado; e, de outro, a integracão, a conexão forte das pessoas, que estão sempre juntas, interagindo, incluindo, se comunicando, apoiando… Dizem que não se sabe o que é solidão nesse lugar. Será?
No carro, vemos um penduricalho familiar no espelho. Temos a vaga noção de que o desenho daquele símbolo vituperioso do nazismo ao contrário é o emblema do budismo, por isso logo concluímos que a família de Wayan é budista, uma exceção na ilha. Mais tarde, no entanto, descobrimos que aquele é, na verdade, o símbolo do hinduísmo, opção religiosa do nosso acompanhante. Curiosos, perguntamos como é chamado o desenho. E ele prontamente nos responde: “suástica”. “Não pode ser!”, pensamos.
Circulando pela ilha, porém, notamos uma hospedaria com esse nome aqui, um restaurante homônimo acolá (“Swastika Hotel”, “Swastika Restaurant”, etc). Estranho…
Intrigada, pesquisando, mais tarde, descubro que foi mesmo o nazismo, que, ironicamente, pegou emprestado o símbolo auspicioso de paz hindu, de evolução do universo, que por sua vez, com o tempo foi perdendo os quatro pontinhos que o complementavam. “Suástica” é uma palavra proveniente do sânscrito e a simbologia tem mais de cinco mil anos. Mistério solucionado, uma boa lição. Não sejamos rápidos para julgar o desenho, que podemos ver em certos mapas (indicando
templos), ruas ou mesmo, de repente, numa tatuagem por aí, especialmente desse lado do mundo. Pensando bem, quem pensamos que somos? Não nos precipitemos em sair julgando nada, nem ninguém. Ponto.
Pelas ruas, vemos em todo canto oferendas aos deuses, de flores, incenso e uma comida simbólica em folhas de bananeira. É um ritual delicado. Geralmente são as mulheres que o conduzem, com movimentos graciosos, muito amor e devoção. Ao caminhar, no entanto, temos que tomar cuidado para não pisar nos pequenos arranjos coloridos em frente de cada estabelecimento nas estreitas calçadas. Essa é uma constante. As oferendas são diárias.
O centro da cidadezinha de Ubud, fica a cinco minutos do hotel. Ainda não li o consagrado “Comer, Rezar, Amar”, em que Ubud aparece como palco de muitas descobertas e experiências relevantes da autora, Elizabeth Gilbert. O primeiro livro que estou lendo dela é o seu último lançamento, “Comitted”, em que a instituição do casamento é destrinchada (inclusive o seu próprio, com um brasileiro). Bom livro, fui fisgada.
Por aqui, há turistas por toda parte e agora fala-se em muitas mulheres maduras em viagem com a missão específica da busca pela inspiração e o auto-conhecimento, como a personagem de Gilbert em seu livro não ficcional. O sucesso da obra deve ter um pouco a ver com o aumento considerável de turistas nos últimos tempos. Assim como a vinda recente de Julia Roberts para as fimagens baseadas na história. Bali precisa dessa injeção de visitantes.
Ubud é o centro da música, da dança, do artesanato, das pinturas, esculturas, enfim, da arte em geral na Indonésia. Uma aglutinação de 14 aldeias, crescendo a passos rápidos, um pouco distante do litoral e das estripulias dos turistas nas praias, num ponto bem acima do nível do mar e, por isso, menos quente do que muitos outros lugares na ilha. Mesmo assim… Tudo é
relativo. O calor, para nós, segue de rachar.
O trânsito pode ser bem caótico. Como em muitos países do sudeste asiático, tem mais motocicletas nas estradas do que carros. No caminho, vemos muitos postos de gasolina específicos para motos e lambretas. É sempre uma pequena estante de madeira, bem rústica, no meio do nada, com as garrafas plásticas do combustível, enfileiradas nas prateleiras, como vimos no Camboja também.
Diversidade é a palavra de ordem. Podemos caminhar por uma rua bem comercial, com lojas rústicas ou boutiques descoladas e, de repente, dar de cara com um belo arrozal; encontrar recantos, jardins do paraíso no meio do burburinho. A natureza é exuberante, há um bom número de templos antigos, palácios imponentes, comunidades artísticas, galerias, museus, cafés… Muitos cachorros sem dono em ruas mais tranquilas. E, assim, seus detritos também. É preciso ter cuidado ao andar.
A área do mercado central, sempre cheia, oferece uma variedade grande de arte para todo tipo de bolso, além de hospedagens diversas, para qualquer orçamento também: pensões, alojamentos, hotéis de pequeno e médio porte, invariavelmente com espaçosos jardins tropicais e muita água.
Já a estrada chamada Monkey Forest, é mais tranquila para caminhar e mais limpa. Por outro lado, a qualidade e os preços dos produtos costumam ser mais elevados também e, apesar dos funcionários serem geralmente moradores locais, ficamos sabendo por eles que mais da metade dos proprietários das lojas dessa rua em particular (Monkey Forest Road), são de fora: empresários chineses, javaneses…
Num dia particularmente quente e úmido, quando já estávamos derretendo e carregando o estômago nas costas, demos de cara com o Café Wayan, uma estrutura simpática de madeira, o staff nos cumprimentando com um convidativo sorriso na entrada. Claro, não titubeamos: entramos. E qual não foi nossa surpresa ao descobrir que havia muito mais do restaurante, se estendendo para os fundos da propriedade, com uma série de espaços privados, cobertos, diferentes um do outro na arquitetura e decoração, e um grande jardim, com propriedades altamente
tranquilizantes e terapêuticas.
Optamos por um espaço aberto, elevado, com apenas uma mesa, onde nos sentamos sobre as almofadas no chão. O serviço foi atencioso, impecável; o ambiente
agradabilíssimo; a conta, bem razoável e a comida, deliciosa. Antídoto para o cansaço, corpo e espírito, uma tarde memorável – o que mais podíamos querer? Saímos revigorados, prontos para nova caminhada.
A propósito, Wayan é um nome extremamente comum em Bali. Quase todo filho mais velho é chamado Wayan. Existe um sistema de quatro nomes balineses para homens e mulheres, que varia um pouco de acordo com o sistema de castas. São nomes específicos para o filho número um, número dois, três e quatro. A partir do quinto, o nome volta para o do filho número um. Daí a coincidência (nem tão coincidente assim) do nome do rapaz que dirige para nós e o nome do café.
Certa vez, numa aldeia, vimos duas procissões funerárias, carregando os falecidos para cremação. Nos surpreendemos com a multidão, o barulho, a música e o tom festivo do evento, com ar de efeméride, caixão suspenso e tudo. Para os balineses, este é um ritual importante de purificação e renovação. Ouvimos que acontece muito de as famílias sem recursos enterrarem seus mortos e esperarem meses, ou mesmo anos, até que tenham condições de realizar a cerimônia de cremação, que pode ser, inclusive, coletiva, como provavelmente a de hoje, para diminuir os gastos. Muitas vezes, o tempo já se incumbiu de arrefecer o choque e a dor do momento da perda. E a energia da procissão, como a que presenciamos, é quase sempre bastante positiva. Afinal, para eles, quem se foi estará nas próximas horas com a alma livre para reencarnar, provavelmente no próprio seio familiar, segundo a sua crença. E reencarnação quer dizer vida. Isso explica em parte o otimismo geral; a bravura extraordinária dessa gente pacata, cordial, mas com uma ferocidade brutal – conta a longa história – quando ameaçada ou atacada, bravura que possibilitou, nas palavras da maioria do povo local, a sua “consistência”. E sobrevivência.
No parque Monkey Forest, os macacos são espertinhos e, quase sempre, bem comportados. É possível dar-lhes bananas, caminhar entre eles e tirar muitas fotos
numa boa. O seu universo é interessantíssimo. Me diverti muito, grata pela compreensão de meu marido e Wayan, pacientemente à espera no carro, para seguir com a programação do dia.
Dedicamos também uma tarde às galerias de Seminyak e outra, à bela praia de Jimbaran, em Kuta.
Mas o último dia na ilha é que foi mesmo o nosso favorito. A fachada da galeria de arte Bidadari, com algumas obras expostas, atraiu nossa atenção e, ao passar por ela, pedimos para Wayan fazer o retorno na estrada movimentada, para uma visita.
Ao entrar, nos impressionamos com as muitas peças de madeira (esculturas, peças de móveis…) e o espaço despojado, com um belo jardim e um café adjacente. Descobrimos também peças belíssimas de seda, sarongs e lenços, desenhados pela proprietária japonesa, ausente naquele dia. Mas, encontramos seu marido, dono da companhia, o balinês, sr. Benesa.
Que pessoa mais querida! Num japonês fluente, esbanjando simpatia e vivacidade, ele nos contou a lenda da aldeia de Mas – onde nos encontrávamos – segundo a qual, um monge, certo dia, fincou na terra um pedaço de pau. E dele, germinou um broto, que se transformou numa bela árvore, dando mais tarde, flores de ouro (“mas”). O monge então, disse aos habitantes da aldeia que aquele era um sinal e dali por diante deveriam viver da madeira. E foi assim que ela passou a abrigar uma grande comunidade de artesãos entalhadores e carpinteiros.
O sr. Benesa atualmente administra um negócio de bom porte, tendo participado da renovação de castelos e diversos templos no Japão, país de sua esposa.
Tínhamos uma agenda cheia nesse último dia, típicos turistas, ávidos para circular e checar o máximo do restante da ilha. Mas, o encontro acabou sendo tão agradável, que acabamos esquecendo do tempo.
Animados com o vínculo comum do Japão, falamos de tudo um pouco: nossas origens, famílias, atividades, a vida em geral… Houve um momento, entre goles de suco de melancia, em que o sr. Benesa nos disse solene: “valorizo muito mais esse contato que estamos tendo agora, essa nova amizade que está nascendo, do que qualquer dinheiro no mundo. Para mim, as relações humanas, fazer bons amigos, é o que realmente importa na vida.”
Flor de ouro no coração também! O inesperado aconteceu. Em uma única tarde, em tão pouquinho tempo, pulamos todos os códigos sociais, os degraus de prache rumo à familiaridade e à amizade. Nos despedimos já amicíssimos, prometendo voltar e, a seu convite, nos
hospedar com sua família.
No final das contas, não compramos nada, nem nos foi cobrado o que consumimos com Wayan, no café da galeria. Saímos admirados com sua generosidade, simplicidade e calor humano. Foi, para nós, um encontro muito especial.
Nossa viagem chegava ao fim…
Para concluir, vendo a profusão de turistas estrangeiros em Bali, é natural questionar o efeito desse contato constante e da globalização na cultura local, tão tradicional e única. Será que ela sobreviveria com o passar dos anos, mantendo sua identidade e encanto? Ou sucumbiria ao impacto do turismo?
Francamente, muita areia para o meu caminhãozinho em tão curto tempo de estada. É uma questão para um sociólogo, antropólogo… e uma próxima visita, talvez. Mas, ao sentir a extensão da fé e dos rituais que permeiam todos os aspectos da vida em Ubud, o brio pela expressão artística, os costumes locais… e tendo ainda a alegria de cruzar o caminho de pessoas como Wayan e o sr. Benesa, quero crer que sim: os balineses vão seguir “consistentes”.
Estou na torcida.
* Essa abordagem do nosso Niemeyer é, claro, uma brincadeira. A arquitetura do hotel leva a assinatura de John Heah, da empresa inglesa Heah and Co.




Posted on 19/05/2010
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