Beleza no Olhar

Posted on 27/04/2010

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Até onde regride a memória?

Fecho os olhos e tento lembrar do primeiro clamor estético, pulsando dentro de mim. Dizem que toda experiência emocionalmente significativa é guardada em algum compartimento do subconsciente desde quando ainda no ventre de nossas mães! Não consigo, porém, chegar muito além dos três, quatro anos de idade… Pedido especial de aniversário: sapatinhos vermelhos.

Depois, nos anos seguintes, fixação por tudo mais que fosse rubro. E furta-cor. Some-se a isso, motivos de borboletas,  beija-flores, Topo Gigio, corujas, o céu aberto, estrelado… Além de um velho livro ilustrado do Patinho Feio. Dormia sonhando, eu mesma, um dia acordar um belo cisne…

Minha prima me diz que sua filha, a Laurinha, já tem uma percepção própria do que lhe agrada, sem ser ensinada, um senso intuitivo do belo, só seu, e eventualmente, pede para o pai trocar a sandália, que “está errada”, “não combina” com o vestidinho que usa…

Pequena grande Laura, graciosa e determinada, aos três anos de idade.

A mídia, na certa, tem um dedinho nisso. Mas, deve ser mesmo já nas primeiras canções de ninar, quando começamos a ouvir, e depois, a enxergar… De repente, um clique, a atração sensorial por sons, formas, cores, texturas, que vão se destacando, acendendo uma luz dentro de nós – pouco a pouco, direcionando tendências, predileções…

E a vida vai seguindo assim, numa eterna busca por esse prazer, a sensação benfazeja, que vem do airoso, do jeitoso, do singelo… de repente até, num momento de inspiração, do sublime.

Quanto a mim, hoje em dia, preciso andar perto do mar. Ele me acalma. Também estou sempre disposta a ver – e a clicar na câmera – os pores do sol, as flores e os bichinhos da vizinhança: gaivotas, coelhos, esquilos, patos… até uma família inseparável de cisnes que,  vira e mexe, dá o ar da sua graça…

Quem é que não gosta de ser mexido, tocado por alguma forma de beleza? São tantas as dimensões a descobrir: visual, auditiva, moral, espiritual, natural, ou não – explícita, implícita… Todos aspiramos a alguma em nossas vidas. Ela nos nutre.

Pensadores, desde os gregos pré-socráticos, passaram séculos tentando defini-la (filosoficamente, socialmente, cientificamente…), sem chegar a um consenso. Hoje, depois de muito “diz que diz”,  a percepção individual, segundo a máxima -  “a beleza está nos olhos de quem vê” – acaba falando mais alto. Essa, sim, até hoje, truísmo absoluto, verdade incontestada.

O inglês costuma fazer uma distinção entre “pretty” e “beautiful“. Meu marido, com autoridade nativa, diz que  “beautiful” tem uma aura de sofisticação, classe, uma beleza que nunca cansa, está sempre lá. Concordamos que uma pessoa com aparência agradável e alguma graça, pode ser “pretty”. Por outro lado, se ela tiver uma atitude positiva diante da vida e um coração grande, aí, sim, seria verdadeiramente “beautiful”. Visão pessoal. Qual é a sua?

Uma bolsa Louis Vutton é apreciada no mundo, noblesse oblige, como símbolo inquestionável de qualidade e requinte: “beautiful”, sem dúvida, para muita gente. Para outros, no entanto, um símbolo de status, que peca pela previsibilidade, por vezes, mixuruca esteticamente.  De novo, é questão de gosto, do olhar individual…

E o que dizer da arte conceptual de Yoko Ono? Para alguns, ela é simples,  tem uma pureza criativa, um quê de inocência de tempos remotos. Para outros, pelo contrário – no estilo avant garde que a caracteriza – é bastante complexa no simbolismo. E nas abstrações. Uma vez arrastei uma amiga para sua exposição em Tóquio. Fazíamos fila para martelar um prego na tela branca cheia de… pregos. Outra, para ver uma maçã… Ou uma chave de vidro (ou seria de cristal?) – a chave para o paraíso… Momentos de lirismo, deslumbramento, emoção inesperada, misturados a outros de “êpa, o que é isso?!” Outra vez, a visão pessoal. A artista tem uma leitura poética para tudo. Ficamos à cata desse olhar, umas vezes com sucesso, outras, não.

Há poucos dias, em meados de abril, fomos à exposição SOFA. Não se enganem como eu, quando ouvi esse nome pela primeira vez: não se trata de mais uma feira de móveis. SOFA vale para “Sculptural Objects & Functional Art”, uma exibição de arte e design, realizada anualmente em três pontos do país: Nova Iorque, Chicago e Santa Fe.

Dizem que a de Nova York, que visitamos, é a mais selecionada, esse ano com a participação de 58 galerias, de 10 países, entre eles o Brasil. A de Chicago é a maior e mais popular, incluindo muitos artistas desconhecidos. Já a de Santa Fe, recente, mas bem sucedida também, é a menor de todas, com o diferencial de uma boa variedade de trabalhos indígenas norte-americanos.

Foram quatro dias de exposição no Park Avenue Armory, um espaço alternativo de arte, em Nova York. Não resistimos e fomos duas vezes. Ficamos impressionados com a qualidade das obras, não só do ponto de vista estético, mas também com a mistura inusitada de materiais e a complexidade das técnicas, que pudemos desenredar um pouco ao ouvir os artistas.

Fomos embora na maior empolgação, discutindo o que nos tocou: a sofisticação colorida do vidro veneziano de Lino Tagliapietra; a criatividade de designers brasileiras como Thaís Guarnieri e Reny Golcman, no grupo da gemóloga/empresária Mariana Magtaz, simpatia em pessoa; o refinamento zen da cerâmica de Shoko Koike (quase toda vendida no primeiro dia!); a delicadeza rústica do trabalho da jovem Melanie Ungvarsky, fundindo material como cobre e vidro, nas suas jóias; etc, etc. Saímos bem high, sentindo a injeção de estímulos, a alma saltitando com os pequenos beliscões na percepção.

Claro. Voltamos no dia seguinte para ver mais. E, surpresos, nos deparamos com uma exibição inteiramente diferente.

Entre as obras, alguma coisa havia sido substituída. Mas, logo percebemos que a diferença maior estava mesmo em nós, na retina, na maneira de ver a arte. Depois do banho de beleza do dia anterior.

Passamos a enxergar o que antes passou batido. De repente, o indiferente se iluminou: o colossal se revelou no minimalista; a bazófia no pavoneio; a sutileza na discrição; o gritante no elusivo; a elegância na loucura… Novas combinações de cores e emoções.

O convite para a noite de abertura do evento chegou até nós via Berengo Studio, com sede em Murano. Adriano Berengo – um italiano, desses “bem italianos”, falante e gaio – toca o negócio há três décadas, agora com galerias em Tóquio também, administradas por seu filho, Marco. Dentre os artistas comissionados por ele, somos fãs declarados de Dusciana Bravura e Andrea Salvador.

Por outro lado, para minha alegria, Adriano nos confessou ter grande admiração pelo trabalho do paulistano Vik Muniz, um nome que atualmente ouvimos nos quatro cantos do mundo. Ele nos adiantou que já tem projetos de colaboração com o artista “genial, incrivelmente criativo e inovador”, sem economia nos elogios rasgados.

Já estamos à espera de novo convite…

Por falar em Vik Muniz, me lembro de uma anedota pitoresca que ele contou certa vez numa palestra (TED), explicando, com seu jeito franco e espirituoso, como veio parar nos Estados Unidos e dar início aqui a sua (brilhante) carreira internacional. Aparentemente, apartando uma briga, ainda no Brasil, ele levou um tiro. E, com o dinheiro da indenização (para não haver indiciamento) é que ele comprou a sua passagem que o trouxe ao país, em 1983. Um acidente de percurso, uma história interessante. Mas, que ironicamente não me surpreende. Afinal, a vida é, em si, uma arte.

“Hay que endurecerse sin perder jamás la ternura”, dizia El Che.

Ao que, bem mundana, eu sapecaria ainda:

“Com alguma beleza, para nos alegrar…”

Ninguém é de ferro.

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Posted in: Ponto de Vista