Primavera no Japão: Hanami

Posted on 05/04/2010

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Sessão nostalgia. Me lembro de uma festa nos idos, saudosos anos da infância, em Santa Alice, interior do Rio. Durante os preparativos, meu avô pacientemente nos ensinou (aos pequenos e marmanjos) a confeccionar pequenas réplicas decorativas de cerejeiras em flor, usando galhos secos e – pasmem – pipoca pintada! De dia, era o que era, mas sob a iluminação à noite, o feitiço se completava. Shazan! Como num passe de mágica, a simplicidade virava esplendor. Aos meus olhos de criança, no salão coberto de ramos, o contraste da coloração dos galhos, com o rosado suave das “flores” sob a luz, criava uma ilusão quimérica… Até hoje, inesquecível.

E, desde então, cresci assim, literalmente “babando” diante da visão daquelas árvores, em filmes, cartões e fotos de revista. O Rio é quente demais para o plantio. E nunca tive a oportunidade de ir a Campos do Jordão para o famoso festival. A flor de cerejeira era coisa rara.

Yotsuya

Qual não foi a minha admiração quando, muitos anos depois, pude finalmente ver as autênticas, do outro lado do oceano, pela primeira vez. As árvores do Parque de Ueno, em Tóquio, fizeram juz a toda a expectativa acumulada. Estavam tão carregadas que olhava para o alto e via um céu inteiramente florido (só faltavam anjos com trombetas); caminhava pelas alamedas com a sensação de atravessar um túnel delicado, todo feito de flores de um rosa pálido… leves, etéreas, como gases perfumadas…

E esse encanto foi se repetindo, ano a ano, a cada início de primavera em mais de uma década que lá vivi.

uma bela desconhecida

Foi interessante perceber a mudança progressiva dentro de mim, vindo de uma cultura ativa, participativa no Brasil, onde associava sempre prazer a movimento: a dançar, cantar, correr, jogar, brincar… No Japão, acabei descobrindo uma cultura mais contemplativa e a grande satisfação de apenas olhar e enxergar beleza. Contemplar deixou de ser ennui. Fiquei meio zen.

Ao longo dos anos, fui curtindo mais e mais o costume nipônico de ver e apreciar a delicadeza da sakura, a flor de cerejeira. Uma tradição originalmente chinesa, foi introduzida no século VIII no Japão, quando a nobreza começou a se reunir sob árvores de ume (ameixa japonesa) para comer, beber e contemplar as suas flores. Com o tempo, o costume foi mudando e, no século XVI, o imperador Toyomi Hideyoshi deu início a festas em várias cidades para ver a sakura, difundindo a prática do hanami (hana/花 = flor e mi/見=ver),independente da classe social, além de encorajar o seu plantio em todo o país.

Até hoje, as pessoas fazem piqueniques animados sob as cerejeiras no período do auge do seu florescer, que dura cerca de duas semanas, época em que todo mundo corre para pegar um bom lugar nos parques. Além da beleza, a sakura, no país, tem também um sentido poético, simboliza a vida curta do samurai, a efemeridade de tudo ao nosso redor… Fica um quê de melancolia no ar quando ela começa a se despetalar e sentimos o seu fim próximo, iminente… É quando cai a ficha e acaba o clima de festa.

Yotsuya

Numa nota mais light, por outro lado, depois do Ano Novo, abril é o mês que melhor traduz o frescor dos recomeços no Japão: início do ano fiscal, das aulas, do trabalho dos recém-contratados nas empresas e, claro, por isso mesmo, muitas cerimônias e reuniões de boas-vindas. Todo esse burburinho otimista coincide com a época do hanami na virada do mês. Justamente agora.

E eis que cá estou de novo, nesse momento, de passagem rápida por Tóquio. Dei uma sorte danada! As cerejeiras estão em flor, em toda a glória da sua curta existência…

Nessa estada, com tempo livre, decidi matar a saudade dos amigos e explorar a tradição, fazendo um pequeno tour pelos parques. Curti o hanami em quatro pontos da cidade: no Parque de Yoyogi, com sua atmosfera jovem e dinâmica; no festivo Parque de Ueno à noite; no bucólico Inogashira em Kichijoji; e em Yotsuya, o último, memorável, numa grande confraternização com amigos queridos.

Hanami com buffet

O que me chamou a atenção esse ano? No Parque de Yoyogi, um grupo havia contratado um chef e um buffet. Chique! Vi algumas barracas de camping armadas em Yotsuya para quando alguém quisesse tirar um cochilo; uma mesa impecavelmente posta com toalha, cadeiras, taças de vinho e tudo mais. Sofisticado, mas trabalhoso… E, em Ueno, à noite, além de muito saquê, cantoria e barulho, havia também vários moradores sem-teto na luta, se movimentando rapidamente para ganhar um dinheirinho a mais, coletando latas e outros materiais recicláveis…

Foram poucos dias, mas muito bem aproveitados. Fechados com chave de ouro, com o churrasco delicioso do Johnny, em Yotsuya, muitos risos e abraços, uma onda cálida de bons fluidos… Alegria, alegria!

O mundo dá muitas voltas. Mas, entre pipocas e flores, a realidade me saiu bem melhor que o faz de conta.

Um brinde à amizade.

Kanpai!


* O termo “kanpai”, desse jeito mesmo, de acordo com a convenção da escrita romanizada do japonês (com “n” antes de “p”), corresponde a “saúde”, quando fazemos um brinde.

** Outros textos sobre o Japão:

Revisitando Tóquio

Odawara e Hakone: O Lado Zen do Japão

Parque de Yoyogi

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