Hoje, no JFK, à espera do vôo, aproveito o tempo para correr atrás da leitura atrasada. Hora de deixar o retiro zen momentâneo e me reconectar com o mundo, o nitty gritty ao meu redor. Temos tempo, leio três jornais e, depois de duas horas, embarco atordoada com a overdose, o torvelinho difuso de realidades cataclísmicas e bizarras.
Aqui, trato de uma, em particular – a inusitada manchete do Wall Street Journal: “A Standoff over guns percolates at Starbucks”. Algo como “um impasse sobre armas é coado no Starbucks”. Ele mesmo, aquele espaço tranquilo, cafeinado, da música suave, com restrições ao fumo… Starbucks e armas. Êta, combinaçãozinha mais improvável…
Ou, assim pensava.
O artigo basicamente fala sobre o movimento “open carry” – ou “porte aberto”, nos Estados Unidos – que advoga, nada mais, nada menos que o direito de carregar as armas de fogo de forma visível, em público, como naqueles velhos filmes de faroeste (livepage.apple.com ). Nos últimos dias, a rede do Starbucks começou a debater se deve ou não banir o porte de armas nas suas lojas, prerrogativa legal de cada estabelecimento comercial do país. Como no momento esse veto não existe, os seus cafés acabaram se tornando um ponto popular para o desfile da patota abertamente armada.
Mas… um momento. Estamos falando de A-R-M-A-S. Um número crescente de americanos – pais, avós, filhos e netos, de ambos os sexos – fazendo questão de paradear como cowboys, armas de fogo à mostra. Por quê?
Vou tentar abordar alguns pontos básicos, sem embolar o meio de campo.
Antes de mais nada, o direito de carregar um revólver ou rifle é assegurado no país pela emenda número dois ou “second amendment”, uma noção bem martelada em 2002, no documentário “Tiros em Columbine”, de Michael Moore (livepage.apple.com ). Tedencioso ou não, na época, o filme plantou no mundo todo, a semente do questionamento sobre o permissivismo envolvendo as armas de fogo, depois do absurdo massacre na escola em Columbine – estado do Colorado – em 1999, com 13 mortos e 21 feridos, entre alunos e professores…
A constituição norte-americana, desde 1791, garante a todo cidadão, maior de idade, o direito ao porte de armas de fogo, mas hoje, na prática, a regulamentação varia bastante de estado para estado. Há lugares em que ela tem que ser escondida; outros em que deve estar visível; o nível de controle e burocracia difere dependendo da localidade.
Quando comecei a mergulhar nesse assunto, fui logo avisada que para entender melhor um pouco da psique por trás dessa acessibilidade, precisava ter em mente que ela estava bem alinhavada ao senso de auto-preservação, liberdade civil e, por incrível que pareça, à própria identidade do povo…
O ensaio “Desobediência Civil”, de Henry David Thoreau, publicado em 1849 (mencionado anteriormente no texto “New England e a Canção de Outono”), continua sendo até hoje uma espécie de “bíblia” nos Estados Unidos, uma das suas mais influentes obras no âmbito político, célebre também por ter inspirado grandes personalidades como Mahatma Ghanji e Martin Luther King… Sem falar na resistência dinamarquesa na década de 40, no movimento pelo fim do Apartheid na África do Sul nos anos 70 e tantos outros.
Thoreau essencialmente apregoa que não se deve jamais entregar o comando da vida ao governo mas, sim, agir sempre de acordo com a própria consciência. No
texto, ele ecoa o pensamento de Thomas Jefferson, quando diz que “o melhor governo é o que governa menos” ou, em outras palavras, aquele que pouco interfere. Nesse tom, o ensaio segue defendendo a auto-determinação e auto-suficiência. Essas idéias estão firmemente enraizadas no país, e nos remetem também a importância que o americano tanto dá à expressão “take a stand for yourself”, que as criancinhas ouvem desde pequenas na sua versão abreviada – “stand for yourself” – e quer dizer, no meu português, algo como “tomar uma posição em prol de si mesmo”, a noção de se valorizar e se honrar integralmente, garantir seus direitos com a cabeça erguida, sem depender dos outros. Não por acaso, ela parece ter relação com a convicção amplamente compartilhada de que andar armado é mesmo justificável, uma prerrogativa justa e legítima.
Isso, sem ainda tocar no histórico longo de relação da arma de fogo com a sobrevivência no país: fosse para colocar a comida na mesa, lutar pela liberdade, defender a vida e (expandir) as fronteiras…
Por essas e outras, a questão do direito ao porte de armas não é tão controversa por aqui. O debate maior diz respeito ao seu controle. Agora, em especial, se o porte aberto deve ser banido, ou não.
Apologistas do movimento, a la Thoreau, afirmam que não devem entregar a responsabilidade da sua proteção à polícia, ao governo, a mais ninguém. Segundo eles, cabe a cada qual se defender da maneira que pode. Muitos alegam que, na verdade, não querem jamais chegar às vias de fato, ao ponto de ter mesmo que usar o revólver mas, por outro lado, a sua visibilidade, acaba, no final das contas, indiretamente trazendo a paz desejada porque impõe um certo respeito. A arma de fogo exposta teria um efeito dissuasivo, diminuindo a probabilidade de se transformarem em alvo ou vítima de crimes em potencial. E o porte aberto, além de ser mais confortável, daria-lhes um acesso bem mais fácil, na hora do “vamos ver”, do que o porte velado, com a arma escondida embaixo da roupa.
O objetivo dos desfiles programados, de grupos abertamente armados, pelos Starbucks e outros pontos do país é, antes de mais nada, botar a boca no trombone, protestar. O lema do movimento open carry é: “um direito não exercitado é um direito perdido”.
O presidente Obama, inicialmente agressivo na verborragia a favor do controle de armas, uma das promessas de campanha, recentemente tem mantido reserva com relação ao assunto. Enquanto isso, muitos estados, temendo uma mudança repentina na sua posição, têm saído, nesses últimos meses, numa corrida afoita, atirando para todos os lados, para expandir os direitos pró-armas, que muitas vezes contornam as leis federais, aprovando medidas legalmente rejeitadas até então. Algumas, para mim, disparatadas como, por exemplo, a aprovação recente de um projeto de lei que permite carregar armas (escondidas) em bares, clubes e restaurantes que servem álcool, no estado da Virgínia…
Continua no país uma forte onda anti-Obama por conta de uma série de fatores. Para citar alguns: a proposta da reforma do sistema de saúde, que favorece uns em
detrimento de outros; o socorro financeiro dado às grandes empresas de Wall Street (a elite em grande parte responsável e menos abalada pela crise); o conservadorismo fiscal; a taxa de desemprego a 10.4%; a visão de que há uma intervenção demasiada do Estado em todos os segmentos da vida do povo… etc, etc.
Além de seguir sendo esculachado pela opinião pública, o governo tem ainda que se preocupar também com os crescentes grupos abertamente armados que, desde o ano passado, têm desfilado, com uma postura provocadora nos eventos presidenciais. Alguém, inclusive, chegou a ir petulantemente de metralhadora a tiracolo. E o serviço secreto nada pôde fazer, diante de um público boquiaberto e atônito, pois o estado (Arizona) autorizava o porte aberto de armas desse tipo…
Na verdade, está justamente aí, talvez, uma das razões-chave para o aumento em número (e determinação) dos membros do grupo defensor do open carry: a atual falta de confiança no governo. Mas, como sempre, nada é tão simples. Tem também o clima de tensão e ansiedade por conta das guerras e do terrorismo, a sensação de enfraquecimento (uma espécie de castração moral) de tanta gente às voltas com o desemprego e outros efeitos do redemoinho econômico…
Nos anos 90, foi notória e, até hoje, muito comentada, a história de uma senhora, chamada Stella Liebeck, no estado do New Mexico, que processou o McDonald’s
por servir um café super quente, que caiu no seu colo e lhe provocou uma queimadura. Ela entrou na justiça e acabou ganhando uma indenização de 480 mil dólares (originalmente o valor era de 2.7 milhões).
Isso me faz pensar que já é ruim demais a situação em que o sujeito está machucado, urrando de dor, com o café fumegante derramado sobre si… Que tal imaginar agora – uma década depois – o dito cujo esquentado, dilatando as pupilas, com uma dor insana, descontente com o staff, o mundo e a vida… uma Magnum 357 em punho?
…
Starbucks que se cuide…
E o restante de nós também.





Valdez
19/12/2010
Sei que vou ser exacrado, pustulado, xingado e incompreendido, mas o fato é que EU SOU A FAVOR DO PORTE DE ARMAS, sim é daí? Com a segurança publica no estagio que se encontra, não significa que quem porta arma é necessariamente psicótico, ninguem faz campanha pra desarmamento de Bandido, todos sabem que eles possuem armas irregulares e a restição ao porte só garante ao bandido que suas vitimas estão à sua mercê, que fosse garantido ao menos o beneficio da duvida se uma vitima pode ou não estar armada. Ja estão implementando alguns controles que considero mais inteligentes, como a identificação de lotes nas munições e até mesmo as armas intelignetes (com restritores de uso eletronicos, as armas só podem ser utilizadas pelo seu dono), isso sim mostra o uso racional. Quiça pudessemos tamb´pem andar armados e a mostra, seguramente eu seria um deles. É isso ai
Lilian Kano
21/12/2010
Oi, Valdez
Obrigada pelo comentário.
Entendo sua frustração.
É um assunto espinhoso, controverso, dificilmente vamos ter a unanimidade, conformidade total.
Eu, pessoalmente, acredito que muita gente não esteja preparada para a responsabilidade que exige portar uma arma. Com o acesso fácil e sua consequente banalização, imagino uma escalada na incidência de crimes passionais, homicídios por motivos fúteis, torpes ou mesmo por descuido, trazendo um outro tipo de violência e caos.
É bem possível que você seja uma exceção.
Mas, acredito que deve-se legislar buscando um equilíbrio entre a proteção pessoal, individual, e a proteção da sociedade como um todo.