
Em plena sala do portão de embarque – em Honolulu – como num cenário da Disney, passarinhos voam serelepes, pincelando aqui e ali, um sorriso nos lábios das pessoas, pacientemente à espera da conexão…
No avião, com prazer, observamos a leveza e o colorido das roupas, dos chapéus, o estado de graça coletivo, gestos amplos, semblantes desanuviados, desde então, programados para a descontração e a promessa antecipada de boas lembranças. No ar, a noção lúdica, gostosa, compartilhada, de que, enfim, se inicia a aventura nesse pequeno pedaço da Polinésia. O avião finalmente decola. Alegria, alegria, aqui vamos nós!
Hoje, escolado, pelos anos que lá viveu, meu marido, inspirado, diz que a sua impressão mais marcante é
a “da música, das flores e do seu perfume, que sentimos logo ao desembarcar”. De fato, quantas vezes, nas caminhadas, não aspiramos o aroma rico das plumerias (jasmins-manga), do gengibre, das gardênias e das folhagens…
Nessa viagem, a música mais tocada foi a chamada “Jawaiian”, uma mistura envolvente de reggae jamaicano com a música local. É doce e, ao mesmo tempo, alto astral, perfeita para entrar com o pé direito no ritmo do dia, nos passeios à beira-mar, os pores do sol bebericando um mai tai, a brisa suave da tarde, as noites de luar… Como tanta coisa no arquipélago, parecem chamar a felicidade.
Por outro lado, em retrospectiva, quando penso nessa terra, a palavra-chave, para mim, é “generosidade”. O Havaí é mesmo, como dizem, “o cruzamento do Pacífico”, com sua diversidade étnica, onde rostos como o meu são corriqueiros, a ponto de ser facilmente confundida com residentes locais. Muita gente tem uma ou muitas misturas, um pezinho em algum lugar da Ásia (cerca de 55%); sendo os nativos havaianos, e das ilhas do Pacífico, correspondentes a 21% da população, segundo dados de 2008… Um povo mestiço, excepcionalmente amigável, relaxado, caloroso… Na estada de duas semanas, ficamos impressionados. Não
houve uma única pessoa com quem falamos que se mostrasse amuada ou mal disposta, todos de uma simpatia quase sempre do tipo sem cifrões no olhar, ou a manjada polidez de manual, com aparente prazer em dar, comunicar, informar, ajudar… Senti uma generosidade vibrante nas pessoas. E também, na natureza, nas criaturas marinhas que até pareciam posar para as fotos; na vastidão e nas possibilidades das terras desocupadas; na dimensão das estradas; nas imensas porções de comida… Um perigo. Como come-se bem…
Big Island/Hawaii
Nosso primeiro destino foi a cidade de Kailua-Kona, na “Big Island”, apelido da ilha do Havaí – de mesmo nome do arquipélago – onde passamos alguns dias com amigos. Lá perto, visitamos, entre outros, o bonito resort Mauna Lani, na Kohala Coast, vimos diariamente vários esguichos d’água em alto mar, sinal inconfundível da presença das baleias. Ao sul, descobrimos a área mais antiga, com uma cadeia de vilarejos e muitas fazendas de café. Nessa parte da viagem, acima de tudo, aproveitamos para curtir a boa companhia, as praias e a arte local.
O que vi à primeira vista? Aos meus olhos, uma mistura de Califórnia – com sua cadeia de Taco Bells, telhas vermelhas e muita arquitetura mediterrânea – e um pouco de Okinawa, com um estilo de vida mais rústico, pontuado de tradições e grandes belezas naturais.
Numa loja, encontrei uma das poucas brasileiras dessa viagem. Natural de Porto Alegre e amante do surf, Mila Pires estava lançando sua própria linha de biquínis por lá, com a marca de mesmo nome. Muito bonitinhos, por sinal.
Um californiano, residente havia doze anos, disse: “Kona é o tipo de lugar para se viver com um bom companheiro, a cara-metade. Se alguém se aventurar solteiro, sozinho, pode ser bem solitário…”
Realmente, aquela parte do arquipélago não parecia ser para borboletas sociais. Apesar da atmosfera boêmia dos barezinhos e restaurantes à noite, e do fluxo de forasteiros, era pacato demais, ideal para relaxar, com grandes vazios demográficos e distâncias a se cobrir de um lugar a outro. Perto do aeroporto e da costa, o terreno – composto de vastos campos de lava – era escuro, pedregoso, quase nu…
O arquipélago emergiu do mar milhares de anos atrás, em consequência de atividades vulcânicas, e é atualmente um dos pouquíssimos lugares do mundo em que podemos ficar cara a cara com um vulcão ativo. Na verdade, dois, ou três ao todo, com algum esforço: o Mauna Loa, o Kilauea e o Loihi (submerso) na Big Island.
Pela ilha, no caminho de um oásis a outro, vimos muita coisa escrita nos campos negros de lava, em pedras brancas, dispostas em destaque, cuidadosamente, na beira da estrada. Mais tarde, ouvi que as palavras que líamos, como um graffiti, durante as corridas de carro, expressavam os desejos mais íntimos dos seus autores: o nome da pessoa amada, pessoas que já se foram, quem passou por lá, etc. Um costume local.
À noite, a iluminação das estradas era suave, em lâmpadas amarelas de baixa pressão de sódio, para manter a poluição visual ao mínimo. Dessa forma, os animais, como as tartarugas e os pássaros migrantes, não se desorientavam, e o céu se mantinha estrelado, um paraíso para os poetas, os românticos e os astrônomos de carterinha.
Oahu
Mais tarde, voamos de volta para a ilha de Oahu. Logo ao chegar, sentimos o pulsar do coração econômico do Havaí, o impacto do contraste com a quietude de até então: burburinho de atividades fervilhantes, trânsito movimentado ao longo de todo o caminho até o hotel, num cenário não tão diferente dos grandes centros no restante dos Estados Unidos.
Do aeroporto de Honolulu, seguimos direto para o Ihilani, passamos por uma segurança mais relaxada do que o esperado e fizemos o check in. Aí, aconteceu a nossa maior anedota na ilha. Ao nos dirigirmos para o nosso quarto, apreciando a paisagem, olhando distraidamente do andar de cima, eis que percebemos uma certa agitação na entrada lateral do hotel: uma brigada de jornalistas com câmeras a postos e seguranças afastando os transeuntes. Como havíamos lido no jornal, às vésperas, logo entendemos que Hillary Clinton deveria estar por perto. A curiosidade falou mais alto que o cansaço. Preparei a minha câmera e esperei o momento do serviço secreto notar nossa presença e nos retirar do local – o que nunca aconteceu. E assim, sem querer, acabamos testemunhando o encontro com o chanceler japonês, Katsuya Okada.
Na manhã seguinte, ao descer ao lobby do hotel, mais uma vez, pudemos dar de cara com a secretária de Estado, concedendo a última entrevista a uma rodinha de jornalistas, antes da partida rumo a Papua Nova Guiné. Pelos jornais, mais tarde, ficamos sabendo que o encontro não resultou em acordo sobre a relocação da base naval de Futenma. Para minha satisfação e a de muitos amigos residentes no Japão, que torcem pela saída definitiva da instalação militar norte-americana e a preservação da tranquilidade e da rica diversidade ecológica de Hekono, em Okinawa. Assunto para um outro texto.
Em Oahu, fica a capital do estado, Honolulu; o porto de Pearl Harbor; a cratera vulcânica de Diamond Head; e o famoso bairro de Waikiki, paraíso do consumo, dos grandes hotéis de luxo, uma “Disneylândia”, principalmente para as visitas maciças dos turistas japoneses. É impressionante a infra-estrutura para receber esse público. Seja nos excelentes restaurantes de comida nipônica; nos letreiros, informações e anúncios em japonês; e no número de funcionários fluentes no idioma em toda a indústria de serviços.
Na ilha, participamos de um cruzeiro (Ocean Joy cruiselivepage.apple.com) em alto mar. Já, em terra firme, passamos pelas praias de Kaneohe Bay, Kailua Bay, North Shore – onde vimos as ondas gigantescas do surf – e Hanauma Bay. Esta última, minha favorita, o pináculo dos passeios.
Hanauma Bay bem merece um parágrafo… Trata-se da primeira área de preservação marinha do estado. Tem fila para entrar, pagamos um ingresso (individual) de 5$, e os visitantes devem assistir a um curto vídeo explicativo antes de seguirem com suas atividades. O número de pessoas admitidas é limitado, por isso, a praia, nunca está lotada. Lá, encontramos salva-vidas de plantão, áreas para piquenique, trilhas, chuveiros, banheiros, aluguel de snorkel e guarda-volumes, lojas e estacionamento (1$). Um pedacinho do paraíso, com uma biodiversidade impressionante, onde o tempo literalmente pára. Belíssimo, belíssimo.
O cruzeiro de cerca de três horas, no dia anterior, havia sido uma experiência gostosa, emocionante até. Nunca tinha visto baleias tão de perto. A ansiedade e a euforia nos acompanharam na busca, e a alegria de ser surpreendida com a sua presença dinâmica, em pulos acrobáticos e esguichos aqui e ali, é indescritível. Mas, seus movimentos eram muito rápidos para a fotografia. Vou ter que imprimi-los na memória…
O staff a bordo era atencioso, bem treinado, eficiente na orientação e no trato aos passageiros. Aqui também, naturalmente, havia uma falante de japonês para atender os turistas nipônicos. Almoçamos em alto mar, paramos em dois pontos diferentes para mergulhos, vimos muitas tartarugas.
Entre o cruzeiro e o dia em Hanauma Bay, entretanto, minha preferência é por esta última, pela liberdade de ir e vir, sem a sensação de confinamento do barco, e pelo acesso mais fácil, imediato, à vida marinha, até para megulhadores iniciantes.
Com alguma sorte, uma experiência ainda a ser repetida…
Para completar a viagem, na última noite, jantamos à beira-mar, no Royal Hawaiian Hotel, em Waikiki. A música ao vivo, as tochas acesas, o aroma das flores, a brisa suave e, acima de tudo, a companhia, fecharam a viagem com chave de ouro. E a vontade de voltar correndo na primeira oportunidade.
Tomara.
Aloha!
# Mais tarde, escrevi:
- Havaí, o Outro Lado do Paraíso













Agosto 18th, 2011 → 17:27
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