- Onde está minha mãe? Perguntou ansiosa, num fiozinho de voz.
- Bem ali, Maria. Lá em cima, não está vendo? No céu, no infinito, olhando por você todo o tempo. Tem que escovar os dentes direito, obedecer à avó, parar com os petelecos no primo, ser uma boa menina. Mamãe está vendo tudo.
Os olhinhos, num caleidoscópio de imagens desconexas, se arregalaram. O que ela faz lá em cima? Por que tão longe? Viria visitá-la? Teria asas?
Tantas perguntas pululando na cabeça…
Algo, porém, na gravidade do olhar da tia, foi colocando um freio no interrogatório já tomando forma, prestes a se iniciar.
Tudo bem. No fundo, talvez tivesse mesmo um certo medo de ouvir respostas…
Primeira grande revelação de infância. Não haveria, de fato, como escapar dos olhos maternos? Não teria então, em momento algum, um segredo só seu? Sua aversão a cebolas e jilós; as manhas, brigas, travessuras, malcriações… Tinha que tomar cuidado. Tinha que ser uma boa menina. A mãe observava cada passo. E, no seu universo de criança, ela era uma fada.
Não tardaram a começar olhares perdidos, para o alto. Noites de luar, cheias de mistério, um fascínio meio mágico, sempre remetiam à presença materna, constante, atenta e protetora. Com a varinha de condão, a observava de uma janela distante, num daqueles muitos pequeninos buracos do queijo suíço. Tinha um ar romântico, o vestido branco rodado, como na foto desbotada e nos filmes em preto e branco da sessão da tarde… Era tão bonita. E morava no céu.
Os anos foram passando. As noites eram estreladas no sítio. Sinfonia de grilos e sapos. Cheiro de terra, cachorro, mato, chuva… Foi uma boa menina. Decorou o nome dos pássaros, das constelações, descobriu discos voadores, foi dormir no quintal contemplando as estrelas. E a mãe, sempre na janela da lua, etérea, vigilante; mais tarde, também o pai, espiando por entre as nuvens. Finalmente, pensou ter visto Deus… E luzinhas que se moviam ligeiras, as únicas que não ofereciam conjecturas, de tão banais que àquela altura haviam se tornado os aviões, vagalumes do céu.
Todavia, não sejamos injustos. Mesmo eles tinha um quê de mistério. Afinal, tantas vidas voando no interior daquele pisca- pisca fugaz. Talvez lá em cima houvesse, como ela, alguém assoando o nariz, ou lendo O Pequeno Príncipe; pessoas medrosas, audaciosas, os tristes e os contentes… Alguém perdido, quem sabe, um marciano, como a própria menina …
Com o tempo, o sonho foi inflando. Maria já se via voando dentro da luz em movimento. Devaneava, suspirava… Acalentava o desejo de atravessar o oceano, descobrir um pouco do mundo que via na TV, aquele universo em que tudo era novo, palpitante e possível. Ouvia as histórias do avô e estranhamente falava com facilidade, desenvoltura de criança, o idioma dos antepassados. Colocou na cabeça a idéia de um dia ver com os próprios olhos uma parte de suas raízes.
Foi crescendo junto com a tal idéia, desabrochando pouco a pouco, aprendendo a acreditar no futuro, nas possibilidades, em si mesma… E eis que num belo dia, ao término de mais um daqueles segmentos solenes da vida, canudo na mão depois de muito esforço, o sonho começa a se materializar. Finalmente conseguira a tão desejada viagem, na forma de uma bolsa de estudos para o exterior. Riu e chorou.
Ansiosa, contou os dias. Mas não queria uma separação abrupta. Foi se despedindo aos poucos do namorado, dos familiares e amigos, dos livros, da praia e dos churrascos. Antecipando a saudade, alternando melancolia e contentamento, mais estouvada do que nunca, cabeça sempre nas nuvens.
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Um calor de rachar no centro da cidade. No semáforo, a multidão atravessava apressada a Rio Branco. Sua cabeça flutuava entre templos, quimonos, cerejeiras e cachecóis… quando, de súbito, um frio visceral lhe percorreu a espinha. A bolsa ganhou uma leveza repentina.
Assustada, abriu-a para constatar o que instintivamente já sabia: não havia mais carteira. Olhou em pânico para trás, para os lados, as pessoas que caminhavam com um brilho suspeito no olhar. Todas pareciam observá-la de um jeito estranho. O homem atrás de si carregava um jornal e olhava para baixo.
A carteira! Teria deixado cair? E o documento de identidade, lá dentro, no meio de tantos papéis inúteis! Às vésperas da sua primeira viagem ao exterior, sem a carteira de identidade! Não havia mais tempo para providenciar outra…
Mas o seu anjo da guarda não permitiria isso. Devia estar no chão, caída em algum lugar… Como sempre, no último momento, tudo havia de se resolver. Retornou para a outra calçada da rua e começou a busca. Não demorou muito, se viu rodeada de curiosos e veio o banho de água fria:
- Foi roubada, né, filhinha?
Não havia mais como se iludir. Tudo o que pensava era que não partiria mais em viagem. Curto-circuito. Lágrimas quentes.
Uma boa alma disse:
- Não chora, menina. Vai tomar a barca? O ônibus? Te dou a passagem para casa. Não se preocupa.
Em prantos, a resposta de Maria:
- Preciso da identidade, estava dentro da carteira. Sou estudante, tinha pouco dinheiro.
- …
-Não sei o que fazer. Preciso muito…
-…
-De todo jeito… Preciso…
Silêncio… Cinco, seis vendedores ambulantes, semblantes suados, maltratados pelo sol escaldante, com um fraco por choro de mulher, entreolhavam-se meio sem jeito, impotentes, sem saber o que dizer, o que fazer para estancar as lágrimas que rolavam insistentes. O desespero da jovem parecia ecoar no coração de cada um.
Os homens trocaram olhares sutis. Um deles, finalmente, quebrou o silêncio:
- Faz o seguinte então. Passa por aqui depois das quatro horas. Pergunta pela sua carteira naquela banca de jornais. Ela pode aparecer à tardinha. Aqui tudo é possível.
- Mas, como a carteira pode aparecer?
-É simples: esse é o ponto do ladrão. Quando ele der as caras de novo, a gente pede para ele devolver. Mas, ó, não adianta falar com o policial da área, porque aí nada vai acontecer. Deixa com a gente.
Um fio de esperança. Maria se recompõe:
- Vocês falam com ele?
- Po’deixar.
Em segundos, acessa as possibilidades limitadas, sem dinheiro, e timidamente pergunta:
- Não posso voltar para casa. Dá para ficar aqui com vocês?
- Claro!
Acolhida pelos camelôs, passa a tarde jogando conversa fora com essa gente simples, generosa, com direito a um banquinho exclusivo e muita atenção, entre repetições regulares de “leva dois, paga um”. O que também não impede eventuais olhares nervosos à sua volta, buscando no meio do burburinho, uma figura que se encaixe no perfil criminoso do seu imaginário.
O tempo passa e um dos vendedores sugere dar uma volta à procura do ladrão, talvez esteja num outro ponto mais adiante, no Largo da Carioca. Cansada de esperar, movida pelo velho sonho de quimonos e cerejeiras em flor, Maria não pestaneja, logo concorda e saem os dois a caminhar pelo centro da cidade.
Hoje, anos depois, esse cenário tão habitual é visto por uma lente mais apurada, menos maniqueísta. Pela primeira vez, Maria começa a compreender a engrenagem invisível daquele universo de territórios demarcados, cumplicidade policial; a coexistência maleável, astuta, bem-humorada, dessa gente tão diversa, em contorcionismos diários, esticando-se, esticando-se com toda a força, para alcançar um ínfimo lugar ao sol.
O ladrão não está no ponto esperado. Decepção. Caminham mais um pouco. Ronaldo é o nome do camelô. Evangélico, mora em Bangu e tem o coração tão puro quanto o de Quixote, desbravando o caminho para sua Dulcinéia. Sua companhia é reconfortante. Aos poucos, porém, fora das fronteiras amigas, de volta à realidade agressiva dos transeuntes apressados, ela começa a cair em si e a se dar conta, finalmente, da gravidade da situação. O medo lateja. Em poucos minutos, pode estar cara a cara com o ladrão.
- Está ali!
Aproximam-se. É um mulato de olhos esbugalhados, mais vermelhos que os dos costumeiros fumantes do ocasional baseado na faculdade. Maria reconhece o homem que atravessou o sinal com o jornal na mão.
Ronaldo explica:
- Aí, a menina é da área – diz ele – é sangue bom, amiga da gente. Quebra o galho aí, meu irmão. Ela está com um problema, precisa da identidade. Pode ficar com o dinheiro, mas não dá para devolver a carteira?
O ladrão olha nervosamente para os lados, acuado como um animal. Imagina uma cilada, um guarda por perto, pronto para prendê-lo. Ameaça a menina que, a essa altura, consciente do caminho sem volta, recorre instintivamente ao último recurso. Dispensa a verborragia nervosa, respira fundo, baixa as defesas e olha bem dentro dos olhos do estranho à sua frente. Faz um esforço para disfarçar o medo, despir seu olhar de qualquer traço de estigmatização. É uma menina da área, tão simples, complexa e humana quanto ele. Só faz balbuciar: “por favor, por favor…”
Talvez tenha sido a falta de malícia, a veemência das palavras, quem sabe, a juventude, a coragem cega, o brilho de esperança na retina, único restante na caixa de Pandora daquela selva urbana, enfim, quem sabe, o inusitado de toda a situação… O fato é que naquela fração de segundos, algo no coração do ladrão amoleceu e a decisão foi tomada.
Diz que já não tem a carteira. Ronaldo pergunta se tem alguma lembrança de onde a jogou, ao que responde que sim. Pode levá-los até lá, mas a menina tem que andar ao seu lado.
Seguem os três, em silêncio, pelas ruelas de trás, da parte mais erma e empoeirada do centro da cidade. O coração de Maria palpita. Ninguém saberia de seu paradeiro se desaparecesse ali, naquele momento. Manchete do jornal do dia seguinte na certa, choradeira em casa. Que insanidade! Andando com dois estranhos, naquela rua sem viva alma por perto. Por que era tão impulsiva e crédula? Por que acreditava tão piamente na bondade das pessoas?
Subitamente param. O ladrão se arrasta para baixo de um carro estacionado e se levanta com a velha carteira cor-de-rosa nas mãos. Havia chovido pela manhã, molhou a calça na poça d’água embaixo do carro, mas parece não se importar. Há um minuto, à beira de um precipício, caminhando em piloto automático, Maria está agora nas nuvens!
O ladrão pergunta-lhe quanto tinha, retira um grosso maço de cédulas do bolso e, surpreendentemente, ao ouvir o valor, lhe devolve a carteira com todo o dinheiro. Ela agradece repetidas vezes, tem ímpetos de apertar-lhe a mão, mas se contém. Ele começa um longo sermão, explicando por que o furto foi tão fácil. É preciso ter atenção, colocar um velcro ou fecho na bolsa hippie e posicioná-la estrategicamente quando andar por aquelas bandas. Do contrário, seria “trouxa” de novo.
Segundo ele, vítimas são, quase sempre, aqueles que pedem para sê-lo. Grande lição de vida.
Ronaldo, o herói do dia, sorri com seu jeito bondoso, agradece e tira uma medalha do bolso :
-Só Cristo salva!
Aí, vamos tomar um cafezinho?




Posted on 08/10/2009
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